abr 22 2016

E-tegami | 絵手紙

Publicado por em artes,japão

E-tegami (絵手紙) significa, literalmente, carta pintada (“e”: desenho, pintura; “tegami”: carta). Trata-se de uma arte japonesa que comunica o sentimento de uma pessoa em um particular momento, ao combinar uma pintura colorida com uma pequena mensagem. No Japão, é possível enviar e-tegamis pintados em envelopes e postais pelos Correios.

O e-tegami é feito utilizando um pincel, aquarela e papel. Embora o papel seja o suporte mais comum, por vezes, os japoneses pintam em outros objetos, como os leques.

Técnica de e-tegami em leques

O interessante do e-tegami é que ele é feito sem rascunhos, modelos ou padrões. A recomendação dada é apenas de deixar espaços em branco, por ser importante na composição do e-tegami. Os temas comumente retratados são flores, plantas e elementos do dia-a-dia.

Para quem deseja experimentar a técnica, existem lojas especializadas em artigos japoneses que comercializam os pinceis, papeis e leques para serem pintados. Em São Paulo, é possível encontrar na Daiso e diversas lojas da Liberdade.

Referências

JAPANESE Canadian Cultural Centre. E-tegami. Toronto: JCCE, [s.d.]. Disponível em: <http://www.jccc.on.ca/en/programs/cultural/e-tegami.php>. Acesso em: 21 abr. 2016.

FUNDAÇÃO Japão de São Paulo. Workshop MOC: e-tegami. São Paulo: FJSP, 2013. Disponível em: <http://fjsp.org.br/agenda/workshop_etegami/>. Acesso em: 21 abr. 2016.


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out 16 2014

Jikininki

Publicado por em japão

                     

Musô Kokushi, monge zen-budista, viajava pelo interior da província de Mino, quando se perdeu em local ermo, sem nenhuma residência à vista. Caminhava há longo tempo já sem esperança de encontrar abrigo quando avistou no alto de uma colina, iluminado pelos últimos raios do dia, um anjitsu (pequenos abrigos à beira de caminhos, construídos por monges, que os utilizam para se abrigar durante peregrinações). O casebre parecia estar em péssimas condições, mas mesmo assim, apressou-se, encontrando ali a residir, um velho monge a quem pediu pousada. Este recusou asperamente, recomendando ao exausto caminhante, seguir adiante até um vilarejo próximo que se situava num vale, onde certamente poderia encontrar pousada e comida.

De fato, Musô chegou ao pequeno vilarejo que consistia em menos de doze residências, onde foi gentilmente recebido pelo chefe. Quando chegou, cerca de 40 a 50 pessoas estavam reunidas no aposento principal mas Musô foi levado a um aposento que lhe foi mostrado onde recebeu comida e cama. Estando muito cansado deitou-se para descansar. Mas pouco antes da meia-noite, foi despertado pelo que lhe parecia ser o choro de pessoas que vinham do aposento ao lado. A leve porta de madeira deslizou delicadamente surgindo a figura de um jovem com uma lanterna chochin que respeitosamente, cumprimentando o monge, falou:

– Senhor monge, é com pesar que lhe comunico que agora sou eu o chefe da casa. Eu era apenas o filho mais velho, mas meu velho pai faleceu e está sendo velado na sala ao lado. À tarde quando o senhor chegou cansado, não queríamos aborrecê-lo com o triste acontecimento. Meu pai havia falecido havia poucas horas antes do senhor chegar e os moradores da vila estavam aqui para a cerimônia fúnebre. Agora estamos todos indo para um vilarejo próximo, distante cerca de três milhas para passar a noite. Segundo um costume nosso, ninguém deve permanecer nesta vila à noite quando ocorre alguma morte. Fazemos as orações, levamos oferendas ao falecido e o deixamos só aqui. Durante a noite, estranhas coisas acontecem na casa onde foi deixado o corpo, por isso, acho que seria melhor o senhor nos acompanhar. Certamente acharemos um bom lugar onde o senhor possa passar a noite no vilarejo. Mas talvez, como o senhor é um monge, não tenha medo de demônios ou maus espíritos e não se sinta desconfortável na presença de um morto. Se assim for, o senhor pode ficar nesta humilde casa. No entanto, devo lhe dizer, ninguém, a não ser um monge, ousaria permanecer aqui nesta noite.

Musô respondeu:

– Estou profundamente agradecido pela sua gentileza e generosa hospitalidade. Você não deveria ter se preocupado comigo a este ponto. Embora cansado, como monge teria realizado a cerimônia fúnebre antes de vocês partirem. Permita-me permanecer aqui. Realizarei a cerimônia só e aguardarei aqui o regresso de vocês pela manhã. Eu não sei a que você se refere quando fala em demônios ou maus espíritos mas, eu não temo essas coisas. Quanto a isso, você não deve se preocupar comigo.

O moço pareceu satisfeito com a segurança de Muso e agradeceu a boa vontade e as palavras de conforto, no que foi seguido pela sua família e pelos aldeões que ali estavam, já prestes a partir.

– Senhor monge, disse, sentimos deixá-lo só quando deveríamos zelar pelo seu bem estar. Pela regra do nosso povoado, ninguém deve permanecer aqui após a meia-noite. Nós lhe suplicamos, amável monge, que o senhor tome o máximo cuidado consigo porque não estaremos aqui para qualquer eventualidade. E se acontecer qualquer coisa estranha durante nossa ausência, por favor, conte-nos pela manhã.

Todos então deixaram a casa, com exceção do monge que rumou para o aposento onde jazia deitado o morto. As oferendas estavam dispostas diante do corpo iluminadas por uma pequena lanterna utilizada em cerimônias budistas chamada tomyô. O monge então calmamente iniciou suas orações naquele ambiente silencioso iluminado apenas pela lanterna – a única chama em todo o vilarejo. Lá fora, apenas uns poucos grilos quebravam o silêncio coberto por uma noite sem lua. Terminada a cerimônia o monge mergulhou em profunda meditação e assim permaneceu por longo tempo. Nada se ouvia, nada se via lá fora. A chama do tomyô oscilava de vez em quando acusando a leve brisa que passava pelo aposento.

De repente, o monge se viu interrompido de sua meditação. Ouviu um andar pesado, lento, rastejante. E se viu sem forças para falar ou se mover e assistiu a tudo estático, paralisado diante de tão horrenda cena: a enorme massa rastejante em forma humana entrou no aposento e levantando o cadáver, devorou-o como um crocodilo devora suas presas. Devorou também as oferendas antes de se esgueirar para dentro da escuridão, de onde viera, desaparecendo tão misteriosamente como quando surgiu.

Na manhã seguinte os aldeões encontraram Musô acordado quando regressaram. Cumprimentando-o, entraram no aposento e não se mostraram surpresos pela ausência do corpo e das oferendas. Disse o aldeão dono da casa:

– O senhor deve ter visto algo não agradável ontem à noite. Estivemos preocupados com o senhor, mas vendo-o vivo e são, estamos felizes. Teríamos ficado com prazer com o senhor, se fosse possível, mas como lhe disse ontem à noite, sempre que alguém morre, as regras aqui nos obrigam a deixar o morto só, na vila à noite. Quando não se cumpre isso, alguma grande desgraça ocorre na vila. Quando nos ausentamos, na manhã seguinte as oferendas e o corpo sempre desaparecem. Ninguém sabe a causa mas o senhor deve ter visto algo.

E Musô relatou sobre o que acontecera na madrugada mas nenhum dos presentes pareceu surpreso com o ocorrido.

– O que o senhor nos relatou, falou novamente o dono da casa, é o que ouvimos dos nossos ancestrais desde há muito tempo.

Musô perguntou então:

– O monge que mora no alto da colina não lhes realiza nenhuma cerimônia fúnebre?

– Que monge? Indagou o jovem senhor.

– O monge que ontem me indicou esta vila. Eu fui até seu anjitsu lhe pedir pousada mas ele recusou. Os aldeões entreolharam-se espantados e após algum silêncio, disse o jovem aldeão:

– Não há nenhum monge e nenhum anjitsu na colina. Há muitas gerações não há nenhum monge nesta vizinhança.

Musô nada mais disse sobre o assunto por ter a certeza de que seu gentil interlocutor o imaginava ter se iludido, visitado uma miragem. Despediu-se de todos e após receber os agradecimentos dos moradores, decidiu prosseguir sua viagem, passando antes onde havia visto o casebre no alto da colina. Estava certo de que havia o anjitsu e que fora recebido por um velho monge. Não poderia ser apenas sua imaginação.

Não teve dificuldade em encontrar o casebre e desta vez o velho monge abrindo-lhe a porta convidou-o a entrar. Enquanto Musô se acomodava, disse-lhe, curvando-se respeitosamente, em voz humilde o solitário morador:

– Eu estou envergonhado! Muito envergonhado.

– O senhor não tem que se envergonhar por ter me recusado pousada noutro dia, disse Musô. O senhor me indicou aquela vila onde fui muito bem tratado e lhe agradeço por isso.

– Lamentavelmente não posso dar abrigo a ninguém, continuou o morador. A razão da minha vergonha não é por isso. Estou envergonhado porque o senhor deve ter me visto em minha real forma – na noite passada, fui eu que devorei o corpo e as oferendas naquela casa enquanto o senhor lá estava. Sabe, senhor monge, eu sou um jikininki [1] – um comedor de carne humana. Tenha piedade de mim e deixe-me relatar como fui reduzido a esta triste condição.

Acomodando-se diante de Musô, olhar cabisbaixo, prosseguiu o velho monge:

– Há muito, muito tempo atrás, eu era um monge nesta desolada região. Não havia nenhum outro monge por aqui. Por isso, as pessoas traziam os mortos até aqui, caminhando às vezes longas distâncias, para a cerimônia fúnebre. Eu os atendia apenas por interesse próprio, via meu ofício como profissão comercial e cobrava pelas cerimônias porque para mim, roupa e comida apenas, eram ganhos insuficientes para um monge. Por causa deste comportamento, após minha morte, renasci na forma de jikininki, como o senhor me viu e sou obrigado a devorar os corpos dos aldeões que morrem nas redondezas. Agora, senhor monge, suplico-lhe que o senhor realize a cerimônia do segaki [2] para mim; salve-me com suas orações, rogo-lhe para que me livre o mais rápido dessa horrível existência. Assim falando, o monge desapareceu diante dos olhos de Musô. O casebre também havia desaparecido. E Musô encontrou-se no instante seguinte no meio de um capim alto, ajoelhado diante de uma velha tumba coberta de musgo, de formato gorin-ishi [3], que parecia ser a tumba do velho monge.

 


[1] Literalmente homem que devora maus espíritos.

[2] É cerimônia especial budista para livrar pessoas na condição de gaki (mortos enviados ao Inferno da Fome) ou de espíritos famintos.

[3] Literalmente “círculo das 5 pedras” significando os 5 elementos místicos: éter, ar, fogo, água e terra.

 

Referência

HEARN, Lafcadio. Writings from Japan. [S.l.]: Penguin Books, 1984.


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