100 anos de imigração | O imigrante e sensei de judô Sukeji Shibayama – I

100 anos de imigração | O imigrante e sensei de judô Sukeji Shibayama – I

150 150 Iochihiko Kaneoya

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Ainda pré-adolescente, 14 anos, fui a convite de um primo, conhecer a Academia de Judô Kenshin. Funcionava ali na Rua da Estação, em Osasco, nos fundos do Colégio Ceneart onde estudávamos. Instalações simples, rústicas, localizava-se nos fundos de antigas construções. Ali chegava-se por uma entrada estreita, escura.
Conheci sensei Shibayama, o fundador da academia. Magro, de corpo pequeno, a barba de alguns dias, chinelo de tiras de borracha, fala mansa, pausada, de conversa interessante. Neófito no judô, imaginava existir algum exagero na queda do discípulo que sensei convidava para demonstrar a técnica dos golpes.
No início e ao final dos treinos, fazia uma pequena oração em silêncio, com todos os judocas sentados. Costumava falar por não mais que cinco minutos, começando por elogiar sempre o empenho e a dedicação dos atletas e nos alimentar com dizeres sábios, aprendidos no despertar espiritual durante longos anos da prática do judô. Dizia que devíamos agradecer antes e depois da luta, pois era graças ao nosso oponente que aprimorávamos nosso judô. Sempre nos pediu gratidão e respeito aos seus faixas pretas e ao tatami, nosso local do treino. Pedia que não nos esquecêssemos de cumprimentar nossos professores na rua, nossos familiares ao acordar e ao dormir. Dizia que não era grave esquecer de cumprimentá-lo, mas que ele se entristeceria se algum judoca não mostrasse boa educação e cordialidade aos professores da escola.
Humilde, sábio, demonstrava extremo respeito aos seus judocas. Quando falava para todos, nunca usava o pronome “vocês”, mas sempre, “senhores”. Todo adolescente para ele já era “senhor”, “senhora”. Tinha dificuldade em chamar uma criança por “você”. Nunca o ouvi gargalhar. Seu riso era contido, comedido, como convém a um japonês. Sempre sereno, dono de si, nunca o vi bravo, nem eufórico. Mas já o vi chorar. Confessou-me ter falhado como orientador e professor de judô e, num momento de fraqueza, expulsou um discípulo seu, já faixa preta, confidenciou envergonhado. Consolei-o dizendo que um mestre precisava ter pulso firme; um faixa preta já não era criança e, se o discípulo não se encaixava nos seus padrões de respeito, cuidado e dedicação aos colegas de tatami, que ele, sensei, precisava depurar a academia, evitando as más influências sobre seus demais discípulos. Disse-lhe que se caísse o padrão da Academia Kenshin, ele era o único responsável. Sensei mostrou-se aliviado. Na verdade, acho que sensei sabia ter agido certo, mas fato tão contrário ao seu método educacional, e ao seu próprio espírito sereno, pacífico e respeitador, certamente causava-lhe algum constrangimento que precisava de apoio moral.







Alguns meses de academia, já com alguma confiança na habilidade e força dos meus braços e pernas, pela primeira vez treinei com sensei Shibayama. Me chamou para treinarmos golpe de chão (newaza). Deitou-se e pediu que eu o atacasse como soubesse, com qualquer golpe. Fiquei com receio de machucar aquele senhor franzino deitado à minha frente, pois ele nunca havia lutado comigo e certamente não conhecia minha força de jovem. Entrei delicadamente, quase pedindo licença para segurar a gola do seu quimono. Sensei então pediu que eu lutasse como se estivesse numa competição, com força, com vontade, que aplicasse qualquer golpe mesmo os shimei (estrangulamento), que não tivesse receio de machucá-lo. Estrangulamento? E se eu o enforcasse? Ele poderia desmaiar, talvez até morrer. Decidi então que não o machucaria, mas que seguraria com rapidez e energicamente a gola do seu quimono para ele ver que eu era forte, capaz e rápido. Mas, desta vez, a gola do quimono sempre se afastava quando estava perto de pegá-lo. Na verdade, minhas mãos não estavam conseguindo nem chegar no tórax do mestre. Após algumas tentativas infrutíferas, sensei me disse: “Kaneoya-san, no judô tem que enxergar o golpe antes que ele nasça”. Entendi que ele estudou meus movimentos de aproximação e neutralizou-os todos no nascedouro. Aprendi a primeira e grande lição daquele saudoso orientador: resolver os problemas antes que eles nasçam, senão, eles me golpearão na vida. Não seria daquela vez que sensei experimentaria minha habilidade de judoca; mas meu espírito de menino havia encontrado um grande mestre nas palavras daquele grande judoísta.

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

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1 comentário
  • Os grades mestes sempre nos deixam saudosos e melancólicos…
    o aprendizado com estes grandes, não “Gigantes” homens é sempre um prazer incomensurável.
    PARABÉNS pelo artigo.

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