100 anos de imigração | O imigrante e sensei de judô Sukeji Shibayama – II

100 anos de imigração | O imigrante e sensei de judô Sukeji Shibayama – II

150 150 Iochihiko Kaneoya

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Algumas vezes sensei me chamou para demonstrar golpes. Já havia treinado com vários faixas pretas e marrons. Acho que só um judoca consegue entender o que vou dizer. Há golpes que são aplicados com dificuldade, conseguimos opor resistência e, muitas vezes, na brecha, conseguimos aplicar com sucesso algum contra-golpe. Mas os golpes de sensei Shibayama eram golpes de mestre. Suaves, rápidos, milimétricos, precisos, não possibilitavam contra-golpes. Eram aplicados com profundo respeito e humildade, quase se desculpando por nos haver derrubado. Ficava emocionado ao sentir a queda. Embora rápido e forte o golpe, e minha queda rápida, era sempre suave, prazerosa, meu braço oposto à queda sempre seguro pelo mestre, talvez querendo suavizar o arremesso e chamar para si responsabilidade por alguma eventual dor infligida. Sempre dava um pequeno toque no meu ombro após a demonstração, num inconfundível gesto de agradecimento e humildade. Havia vontade de se ensinar o judô, mas sobretudo amor e respeito naqueles movimentos. Eram gestos simples mas que tinham a magia de me causar profundo bem estar e paz espiritual. Quem lutou com sensei, certamente sabe o que eu sentia.







Pouco tempo depois, deixei o judô para estudar e lecionar o idioma japonês. O tempo passou e um dia o destino quis que eu estivesse falando no microfone da Rádio Difusora Oeste de Osasco, apresentando um programa de variedades para a comunidade nipônica. Lembrei-me da sabedoria do mestre de judô e quis levá-lo para uma entrevista. Sensei recusou dizendo que ele não era pessoa tão importante que merecesse estar num veículo de comunicação. Cedeu quando lhe disse que boas palavras melhoram o mundo e as pessoas, mas “aquele que tem boas sementes e não semeia, faz o mesmo papel daquele que nada semeia”. Disse-lhe que enriqueceríamos a vida das pessoas com seu exemplo de vida e suas palavras. Eu o entrevistei por uma hora.

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

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1 comentário
  • Ribamar Lopes 18/07/08 at 21:37

    Conjuntamente com o “judô Sukeji Shibayama – I”, são artigos emocionantes, que mostram a força da gentileza contida na sabedoria japonesa, cultivada, entre outras, na arte marcial. Relatos de tal natureza, prestam um grande serviço aqueles que buscam cultivar o equilíbrio e a paz.

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