O Sashiko, a flor de lótus e a coruja

O Sashiko, a flor de lótus e a coruja

150 150 Iochihiko Kaneoya

Iochihiko Kaneoya

O bordado Sashiko, a flor de lótus e a coruja







Bordado surgido entre pescadores e agricultores pobres no Japão feudal como forma de prolongar a durabilidade das roupas, transformou-se em arte, assim como o origami da flor de lótus e a coruja. O Sashiko surgiu a princípio apenas como alinhavado de reforço dos tecidos, ganhou muitos estilos como este que representa o crisântemo, flor que foi adotada como símbolo da Casa Imperial japonesa por florescer com mais de 300 pétalas em formato de esfera, como o sol, símbolo que está na bandeira nacional. 

A flor de lótus nasce na lama e cresce em direção à luz, floresce na superfície de dia e recolhe-se à noite. É um dos símbolos do budismo, religião que prega a salvação pelo saber, pela razão. 

A coruja de Minerva só levanta vôo no crepúsculo, ensinava Hegel, filósofo alemão do século XVIII. Na mitologia grega é a ave que acompanha a deusa Athena, deusa da sabedoria, da justiça e das artes (Minerva para os romanos. Coruja é ave que enxerga melhor à noite girando a cabeça em até 360 graus). Coruja em japonês é fukurou. Fu é a partícula de negação; kurou significa sofrimento. Os japoneses têm o costume de presentear objetos em forma de coruja com essa intenção: ano sem sofrimento, sem martírio, sem angústia. Decompondo-se de outro modo a palavra, fuku-rou, significa fuku=felicidade e rou pode ser caminho, onda ou brilhante. Pode ser interpretado então além de ano sem sofrimento, um novo caminho para a felicidade, nova onda de radiante júbilo. 

Simbologia de boa mensagem para este início de ano e para muitos outros:

  • elevar a rudeza da realidade a valores que reflitam as necessidades e exigências mais elevadas do espírito, dando-lhe  perenidade de arte;
  • com as nossas primitivas raízes originadas na escuridão da ignorância, ousar romper, ousar saber, ousar conhecer-se, buscar a luz;
  • alçar vôos perscrutando o que se oculta nas sombras, o que nos é desconhecido na penumbra de nossas almas; 
  • fazer arte, perenizar os valores mais nobres do espírito com o que temos e com quem temos: contribuir e se alegrar com a felicidade do próximo. 

No sashiko sua história nos diz: resiliência, imaginação, criatividade; as figuras dos origamis nos deixam a mensagem de persistência, busca de sabedoria, aprimoramento, participação.

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

All stories by : Iochihiko Kaneoya

Leave a Reply