Arquivo de 'japão' Categoria

jun 20 2017

A dança butoh

A dança Butoh – 舞 踏

Surgiu no Jap̣o na d̩cada de 50 com Tatsumi Hijikata (1928 Р1986) e Kazuo Ono (1906 Р2010), este seu mais conhecido divulgador.
Na sua origem tinha o nome de Ankoku Butoh (dança da total escuridão); hoje conhecida apenas por Butoh.
Definida como dança das sombras, sombras na escuridão, crazy dance ou free style, é ensinada por seus criadores mais como um modo de viver, uma filosofia de vida e não como dança.
Bu – 舞 – significa dança e Toh – 踏 – outra leitura para o verbo fumu, significa pisar. O criador Kazuo Ohno faleceu com 104 anos mas pisou no palco até os 103. Dizia que a prática do butoh não tem fim, porque é apenas o viver. “Eu não estou interessado em uma bela estrutura de dança nos moldes tradicionais. A Dança é um caminho de vida, não uma organização de movimentos”, ensinava. Hijikata, por sua vez, conceituava o butoh como uma rebelião à sociedade industrializada, tecnificada, massificada. As raízes do butoh nos remete a algo mais distante, na mitologia xintoísta, ao descrever como estratégia para tirar a deusa Amaterasu da caverna, a dança da deusa Ame-no-uzume que “dança como se estivesse possuída por uma divindade”, rasga suas vestes, descobre seus seios, mostrando parte do seu corpo.
Calcada fortemente na cultura japonesa, o butoh daí extrai a ideia de Caminho, conceito central na ética xintoísta – a religião primitiva do Japão. Viver é apenas estar no Caminho; para o butoh, estar no palco, e aí expressar todo o eu: o corpo nu, desprovido das fantasias e paradigmas sociais da linguagem das vestes e a alma solta, para apresentar livremente a individualidade do verdadeiro eu, sem as máscaras: as imperfeições, o oculto, a fraqueza, a dor, o medo, a angústia, o desespero. “É a rejeição da superficialidade do banal, é deixar o corpo falar por ele mesmo”, definia outro mestre do butoh. Ao se rejeitar o banal, mergulha-se em outro tipo de beleza: “a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes, incompletas, modestas, humildes e não convencionais”, como os japoneses conceituam o wabi-sabi – outra ideia sobre que se funda a cultura japonesa. “Sugere o fato essencial e evidente da impermanência e por isso desencadeia no espectador uma contemplação serena que é unida à compreensão da fugacidade de tudo o que existe. Ao tomar consciência dessa fugacidade, contemplamos a vida a partir de outra perspectiva”, como a conceitua Miralles.
Não há estilo no butoh: vai do grotesco ao austero; do erótico ao cômico; por vezes é visto como surreal, de dançarinos/atores andróginos. Caracteriza-se mais pela intensa expressividade das condições humanas primitivas em detrimento da beleza plástica do cenário e dos dançarinos; estes fluem no palco e mesmo os micro-movimentos são intensos, como espasmos a denotar o início ou o estertor da vida.
O corpo nu, maquiado de branco em fundo escuro (shades of darkness) – como o negativo da sombra do corpo ao sol – , e os pés descalços – movimentam-se tocando diretamente o solo, sem intermediários entre o homem e sua origem/destino, por onde rasteja seu corpo mergulhado, deitado, integrado ao real agressivo, caótico, indiferente às necessidades de seu interior. Este, inconformado, mostra-se então, assustado, amedrontado, sofrido. Os pés tocam no chão real e o coração mostra o padecimento da dor e o momento angustiante do desejo de fuga. Os pés tocam a existência, o coração, a essência.
Mostrar o homem com sua alma nua, verdadeira, real, é de onde o butoh tira sua maior força como expressão artística. Não pretende mostrar a eternidade da beleza da arte mas a arte da finitude que envolve a vida, e enquanto vida, a angústia, o sofrer, os nossos “demônios de significado universal” interiores.

Referências:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Butoh
http://www.mimus.com.br/solange2.pdf
http://www.japantimes.co.jp/culture/2016/05/28/books/book-reviews/butoh-dance-death-disease/#.WUGalBgrJEY
Koren, Leonard Wabi-sabi. Imperfect Publishing Point Reyes, California, 2008.
Miralles, Francesc. Wabi-sabi. Editora Record. Rio de Janeiro, 2017


Use as estrelas abaixo para dar uma nota a este artigo:
1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (Este artigo ainda não foi avaliado)


Imprima uma versão mais simples deste artigo.
Gostou? Recomende este artigo por email. Gostou? Recomende este artigo por email.

Por enquanto, nenhum comentário. Comente.

jet horizontal

jun 14 2017

Butoh Рa arte de Tadashi Endo apresentando a pe̤a MA

                             

Resultado de imagem para tadashi endo

Butoh – a arte de Tadashi Endo apresentando a peça MA (間)

 

 

A dança Butoh (舞 踏)- criada pelos mestres japoneses Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno –   definida como a dança das sombras ou sombras da escuridão – , teve a sua  apresentação em terras catarinenses na noite de 3 de junho, no teatro Garapuvu da Universidade Federal de Santa Catarina, campus de Florianópolis.

Apresentada como dança, o dançarino, sem os movimentos ritmados da música, é mais ator do que dançarino. Nesta peça, diante de urna funerária, o ator/dançarino desperta de seu recolhimento silencioso como a borboleta a sair do casulo, esticando suas asas em movimentos espasmódicos e intermitentes, como a despertar do estado letárgico de recolhimento, como um ser nascendo para a vida.

O mar – a infinita sepultura à sua frente – sempre pronto a recolher entre suas ondas, o resto do que fora vida, contida no frasco. Diante do desconhecido, do insondável, do imperscrutável, lança-se na busca. Se o que tem contido na urna não é mais a vida mas o que dela restou, o pó descorporificado, desespiritualizado, existindo numa dimensão diferente da sua, aplica-se também a si o abandono do corpo, desnudando a vida, presente no vermelho-vivo da veste.

“Meus pais diziam….” repete o refrão da canção okinawana. Agora sua sombra, qual alma errante,  peregrina incessantemente, entre lamúrios, lamentos e espanto. Ao final desiste também e a abandona, ficando agora apenas com a instrumentalização mínima necessária à busca: o ver e o falar, que serão imprescindíveis caso a procura tenha sucesso.

Sem corpo, apenas seu desejo, seu procurar permanece, atento, com olhos e boca destacadas e todo o resto invisibilizados pela maquiagem branca qual sombra na escuridão. Como nos ideogramas chineses, expressa-se o invisível a partir do visível. O ator escreve um haicai no palco: máxima expressividade com o mínimo de meio. Na materialidade mínima da boca e dos olhos repousam a angústia e a dor da procura.

Busca infrutífera, mesmo visitando o passado na distante memória da infância. Entre os extremos da vida – o pó que restou inerte e a essência viva – não se encontra  conexão alguma, nenhuma ligação. Nada existe.

Lança-se então a não-vida ao infinito. E segue-a procurando seu destino nas profundezas do desconhecido. Nem mesmo no seu interior, nas vísceras, extirpando-as desesperadamente, examinando-as cuidadosamente, ao custo do esvair de suas forças,  nada encontra.

A angústia agora é frustração excruciante, insistente, repetida, latejante como a dor que pulsa incessante para, finalmente, prostrar o corpo,  inerte.

Talvez o enigma da vida esteja em outra vida. Na flor, que se fez flor, pela vida. Talvez o enigma esteja mais profundo como o despertar do monge Kashyapa, quando Buda mostrou aos discípulos uma flor. Nenhuma resposta. Talvez alhures. No Ocidente, na França. Também aí não está, mas o viver pulsa forte e desejoso no refrão “não me deixe” que se ouve ao fundo, sugerindo que a busca não terminou.

Ma (間)- ideograma que significa “intervalo”, “espaço vazio” – , é o tempo/espaço onde se desenrola a dança/drama do mistério insondável do intervalo entre a morte e a vida. Nenhuma resposta para aplacar a dor e a angústia.  

Encerrado o espetáculo, o ator/dançarino agradece ao público e num gesto largo, para o alto, para ambos os lados, saúda a vida, o Todo, como que a sugerir gozar e usufruir plenamente o período que temos desde o nascimento até a nossa morte, vale dizer, viver o hoje intensamente na sua plenitude. Carpe Diem.

Tadashi Endo se despede reverenciando serena e niponicamente os presentes.  

 

 


Use as estrelas abaixo para dar uma nota a este artigo:
1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (Este artigo ainda não foi avaliado)


Imprima uma versão mais simples deste artigo.
Gostou? Recomende este artigo por email. Gostou? Recomende este artigo por email.

Por enquanto, nenhum comentário. Comente.

jet horizontal

Pages: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 ... 69 70 71 Next

Pages: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 ... 69 70 71 Next