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jun 14 2017

Butoh Рa arte de Tadashi Endo apresentando a pe̤a MA

                             

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Butoh – a arte de Tadashi Endo apresentando a peça MA (間)

 

 

A dança Butoh (舞 踏)- criada pelos mestres japoneses Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno –   definida como a dança das sombras ou sombras da escuridão – , teve a sua  apresentação em terras catarinenses na noite de 3 de junho, no teatro Garapuvu da Universidade Federal de Santa Catarina, campus de Florianópolis.

Apresentada como dança, o dançarino, sem os movimentos ritmados da música, é mais ator do que dançarino. Nesta peça, diante de urna funerária, o ator/dançarino desperta de seu recolhimento silencioso como a borboleta a sair do casulo, esticando suas asas em movimentos espasmódicos e intermitentes, como a despertar do estado letárgico de recolhimento, como um ser nascendo para a vida.

O mar – a infinita sepultura à sua frente – sempre pronto a recolher entre suas ondas, o resto do que fora vida, contida no frasco. Diante do desconhecido, do insondável, do imperscrutável, lança-se na busca. Se o que tem contido na urna não é mais a vida mas o que dela restou, o pó descorporificado, desespiritualizado, existindo numa dimensão diferente da sua, aplica-se também a si o abandono do corpo, desnudando a vida, presente no vermelho-vivo da veste.

“Meus pais diziam….” repete o refrão da canção okinawana. Agora sua sombra, qual alma errante,  peregrina incessantemente, entre lamúrios, lamentos e espanto. Ao final desiste também e a abandona, ficando agora apenas com a instrumentalização mínima necessária à busca: o ver e o falar, que serão imprescindíveis caso a procura tenha sucesso.

Sem corpo, apenas seu desejo, seu procurar permanece, atento, com olhos e boca destacadas e todo o resto invisibilizados pela maquiagem branca qual sombra na escuridão. Como nos ideogramas chineses, expressa-se o invisível a partir do visível. O ator escreve um haicai no palco: máxima expressividade com o mínimo de meio. Na materialidade mínima da boca e dos olhos repousam a angústia e a dor da procura.

Busca infrutífera, mesmo visitando o passado na distante memória da infância. Entre os extremos da vida – o pó que restou inerte e a essência viva – não se encontra  conexão alguma, nenhuma ligação. Nada existe.

Lança-se então a não-vida ao infinito. E segue-a procurando seu destino nas profundezas do desconhecido. Nem mesmo no seu interior, nas vísceras, extirpando-as desesperadamente, examinando-as cuidadosamente, ao custo do esvair de suas forças,  nada encontra.

A angústia agora é frustração excruciante, insistente, repetida, latejante como a dor que pulsa incessante para, finalmente, prostrar o corpo,  inerte.

Talvez o enigma da vida esteja em outra vida. Na flor, que se fez flor, pela vida. Talvez o enigma esteja mais profundo como o despertar do monge Kashyapa, quando Buda mostrou aos discípulos uma flor. Nenhuma resposta. Talvez alhures. No Ocidente, na França. Também aí não está, mas o viver pulsa forte e desejoso no refrão “não me deixe” que se ouve ao fundo, sugerindo que a busca não terminou.

Ma (間)- ideograma que significa “intervalo”, “espaço vazio” – , é o tempo/espaço onde se desenrola a dança/drama do mistério insondável do intervalo entre a morte e a vida. Nenhuma resposta para aplacar a dor e a angústia.  

Encerrado o espetáculo, o ator/dançarino agradece ao público e num gesto largo, para o alto, para ambos os lados, saúda a vida, o Todo, como que a sugerir gozar e usufruir plenamente o período que temos desde o nascimento até a nossa morte, vale dizer, viver o hoje intensamente na sua plenitude. Carpe Diem.

Tadashi Endo se despede reverenciando serena e niponicamente os presentes.  

 

 


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nov 14 2012

Concerto Japão 4 Estações

Duo de canto e violão com Masami Ganev e Igor Ishikawa 

Com o Concerto Japão 4 Estações a soprano Masami Ganev, japonesa de nascimento e radicada no Brasil há 15 anos e o violonista Igor Ishikawa se apresentaram no Auditório Jurerê Classic, na cidade de Florianópolis no último dia 10 de novembro. Com arranjos e adaptações de Igor, Masami cantou canções desde o Japão tradicional, aos sucessos mais recentes, começando pela primavera, passando pelo verão, outono, inverno e fechando o ciclo, encerrando novamente com canções da primavera.

No Japão as estações são bem definidas, o que molda também os costumes, a indumentária, a culinária e as artes. Na poesia, as estações do ano são o único tema do haikai, chamada kigô. Entre as músicas de uma estação e outra, foram lidos haikais de poetas brasileiros com temas brasileiros.

Merecem destaque, além da apresentação de ambos, o solo de violão de Igor e a declamação de Masami na música “Akai kutsu” (sapatinhos vermelhos). Num dos solos, o violonista contou a história da música “Ookina furudokei” (antigo relógio grande): fora comprado como homenagem ao nascimento de um menino e funcionou até quando o ex-menino morreu aos 90 anos. E o relógio parou de funcionar. No solo, o músico fez a corda do violão, aos poucos, morrer com o dono do relógio. Podia-se ouvir o sereno e longo suspiro da despedida. Na música “Akatonbo” (libélulas vermelhas), Masami recordou sua infância no Japão, quando brincava com as libélulas que vinham pousar nos arrozais cacheados de dourado.

O texto que apresentou o Concerto:

No Japão, como mensageiros da impermanência e da renovação, as estações do ano vêm e vão com sua roupagem própria, nítidas e distintas no seu vôo contínuo e incessante, inspirando os costumes, a culinária, as artes, a poesia e a música. Na poesia, as quatro estações são o tema do haikai.

Os animais, as plantas e os homens se adaptam às condições de cada estação para sobreviver, crescer e se perpetuar.

As folhas da árvore caem no outono e outras novas surgem na primavera. A cada primavera a árvore se renova e os galhos ganham brotos que se transformam em novos galhos. Isso faz a árvore crescer sempre um pouco mais ao término de cada ciclo, e suas raízes ficarem mais profundas. É no recolhimento do inverno que a árvore acumula a força necessária para o crescimento a cada renovação. Todo tempo de espera é tempo de crescimento e aprendizagem.

A vida é um fluxo contínuo constituída de tempos que se renovam, assim como as estações do ano. Tudo é mutável, nada é permanente.

Sempre a primavera, nunca as mesmas flores – resume com perfeição a mutação e a renovação, o ciclo do eterno retorno. Quando respeitamos os ciclos, a vida flui mansa e plenamente, se renova e permitimos nossa própria evolução.

Primavera

Ah! estas flores de ouro,

que caem do ipê, são brinquedos

pr’as criancinhas pobres…

O ipê-amarelo – arvore-símbolo do Brasil -, que recobre de efêmero ouro seus galhos sem folhas anunciando a chegada da primavera, traça um bonito paralelo com a cerejeira, a árvore-símbolo do Japão, cuja florada branca e rosa, é igualmente efêmera e recobre os galhos sem folhas no início da estação.

É o início de um novo ciclo quando a vida retoma suas atividades após o recolhimento do inverno. Surgem os primeiros ventos aquecidos pelo sol mais abundante; a neve e o gelo começam a derreter, os rios voltam a correr. Nascem os primeiros brotos das árvores e os campos ganham uma cor verde de tom claro e fresco. Tudo volta a pulsar. O silêncio do inverno é quebrado pelo canto dos pássaros e das cigarras. É a época das flores, do passeio das abelhas, de colher o mel, e do acasalamento dos animais. É o momento de semear os campos.

Verão

Calor. Nos tapetes

tranquilos da noite, os grilos

fincam alfinetes.

 É nessa fase que o hemisfério norte recebe a iluminação máxima do sol. É o momento do auge, da plenitude, de noites curtas e dias longos. As plantas e a terra transpiram mais, o céu fica mais carregado de nuvens, os tons da primavera se intensificam num verde mais escuro. Chove torrencialmente, o calor é intenso, a vida entra em ebulição. Os filhotes recém-nascidos crescem mais fortes com a abundância de alimentos. É o momento de aproveitar a generosidade da Natureza, a liberdade e o conforto dos dias longos e ensolarados.

 Outono

 Uma folha morta.

Um galho no céu grisalho.

Fecho a minha porta. 

Depois do calor e da claridade do verão, chega o declínio, o preparo para o adormecer do inverno. Com a queda da temperatura, os animais começam a se preparar para a época do retiro. A Natureza agora produz os últimos frutos que os animais e os homens precisam ingerir e estocar para atravessar o frio que se aproxima. As árvores viçosas do verão começam a poupar energia e mudam de cor, passando para o amarelo, laranja, vermelho e ocre, antes de deixarem cair ao chão suas folhas, estendendo-se como tapete para receber o inverno. É a época da nostalgia, da melancolia, da senectude.

Inverno

Ah! o chimarrão quente!

O frio forte dos pampas

foge um pouco assim!… 

Nessa época o sol já não aquece nem ilumina o hemisfério norte como em outras estações. Agora as noites são bem longas e os dias curtos. A vida se paralisa, apaga o verde-vida das paisagens, emudece os pássaros e os insetos. O manto branco que congela rios e lagos reveste também os galhos nus das árvores. As cores do outono desaparecem, esmaecidas pelo branco infindo da neve. No frio silente, só o uivo do vento.

Os animais se abrigam em suas tocas, e as pessoas se abrigam em suas casas à beira da lareira. É a estação do recolhimento, da introspecção, da reflexão, do retiro para o eu interior, como os animais que se recolhem para a longa hibernação. E no benfazejo recolhimento da reflexão e aprendizagem, move-nos a serena alegria da espera das primeiras brisas da primavera, quando um novo ciclo se inicia.

Referência bibliográfica:

OTSU, Roberto. A sabedoria da natureza. São Paulo: Ágora, 2006.


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