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set 16 2008

O haikai, haicai ou haiku

haikai

A forma de poesia haikai, ou haicai aportuguesado, haiku para os japoneses, de apenas 17 sílabas, é a composição de imagens que, como na linguagem cinematográfica, parte de um cenário geral para o particular, ou, como ensina Bashô, da “permanência†para a “transformação†ou “percepção momentânea†apenas sugerindo, mostrando de relance, cabendo ao leitor sua interpretação, “o que (interpretação do leitor) faz da imperfeição do haiku uma perfeição de arteâ€, como diz Yone Noguchi. A ação se passa no presente e neste sentido, se diz que o haicai é infindável, sua mensagem está sempre ali visível, como uma pintura de imagens. É o retrato de um momento de êxtase, onde o mínimo sugere o máximo, mais omite do que diz e por isso, é preciso mais interpretar do que entender. Nas palavras de Haroldo: “no pensamento por imagens do poeta japonês, o haicai funciona como uma espécie de objetiva portátil, apta a captar a realidade circunstante e o mundo interior, e a convertê-los em matéria visívelâ€. Ou como resume Eisenstein: “o haicai é um esboço impressionista concentradoâ€.

Haroldo, analisando o ideograma u-gu-i-su (鶯 – rouxinol) no haicai de Buson (1716-1784), assim se expressa: “dois fogos sobre um teto (cobertura) sobre pássaro; eis o que me parece uma verdadeira palavra-metáfora, um poema em miniatura, que, por si só, resume todo este haicai: o rouxinol, cujo canto, na espessura de um bosque, rompe como uma luz; o mensageiro de “un dia parado en su mediodiaâ€. O “cenit de una primavera redondaâ€, do poema de Jorge Guillénâ€.

Em japonês: 鶯㮠鳴ãã‚„ å°ã•ã å£ æ˜Žã‘㦠ï¼uguisu no nakuya chiisaki kuchi akete.
Tradução literal: canta o rouxinol abrindo sua pequena boca.
Tradução poética de Haroldo: canta o rouxinol – garganta miúda – sol lua – raiando.

Haroldo, numa licença poética, substitui o verbo akeru (é–‹ã‘ã‚‹ ï¼ abrir algo – uma porta, a boca) pelo homófono akeru (明ã‘ã‚‹ – raiar do dia), porque este melhor traduz seu encantamento pelo abrir a boca do rouxinol:  a idéia concreta “processo de luz total†está presente, razão pela qual recorri à força dos substantivos conjugados “sol luaâ€, completando a projeção verbal da imagem com a forma verbal “raiandoâ€, que não só incorpora o elemento luminoso do canto, como sugere o próprio raiar do dia…â€

Talvez o mais conhecido haicai, seja este, escrito por Bashô (1644-1694):
å¤ æ±  ã‚„ è›™ 飛ã³è¾¼ã‚€ 水㮠音
Furu ikeya kawazu tobikomu mizuno oto.
O velho tanque – rã sair tomba – rumor de água.

Análise de Haroldo: “furu (å¤â€• velho); o sinal de 10 sobre a boca (kuchi); o que passou de boca em boca por 10 gerações (Pound via Fenollosa), ou notícia 10 vezes repetida (Vaccari). Tobikomu: verbo composto de tobu, (飛ã¶ï¼‰ “saltar†+ komeru (込ã‚る), “entrarâ€; contém dois kanji superpostos: o de tobu seria, para Vaccari, a pintura sintética de pássaros no ato do vôo; o de komeru reune uma parte inferior, indicativa de “movimento para a frenteâ€, “o processoâ€: pegadas + um pé e outra superior significando “entrar†(como um rio na sua foz)â€.

O zen-budismo, cujo ensinamento diz que a excelência está no ser-fazer e não em dizer, usa a meditação pura (esvaziamento da mente) e o koan (uma pergunta ou afirmação do mestre, aparentemente díspares, em resposta à uma pergunta do discípulo para provocar a meditação) como formas de ensinar. Cabe ao discípulo a interpretação correta da afirmação do mestre, o que geralmente exige um grande esforço interpretativo. Numa ocasião Bashô recebeu a visita do mestre zen Bucchô e travaram o seguinte diálogo(mondo no zen budismo – perguntas e respostas):

“Bucchô: O que é que você tem feito?
Bashô: As últimas chuvas lavaram o musgo verde.
Bucchô: Qual é a lei de Buda anterior ao crescimento do musgo?
Bashô: Uma rã mergulha – barulho de água!â€

Qual a interpretação para as palavras do maior dos haicaístas? Ou Bashô simplesmente exerceu sua veia poética e “haicaizou†o diálogo?

Esta liberdade interpretativa que nos possibilita o haicai, o koan e o mondo do zen-budismo, está presente também no teatro Nô. Donald Keene, a esse respeito, escreve: “O Nô providencia um molde soberbo para um poeta dramático. Em certo sentido é um equivalente amplificado do rarefeito haicai, apresentando apenas os momentos de maior intensidade, como a sugerir o resto do drama. Como o haicai, também o Nô possui dois elementos, sendo que o intervalo entre a primeira e a segunda aparição do dançarino principal desempenha a função do corte no haicai, devendo o auditório suprir o elo entre ambasâ€.

Baseado nos estudos de Fenollosa e Eisenstein, sobre o ideograma como linguagem e o seu princípio de composição como linguagem cinematográfica, o cineasta britânico Peter Greenaway fez o filme “O livro de Cabeceira”, considerado uma etiqueta do pecado, homônimo da obra de Sei Shonagon, escritora japonesa do século X. De Shonagon diz-se que foi uma cortesã, dama da corte, teve 4 ou 5 maridos e a nenhum foi fiel, muito menos aos amantes que teve; outros dizem ter se recolhido a um convento. Da obra referida, constam entre as coisas detestáveis de Shonagon: “Quando estamos em bom termos com um homem, ouvi-lo louvar certa mulher que ele conheceu….. Um visitante que conta uma história comprida quando estamos com pressa….. Os roncos dum homem que a gente está procurando ocultar e foi posto a dormir em lugar que não era do seu negócio.. Pulgas.â€

Greenaway era artista plástico e transpôs para a tela do cinema, o conceito de pintura de uma tela, usando a do cinema, como o papel onde o calígrafo/poeta pinta/compõe seu ideograma/haicai. Aí vemos, literalmente, a palavra-pintura em movimento, pois é o corpo humano o depositário da escrita. O filme todo, pelas tomadas de imagens, pelo enredo, pelas personagens, pelos dizeres do livro de Sei Shonagon, convida-nos à uma interpretação. Greenaway compõe haicais ideogramaticamente nas multidimensões dos sentidos que possibilita o cinema: da imagem e da palavra falada e escrita.

Os lexicógrafos chineses admitem que a chave pictográfica de muitos ideogramas não pode ser rastreada, pela ausência de registros, mas, os ideogramas compostos por sugestão nos dão indícios claros da cultura e do pensamento do povo que os compôs. Haroldo lamenta-se com a afirmação de Yuen Ren Chao de que a maioria dos ideogramas foram compostos por combinação entre um radical e um elemento simplesmente fonético que nada sugere junto ao elemento significativo.

Compreendido o conceito da construção do ideograma e sua aplicação na poesia, a sensibilidade poética do ocidental não resiste interpretar as sutis disposições de caracteres que se nos apresentam convidativas, deleitantes, instigantes, desafiadoras. “Decifra-me ou devoro-te!†Quem disse isto? Devorados, seríamos apenas pela ignorância ou indiferença, mas o decifrar ou o interpretar nos abrirá o mundo do belo.

E de fato, não há como impedir que nossa vocação poética enxergue apenas um significado dicionarizado, em ideograma como “paisâ€ï¼ˆ 親 – oya em japonês), por exemplo. Escreve-se com três idéias originais: “olhar”(見る), “de pé”(立ã¤ï¼‰ em cima de uma “árvore(木)”. Por que significaria pais, este ideograma? Se não se formou por combinação, isto é, a presença de algum ideograma pictográfico mais um apenas com função fonética, talvez possamos afirmar que signifique a preocupação dos pais com o regresso do filho ao lar. E por que o chinês escreve a palavra “letra, alfabetoâ€ï¼ˆå­—) com “o filho sob um tetoâ€, ou “segurançaâ€ï¼ˆå®‰ï¼‰ com “a mulher sob um tetoâ€? E por que o verbo “gostar†ou “bomâ€ï¼ˆå¥½ï¼‰ é a junção de “mulherâ€ï¼ˆå¥³ï¼‰ + “filhoâ€ï¼ˆå­ï¼‰. Em qualquer destes casos, o ideograma por si já é um poema, uma mensagem, pelo vigor da concepção ali mostrada. Um mini-poema, um haicai sem palavras, um haicai de imagens, rica em cores, cuja vividez , como um lampejo, atinge área adormecida de nossa alma, como diz Fenollosa, “onde o intelecto pode apenas tatearâ€

Referências:
“Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia†in Ideograma
“O princípio cinematográfico e o ideograma†in Ideograma
História da civilização
Haikai – Paulo Franchetti e outros – ed Unicamp – 2 a ed – 1991
A arte no horizonte do provável
A Arte no horizonte do provável – Haroldo de Campos – Ed Perspectiva 4.a ed – 1977
Yone Noguchi, The spirit of Japanese Poetry, Londres, John Murray, 1914 – apud Ideograma
A Arte no horizonte do provável
Umberto Eco – A estrutura ausente – Ed Usp e Perspectiva – ed 1971

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abr 09 2008

O ideograma como linguagem

kanji

Na linguagem dos semióticos a significação de um signo (palavra, símbolo) se compõe pela soma do significante (signo visível) mais o significado (idéia proporcionada pelo significante). Na palavra falada ou na escrita fonética, sem uma significação, não existe nenhuma conexão entre o objeto e a palavra que o representa, porque tudo depende apenas de convenção. Exemplificando, se escrevo árvore, todos os alfabetizados em línguas de alfabeto romano estão aptos a ler o significante, mas apenas os que conhecem seu significado terão sua significação.

O ideograma nos proporciona essa agudez imagética, no dizer de Eisenstein. É a imagem pictográfica que fala por si, e pela sutileza de sua concepção, nos mostra o dinamismo da emoção ali visível. É o significante que dispensa o significado e salta imediatamente para a significação, ou se funde à significação, desenhando a palavra que é ao mesmo tempo pintura e poema. Fenollosa diz que o ideograma é a palavra pintada em movimento.Cita a hipótese de Derrida, que vê na formação do ideograma, rastros da escrita e a denomina arquiescritura, sugerindo uma arqueologia da escrita, e prossegue: “a etimologia (do ideograma) fica constantemente visível, conserva o impulso e o processo criadores à vista e em ação….. carreando uma acumulação de significado a que uma linguagem fonética dificilmente pode pretender.†É a comunicação sem intermediários, cuja etimologia da idéia, instiga nossa inteligência e sensibilidade a deduzir a mensagem ali presente.

Esse método ideogrâmico de compor, como a ele se refere Ezra Pound, via Fenollosa, ou a passagem do pensamento por imagens para o pensamento conceitual, criou na alma do japonês uma vocação interpretativa que influenciou profundamente sua cultura. A poesia japonesa, particularmente o haikai, de mínima materialidade num máximo de expressão, é característica inconfundível desta cultura. A onomatopéia (reprodução de sons associados ao objeto ou ao fato) é recurso largamente utilizado na língua. No entanto, esta singularidade da língua japonesa ultrapassa o conceito estrito da onomatopéia, pois o japonês a utiliza para expressar as coisas materiais ou imateriais, audíveis ou não audíveis. O japonês se comunica “sonorizando ou pintando as idéias†e, analogamente ao princípio de elaboração dos ideogramas, algumas foneticamente, outras, pelo que o fato pode sugerir, visível ou não, interpretando-se daí som inexistente. O cair da chuva é descrito pela onomatopéia “zaa-zaaâ€, os objetos se espalham fazendo “para-paraâ€, algo esfarrapado está “boro-boroâ€, a dor de cabeça “produz o som†zukkin-zukkinâ€, o andar formoso da moçoila, “shanari-shanari†e “notari-notariâ€, descreve os movimentos ondulatórios suaves. Ao descrever a sensação de alívio, físico ou psicológico, o japonês se sente “sukkiriâ€; entrar sorrateiramente é entrar “kossoriâ€.

O animismo (crença de que tudo é dotado de alma), incutido na consciência coletiva pelo panteísmo (cada coisa tem seu deus próprio) xintoísta deve ter levado este povo a um profundo respeito à natureza, dando “voz†a seus elementos. Fato é que a partir de fatos visíveis ou audíveis, o japonês criou também a figura onomatopaica correspondente a fatos ou coisas não audíveis ou não visíveis. A este aspecto do pensamento japonês, condicionado fortemente pela idéia da construção do ideograma, Haroldo assim se manifesta: “esta dimensão visual da poesia japonesa, herdada por via do ideograma, permite-lhe um extremo refinamento de percepção, um grande poder de síntese imaginativa, em consonância, aliás, com as propensões do espírito poético japonês, manifestadas mesmo numa fase primitiva, de poesia não-escrita……(hai)cai não é mais do que a extensão da técnica do kanji, deste método de composição analógica que preside à notação ideográfica…..â€

O ideograma em si, pela natureza de sua composição, “pode serâ€, como diz Haroldo, “em si próprio, pela alta voltagem obtida com a justaposição direta dos elementos, um verdadeiro poema completo: (por ex, em japonês) akari (明ã‹ã‚Šï¼‰, em chinês, ming ou mei = sol (日) + lua(月), ou como interpreta Pound, “processo de luz totalâ€
(em japonês, na forma adjetiva, akarui (明るã„)= brilhante); e, mais ainda, perceberemos que o haicai não é outra coisa senão a manifestação de análoga “forma mentisâ€, desenvolvida em combinações mais elaboradas, se bem que sujeitas, sempre à mais extrema economia de meiosâ€.

Fontes:
Umberto Eco – A estrutura ausente – Ed Usp e Perspectiva – ed 1971
Ideograma
A Arte no horizonte do provável – Haroldo de Campos – Ed Perspectiva 4.a ed – 1977

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