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abr 09 2008

O ideograma como linguagem

kanji

Na linguagem dos semióticos a significação de um signo (palavra, símbolo) se compõe pela soma do significante (signo visível) mais o significado (idéia proporcionada pelo significante). Na palavra falada ou na escrita fonética, sem uma significação, não existe nenhuma conexão entre o objeto e a palavra que o representa, porque tudo depende apenas de convenção. Exemplificando, se escrevo árvore, todos os alfabetizados em línguas de alfabeto romano estão aptos a ler o significante, mas apenas os que conhecem seu significado terão sua significação.

O ideograma nos proporciona essa agudez imagética, no dizer de Eisenstein. É a imagem pictográfica que fala por si, e pela sutileza de sua concepção, nos mostra o dinamismo da emoção ali visível. É o significante que dispensa o significado e salta imediatamente para a significação, ou se funde à significação, desenhando a palavra que é ao mesmo tempo pintura e poema. Fenollosa diz que o ideograma é a palavra pintada em movimento.Cita a hipótese de Derrida, que vê na formação do ideograma, rastros da escrita e a denomina arquiescritura, sugerindo uma arqueologia da escrita, e prossegue: “a etimologia (do ideograma) fica constantemente visível, conserva o impulso e o processo criadores à vista e em ação….. carreando uma acumulação de significado a que uma linguagem fonética dificilmente pode pretender.” É a comunicação sem intermediários, cuja etimologia da idéia, instiga nossa inteligência e sensibilidade a deduzir a mensagem ali presente.

Esse método ideogrâmico de compor, como a ele se refere Ezra Pound, via Fenollosa, ou a passagem do pensamento por imagens para o pensamento conceitual, criou na alma do japonês uma vocação interpretativa que influenciou profundamente sua cultura. A poesia japonesa, particularmente o haikai, de mínima materialidade num máximo de expressão, é característica inconfundível desta cultura. A onomatopéia (reprodução de sons associados ao objeto ou ao fato) é recurso largamente utilizado na língua. No entanto, esta singularidade da língua japonesa ultrapassa o conceito estrito da onomatopéia, pois o japonês a utiliza para expressar as coisas materiais ou imateriais, audíveis ou não audíveis. O japonês se comunica “sonorizando ou pintando as idéias” e, analogamente ao princípio de elaboração dos ideogramas, algumas foneticamente, outras, pelo que o fato pode sugerir, visível ou não, interpretando-se daí som inexistente. O cair da chuva é descrito pela onomatopéia “zaa-zaa”, os objetos se espalham fazendo “para-para”, algo esfarrapado está “boro-boro”, a dor de cabeça “produz o som” zukkin-zukkin”, o andar formoso da moçoila, “shanari-shanari” e “notari-notari”, descreve os movimentos ondulatórios suaves. Ao descrever a sensação de alívio, físico ou psicológico, o japonês se sente “sukkiri”; entrar sorrateiramente é entrar “kossori”.

O animismo (crença de que tudo é dotado de alma), incutido na consciência coletiva pelo panteísmo (cada coisa tem seu deus próprio) xintoísta deve ter levado este povo a um profundo respeito à natureza, dando “voz” a seus elementos. Fato é que a partir de fatos visíveis ou audíveis, o japonês criou também a figura onomatopaica correspondente a fatos ou coisas não audíveis ou não visíveis. A este aspecto do pensamento japonês, condicionado fortemente pela idéia da construção do ideograma, Haroldo assim se manifesta: “esta dimensão visual da poesia japonesa, herdada por via do ideograma, permite-lhe um extremo refinamento de percepção, um grande poder de síntese imaginativa, em consonância, aliás, com as propensões do espírito poético japonês, manifestadas mesmo numa fase primitiva, de poesia não-escrita……(hai)cai não é mais do que a extensão da técnica do kanji, deste método de composição analógica que preside à notação ideográfica…..”

O ideograma em si, pela natureza de sua composição, “pode ser”, como diz Haroldo, “em si próprio, pela alta voltagem obtida com a justaposição direta dos elementos, um verdadeiro poema completo: (por ex, em japonês) akari (明かり), em chinês, ming ou mei = sol (日) + lua(月), ou como interpreta Pound, “processo de luz total”
(em japonês, na forma adjetiva, akarui (明るい)= brilhante); e, mais ainda, perceberemos que o haicai não é outra coisa senão a manifestação de análoga “forma mentis”, desenvolvida em combinações mais elaboradas, se bem que sujeitas, sempre à mais extrema economia de meios”.

Fontes:
Umberto Eco – A estrutura ausente – Ed Usp e Perspectiva – ed 1971
Ideograma
A Arte no horizonte do provável – Haroldo de Campos – Ed Perspectiva 4.a ed – 1977


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abr 02 2008

A alma do povo japonês | Conseqüência na literatura

http://www.flickr.com/photos/asleeponasunbeam/459979660/

A literatura japonesa adquiriu expressão com Murasaki Shikibu e Sei Shonagon por volta do ano 1000. Curiosamente duas mulheres. Shikibu escreveu Genji Monogatari (contos de Genji) e Shonagon, Makura no Sôshi (histórias de travesseiro).

Mas para o mundo ocidental, a face mais visível da literatura japonesa talvez seja o haikai. Nascida da parte superior do tanka (poesia de 31 sílabas), cuja estrutura é composta por 17 sílabas, chamada hokku, seguida da inferior, de 14, chamada wakiku (poesia lateral), com o tempo adquiriu vida própria popularizando-se rapidamente. O nome haikai vem da forma de composição renga-haikai, que significa poemas encadeados. Em fins do século XIX Masaoka Shiki criou o neologismo haiku, uma junção de haikai e hokku, mas a forma haikai já havia se espalhado pelo ocidente, e assim chegou até nós. O haikai consiste numa forma de poesia de 17 sílabas distribuídas em dois encadeamentos de 5-7-5 sílabas e terminando por uma dupla de 7 sílabas.

Conceito de haikai: mínimo de palavras, máximo de significado. O tema é a natureza que aparece sob o kigô (quatro estações do ano) ou a descrição de algum fato natural. O haikai é perene no sentido de que a ação se passa no presente, ou seja, os fatos estão acontecendo e sob esse aspecto diz-se que o haikai é infindável. O gosto minimalista zenbudista pelas palavras não significam pouco significado. Pelo contrário, o haikai possibilita ampla interpretação, a juízo individual. As palavras são apenas veículo para mostrar um instante, uma porta entreaberta. É mais uma sugestão do que mensagem, um relance do que uma foto.

Fonte: Haikai – Paulo Franchetti e outros 2ª ed 1991 ed Unicamp


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