abr 03 2008
Aspectos históricos, etimológicos e lingüísticos da escrita ideográfica – kanji

Breve História
Não se sabe ao certo como se originaram os kanjis. Há lendas que o situam entre 6000 a 5000 anos antes da nossa era. Conta-se que o historiador T´sang Chieh teve a idéia de expressar na escrita as coisas ao ver as pegadas deixadas por pássaros na neve.
Eisenstein situa essa época, dizendo, sem mencionar detalhes, que teria surgido “2650 anos antes de nossa era, esquematiza-se ligeiramente e, com seus 539 companheiros, forma o primeiro contingente de hieróglifos. Riscada com um estilete sobre uma tira de bambu….” por Ts’ang Chieh, o que situa o fato à época do lendário imperador-soldado Huang-Ti (2697 a. C. – 2597 a. C.). Muitos séculos depois, Confúcio (551 a. C. – 478 a. C.) falando das excelências do também semimítico governo Yao (2365 a. C. – 2255 a. C.), refere-se a um tambor na porta do palácio para ser tocado pelos que quisessem falar com o imperador e uma tábua, onde qualquer um poderia fazer sua reclamação.
Uma outra lenda diz que à mesma época, o imperador Fu Hsi, um dos três que governava a China de então, ainda não unificada, teria substituído as informações oficiais em nós nas cordas por algo escrito. Entre outras utilidades, havia a necessidade de se manterem registradas as fórmulas mágicas dos sacerdotes e a dos oleiros, em marcar suas obras. Os registros arqueológicos mais antigos da escrita foram encontrados inscritos em ossos de animais e cascos de tartaruga. Ossos encontrados em Honan mencionam governantes da dinastia Shang (1766 a. C. – 1123 a. C.), o que nos dá a certeza de que a escrita chinesa tem pelo menos essa idade.

Séculos mais tarde, durante a dinastia Han (206 a. C. – 211 d.C.), iniciada por Kao-Tsu, ocorreu a padronização dos ideogramas, fato que deu ao conjunto de caracteres o nome da dinastia. A escrita chinesa passou então para a História como a escrita de Han, “hanzi”, niponizado como “kanji”, e “hanjya” em coreano.
Dos primitivos pictogramas cuja preocupação era a semelhança com o objeto representado, os ideogramas passaram por quatorze estilos diferentes até chegar à sua forma atual. Os caracteres atuais geralmente são versões simplificadas dos originais.
Com a simplificação, diminuiram-se os traços, metonimizou-se o pictograma, no dizer de Haroldo. Com o tempo os caracteres deixaram sua fase primitiva caracterizada pela iconicidade, isto é, fidedignidade ao objeto representado, e escritos com menos traços e metaforicamente empregados, passou para o estágio da simbolicidade. Hoje são representações minimalizadas e convencionalizadas, ou seja, o pictograma se modificou e perdeu muito de sua característica icônica, tornando-se irreconhecível em relação ao objeto original.
A elaboração do ideograma se fez obedecendo-se a seis princípios.
2.Diagramação: uso de símbolos sem nenhuma iconicidade que o ligue à idéia representada. Por ex, o kanji que representa “em cima”(上), “em baixo”(下), os numerais “um”(一), “dois”(二), “três”(三).
3.Sugestão (kaii moji): se dá pela junção de dois ou mais kanjis sugerindo uma terceira idéia, de fundamental relação entre ambos, porém, de significado diferente. Não é a soma de idéias, mas o produto da combinação, porque o que se expressa é a idéia daí advinda, isto é, um conceito, algo que graficamente não pode ser representado. É o visível a representar o invisível. “E é”, como confessa Eisenstein, “exatamente o que fazemos no cinema, combinando tomadas que pintam, de significado singelo e conteúdo neutro – para formar contextos e séries intelectuais”.
Exemplos:
“homem” + “árvore” = descansar;(休)
“orelha” + “porta” = ouvir;(聞)
“sol” acima da linha do horizonte = aurora;(旦)
“o que liga três planos: céu, terra e homem” = o que governa, governar; (王)
dois pictogramas “árvore” = bosque; (林)
três pictogramas “árvore” = floresta (森)
sol levantando-se, entre os galhos de uma árvore = o leste;(東)
“mulher” + “filho” = verbo gostar, mas também significa bom;(好)
“plantação de arroz” + “força” = homem, macho;(男)
“mulher” sob um “teto” = segurança.(安)
Neste modo de formação a correlação entre os significados se dá pelo radical. Por ex, os verbos lavar (洗う), fluir(流れる), afogar(溺れる), flutuar(浮かぶ), chorar(泣く)e os substantivos óleo(油), caldo(汁), tanque de peixe, lago(池), mar(海), oceano(洋), represa(湖), lágrima(涙), têm o pictograma “água” (シ) como radical. “Alma”(心) é radical ou está presente nos ideogramas “sentimento”(感), lealdade (忠) “amor”(愛), “sabedoria”(恵), pensamento”(念) , “felicidade”(慶), “vontade”(意), “consolar”(慰める), “namorar”(恋) entre outros.

Alguns estilos de kanjis
O kanji criou suas raízes também no Vietnã, por força da administração chinesa entre 111 a. C. e 938 E.C., constituindo-se sua escrita oficial o chinês clássico, denominado Chu-nho, utilizado concomitantemente com o sistema de transliteração para o alfabeto latino, quõc-ngu (linguagem nacional).
Bibliografia:
Cf História da civilização – Will Durant – nossa herança oriental – 1.a parte tomo 2 ed 1942 Cia Ed Nac
Usei os termos ideograma qdo me refiro à construção ideal do signo; kanji como signo específico e
caracter como signo geral ( n. a)
Ibidem pag 174
Cf – Ideograma – Haroldo de Campos – Edusp 4ª ed pag 150
Cf opus cit- História da Civilização – pag 173
Cf www.kanjigraphy.com
Cf opus cit Ideograma – pag 150
Cf opus cit Ideograma – pag 208-209
Ibidem – pag 151
Ibidem – pag 210
Cf Língua e sistemas simbólicos – Yuen Ren Chao – Cia Ed Nacional – ed 1970 – pag 101
Ibidem
Cf www.kanjigraphy.com
Cf www.omniglot.com/writing/chunom.htm
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