Arquivar por abril, 2008

abr 30 2008

O futuro da escrita ideogramática

http://www.flickr.com/photos/reynard_karman/241715506/sizes/m/

A exemplo das diferenças existentes entre o idioma de colonizadores e colonizados, observam-se hoje diferenças entre as escritas dos três países. Na prática, os kanjis estão se simplificando. Há kanjis, como vimos, exclusivamente japoneses; alguns adquiriram significados diferentes ou só foram simplificados no Japão ou na China, exigindo algum esforço para o entendimento. A Coréia criou seu silabário “hangul” no século XVI ao lado do uso do kanji.

Que importância tem esta escrita para os povos?

Este país de dimensões continentais, o terceiro do mundo em extensão territorial com 9,56 milhões de quilômetros quadrados, o mais populoso do planeta com 20% da população mundial, com centenas de dialetos falados por 55 etnias, manteve-se culturalmente harmônico através de mais de três milênios porque o liame de ligação no tempo e entre as diferenças lingüísticas regionais, se deu pela escrita, que podia ser lida por qualquer dialeto, de qualquer época, de qualquer local, embora não se saiba como se pronunciavam ou como se expressavam as idéias.

A escrita ideográfica atende ao ideal de universalidade, unidade e atemporalidade de uma língua, sonhada por Descartes e Leibnitz. Como nos filmes de ficção, uma máquina do tempo transcendental aos milênios, capaz de atravessar fronteiras e épocas, e deixar seus registros entendíveis para a posteridade, parece ser o ideal a que almeja toda língua, todo símbolo de comunicação.

A importância da escrita para este povo pode ser observada pela palavra “civilização” (wen-hua em chinês) que significa “a influência transformadora da escrita”.

Como afirma Jaguaribe, “a continuidade cultural foi certamente protegida, e em larga medida promovida, pela continuidade fundamental da língua, que evoluiu gradualmente durante os últimos 30 séculos, do chinês arcaico para a língua moderna, abrangendo um grande número de dialetos. No entanto, as variações fonéticas não têm sido semanticamente importantes, pois a escrita não é fonética e sim logográfica na sua representação das palavras…. A preservação da escrita chinesa manteve a continuidade da língua, e desse modo, das características básicas da cultura.”.  De fato, achados arqueológicos confirmam que houve pouca variação ao longo do tempo, permitindo ao chinês atual, ler escritos de séculos, milênios atrás. Will Durant, cita o caso dos objetos exumados em Honan, possivelmente de 1800 anos cuja escrita é, na essência, igual ao de hoje e conclui ser o chinês a mais antiga língua do mundo, com exceção de alguns coptas que ainda falam o egipcio antigo. Os escritos de Confúcio, Lao Tsé ou Mêncio (escritos em chinês clássico, só ensinado no curso superior), podem ser lidos hoje por povos chineses de qualquer dialeto, embora os filmes tenham que ser dublados de um dialeto para outro.

Durante milênios os imperadores da China cultuaram as mais refinadas artes que assombraram o mundo ocidental. Eram poetas, filósofos, pintores, monges, pensadores de refinada intelectualidade que em muitas áreas do pensamento e das ciências antecederam e ensinaram outros povos, entre os quais, mais acentuadamente Coréia e Japão. Mas, a História é escrita pelos dominadores, e para o ocidente, foram os ibéricos que descobriram a América, foi Rousseau quem passou para a História falando da bondade inata do homem e as palavras doutrinárias de reciprocidade de tratamento, só as conhecemos na boca de Cristo, assim como o conceito de unidade na diversidade que conhecemos na de Espinosa, e não na de Confúcio.

Os chineses não eram essencialmente guerreiros, por isso perderam inúmeras guerras e foram por muito tempo, vergonhosamente explorados por países do ocidente, Rússia e Japão inclusive, que desde os tempos de Toyotomi Hideyoshi (1581-1598), na sua sanha expansionista, tem invadido a Coréia e a China, mostrando-se o filho ingrato que se volta ao pai que o educou e o transformou de menino primitivo em homem culto e bem formado. Como a História mostra, não tão bem formado…. Felizmente o fortalecimento da consciência política mundial, através de seus vários organismos garantidores da harmonia entre as nações, tem privilegiado o primado do entendimento, da conversa amigável e de acordos para a solução de conflitos. Diga-se, como atenuante, o que dizem os filósofos quando afirmam que mudam as condições humanas, nunca sua natureza. Ao perder batalhas, a China perdeu também territórios, pagou indenizações.

O poder do seu intelecto e a riqueza da sua cultura nada puderam contra as armas.

Jaguaribe alerta, ao finalizar sua grande obra “Um estudo crítico da História”: “……..tem a ver com a necessidade de atribuir a mais alta prioridade ao desenvolvimento cultural e educacional, mais ainda do que ao desenvolvimento econômico. Com efeito, se no curto prazo o desenvolvimento econômico provoca um aumento do excedente social que permite importantes investimentos públicos e sociais, além de acelerar a reprodução do capital, no longo prazo o desenvolvimento econômico não pode ser sustentado sem um desenvolvimento cultural apropriado, e sofrerá os efeitos debilitadores de uma conduta política deseducada e irracional”. O receio de se perder essa rica herança cultural fez dos nacionalistas, opositores enérgicos da simplificação da escrita ou da adoção de uma escrita alfabética.

Qual o futuro da escrita ideográfica?

Sob o critério do trabalho, da produção da riqueza, os países de escrita ideográfica (China – continental e insular, Japão, Coréia e Vietnan), produzem cerca de metade da riqueza que produzem os países anglófonos, os mais produtivos. O chinês (mandarim e dialetos) é a língua mais falada no mundo com 1 bilhão e 300 milhões de falantes, e a escrita ideográfica é utilizada por mais de 20% da população mundial.

Quer como tesouro cultural , sua característica mais importante, ou sob o critério econômico ou número de usuários, a escrita ideográfica, indubitavelmente, tem lugar assegurado no panteão dos patrimônios imorredouros da humanidade.

Will Durant, historiador, filósofo, escritor que une o talento da clareza com a profundidade do saber, conclui o capítulo sobre a civilização chinesa, instigantemente: “…o tipo de civilização chinesa simboliza-se no fenômeno da sua escrita sem precedentes: unidade em meio à diversidade e ao crescimento, profundo conservantismo e irrivalizada continuidade. Este sistema de escrita foi em todos os sentidos uma alta realização intelectual…. no século XVII, Leibnitz, e em nossos tempos Sir Donald Ross, sonharam um sistema de escrita independente das línguas faladas e capaz, portanto, de exprimir as idéias de diferentes povos dum modo inteligível a todos. Mas que é a escrita chinesa senão isso? Senão a escrita de idéias mutuamente inteligível pelas nações do Extremo Oriente? Há séculos que a escrita internacional existe e une um quarto da população do globo. A conclusão do Oriental é lógica e terrível: o resto do mundo tem que adotar a escrita chinesa”.

Acho que não precisamos adotá-la. Mas seremos mais ricos, mais poetas, mais artistas e mais pensadores se a conhecermos.

Fontes:
Nações do Mundo – China – coleção Time-Life
Um estudo crítico da História – ed. 2001 – Hélio Jaguaribe
História da civilização – Nossa herança oriental – 2.a ed – 1942 -Will Durant
Ideograma – Haroldo de Campos – Edusp 4a edição

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abr 29 2008

A civilização que inventou o ideograma

Publicado por Iochihiko Kaneoya em cultura, história

http://www.lmvartstudio.com/galleries/new07/fullsize/spring_villagesm_fs.jpg

No século XVIII, o mundo descobriu a China intelectual. Escreve Diderot: “esses povos são superiores a todos os asiáticos em antiguidade, arte, intelecto, sabedoria, política e gosto pela filosofia…” e Keyserling “o mais perfeito tipo da humanidade, como fenômeno normal, foi elaborado na velha China… a China criou a mais alta cultura universal conhecida…. os chineses são talvez os mais profundos de todos os homens”.

O papel

Os chineses já fabricavam o papel na dinastia Han (206 a.C. – 211 d.C.). Segundo Will Durant, “por volta de 105 de nossa era, T’sai Lun informou ao imperador que havia inventado um material para escrita mais barato e leve, feito de casca de árvore, cânhamo e trapos….. o mais velho papel existente encontrado por Sir Aurel Stein num arcobotante da Grande Muralha, aparece sob forma de documentos oficiais relativos aos anos de 21 a 137 da era atual…”. Os árabes aprenderam a arte do seu fabrico no século VIII e a ensinaram aos europeus no século XIII.

Bem antes de Guttenberg imprimir a Bíblia com tipos móveis em 1440, os chineses já a haviam inventado na dinastia Tang (618-907) e imprimiam os clássicos de Confúcio entre 932 e 953. Na dinastia Sung (960-1279) os chineses já mantinham relações comerciais marítimas com o Japão, a Índia, a Arábia e o Egito.

Filosofia

Yu Tze, quando o mundo nem sabia o que era filosofia, em 1250 a. C., dizia: “não conhecerá mágoas quem renuncia à fama”, inaugurando a sucessão de grandes filósofos produzidos por este país. No século XVII, isto é, 29 séculos depois, Espinosa (1632 – 1677, falando da fama dizia: “a fama também tem uma grande deficiência, a de que se a perseguirmos teremos que dirigir nossa vida de maneira a agradar às concepções arbitrárias dos homens, evitando aquilo de que eles gostam e procurando o que os agrada”. Espinosa dizia ainda que a vontade de Deus e as leis da natureza são uma só coisa, que as leis que regem o universo são invariáveis e eternas, que não existe o bom e o mau; isto é apenas uma concepção errada, antropocêntrica, que o homem faz do universo objetivo, segundo seus interesses ou sentimentos. Por isso o universo é uno, tudo está na unidade. Confúcio (551 a.C. – 478 a. C.), o maior dos filósofos chineses afirmava, 21 séculos antes de Espinosa, “procurar a unidade em todos os fenômenos e o esforço para encontrar alguma harmonia estabilizadora entre as leis da boa conduta e as regularidades da natureza”. “Tzse”, respondeu Confúcio a um discípulo, “pensas tu, suponho, que eu aprendo coisas e guardo-as na memória?” “E não é assim?” “Não, o que procuro é a unidade substancial em tudo”. A procura desta unidade era, para Confúcio, a essência da filosofia. Uma ocasião, respondendo a Chung Kung, que indagara sobre a virtude perfeita, respondeu: “não faças aos outros o que não queres que te façam”, quatro séculos antes de Hillel e cinco séculos antes de Cristo.

As doutrinas de Confúcio, de Lao Tsé (604 a.C. – 517 a.C.), fundador do taoísmo, e de Mêncio (372-289 a. C.), foram certamente o pensamento filosófico de maior influência nos países do oriente. O Japão foi aluno aplicado. Admirador profundo desta elevada cultura, moldou a vida, os costumes, o caráter e o pensamento de seu povo sob este modelo cultural. A ética social japonesa é essencialmente confucionista e o xintoísmo tem forte influência taoísta. Lao Tsé pregava a introspecção e a admiração das belezas da natureza; Mêncio dizia que todos os homens nascem bons, no que era contestado por Hsun Tze (305 a. C. – 235 a. C.), que afirmava o contrário: todos nascem maus e só se tornam bons pela educação. Idêntica discussão se estabeleceu na Europa no Iluminismo no século XVIII, tendo Rousseau, que pregava o mito do bom selvagem, ao centro da discussão. Mêncio afirmava ainda que para um reino ser bem governado os reis deveriam se tornar filósofos ou os filósofos deveriam se tornar reis, como queria Platão.

Pintura/Caligrafia

Uma das excelências da pintura chinesa foi Wang Wei. De sua pintura impressionista, dizia-se que “ uma paisagem torna-se apenas símbolo de um estado de alma”. Poeta e pintor, Wang aliava as duas artes com o talento do gênio. De suas pinturas, os homens diziam: “cada pintura é um poema e cada poema é uma pintura”, sutileza característica da pintura chinesa.70 O calígrafo e o poeta, dada a natureza da escrita pictográfica, quase sempre se fundiam numa pessoa só. Sob esta óptica pode-se falar que o chinês poetiza os traços da pintura ou pinta as palavras vivas da poesia. Fenollosa falava, referindo-se à linguagem dos ideogramas, “da vividez da pintura e do movimento dos sons”.

A caligrafia/pintura/poema é o estado da alma naquele momento, por isso, não há duas pinturas iguais; cada mestre tem seu estilo e deixa na sua obra, as digitais únicas de sua genialidade. Esta arte exerce duplo encantamento: fascina os olhos pela beleza plástica, e extasia a alma, também duplamente: pelos dizeres do poema e pela mensagem conceitual dos kanjis, estes, também um pequeno poema.

Fontes:
História da Civilização – Nossa herança oriental – ed 1942 – Will Durant
Um estudo crítico da História – Hélio Jaguaribe – ed 2001 – Ed Paz e Terra
www.chinapage.com
História da filosofia – Will Durant – col os pensadores ed Nova Cultural ed 1996
Ideograma – Haroldo de Campos – Edusp 4.a ed

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