
Filme ganhador da Palma de Ouro em Cannes em 1983, foi considerado o melhor filme do ano.
Baseado na lenda Ubasuteyama, do Japão antigo, Shohei Imamura nos conta a história sobre o Monte Narayama em cujo sopé, na época de um Japão feudal extremamente pobre, vive uma comunidade de aldeões agricultores. Os velhos, ao completarem 70 anos são levados ao Monte Narayama para ali morrerem. O altruísmo de Orin, uma idosa às vésperas de seus 70 anos e de saúde e dentes perfeitos, a faz quebrar os incisivos superiores para justificar sua desnecessidade de comida, já às vésperas de sua partida ao Monte. Orin, a despeito de sua breve partida, cuida da rotina da família; quer ver seu primogênito casado e providencia com uma velha vizinha satisfação sexual ao mais novo.
A psique humana foi fascinantemente abordada pelos cineastas japoneses do cinema da fase Nouvelle Vague. Imamura, neste filme, aborda temas caros à alma do povo japonês tendo como pano de fundo a luta pela sobrevivência em meio à miséria e as grandes questões que afligem desde sempre a humanidade: a inexorabilidade da morte e da força dos instintos sobre as quais estão arraigadas, intocadas, valores da alma nipônica como “giri” (pronuncia-se guiri – obrigação com os outros) e “gimu” (pronuncia-se guimu – obrigação consigo próprio[C1] ). Lançados em ambiente hostil os valores morais esmaecem à sombra de necessidades mais fortes e urgentes, entre as quais, saciar a fome e o sexo.
Imamura revisita um dos temas de discussão da Europa iluminista do século XVIII, quando retrata a força dos instintos animais em antagonismo com os valores morais do homem. O ambiente natural, hostil, próximo da natureza animal e a desnecessidade de valores morais mais sólidos moldam também o caráter dos homens. Os aldeões miseráveis sublimam a morte do septuagenário revestindo-a com valores morais altruístas ao mesmo tempo que a morte por inanição de crianças é banalizada como fato comum. Na primeira situação a partida é mais dolorida porque parte alguém de mais longa convivência, para quem há um “gimu”, na segunda, é alguém que ainda não serve para o trabalho e é apenas unidade consumidora de comida. Ao nascerem, crianças do sexo masculino correm o risco de serem eliminadas, mas o nascimento de meninas representa algum alívio econômico pela possibilidade de venda. Era prática no Japão antigo o infanticídio, recebendo o nome genérico de “mabiki” e vários outros eufemismos regionais, entre os quais, “discípulo da divindade Jizo”, protetor das crianças.
O sexo é banalizado na promiscuidade e praticado ora pela concupiscência, ora como mecanismo regulador das tensões sexuais. Quando praticado com algum humor entre jovens, este ato de feitio humano, sob a imagem poética do canto do rouxinol, se dá à luz do dia.
O furto de alimentos é severamente punido, revestindo-se de violência, tal como ocorre no mundo animal na disputa por alimento. Este ato, a conseqüente violência e o sexo são sempre praticados à noite, no escuro, onde as figuras são incertas e o mundo do cinema de Imamura parece nos sugerir o profundo obscuro do nosso inconsciente onde abrigamos ainda nossos selvagens instintos que, com os freios morais da sociedade afrouxados, têm acesso fácil ao mundo exterior. A natureza impiedosa e indiferente mostra-se extremamente hostil e agressiva às necessidades humanas, moldando com sua onipresença também o caráter dos homens. As relações familiares e sociais apresentam-se degradadas e avançam condicionadas unicamente pela necessidade de sobrevivência: escassez de alimentos e sexo. Imoral é acrescentar mais uma boca de mulher grávida para ser alimentada, não as circunstâncias em que se deu a gravidez. Mas a boca que representa o prosseguimento da linhagem da família, é bem vinda.
A morte e o seu entorno psicológico e físico são o tema central da obra de Shohei Imamura. A psique humana na tentativa de aceitação da mais excruciante dor do homem, cria o benévolo Deus do Monte Narayama em cuja companhia encontram-se, sempre dispostos a receber os vivos, os espíritos dos parentes e amigos ali deixados para morrer. Se por um lado há esse enlevo espiritual experimentado pela sublimidade da idéia do abrigo divino, no outro extremo, o consciente se aliena tentando manter sua sanidade ao se distanciar de humanos sentimentos, tornando a morte fato natural e corriqueiro, portanto, aceitável.
A ausência de qualquer tipo de arte e lazer, cria no imaginário popular crendices e fantasias variadas que se misturam à realidade. Os aldeões cantam de improviso suas próprias canções para cada ocasião.
O filme parece um pouco chocante. Acho que entenderemos melhor os fatos e a moral daquela comunidade quando nos apercebemos que nós é que estamos fortemente condicionados, desde o berço, por uma sociedade de paradigmas morais estabelecidos e aceitos como válidos, sem que nunca tenhamos tido consciência de que são valores válidos em condições normais de convivência social de uma sociedade moderna, onde não nos faltam alimento nem teto. Esgarçadas essas condições, Imamura mostra-nos a conseqüente modificação dos paradigmas: deterioradas sob a óptica da moral, porque próximas da nossa animalidade. Aos olhos da natureza, entretanto, é apenas a vida que segue acomodando suas forças biológicas no vácuo das forças sociais.
Para saber mais: O crisântemo e a espada – Ruth Benedict – Edit. Perspectiva – 3ª edição – pag 10
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