A alma do povo japonês | Xintoísmo

A alma do povo japonês | Xintoísmo

150 150 Iochihiko Kaneoya

jardim japonês

É a religião primitiva do Japão. Baseia-se no culto da natureza, dos antepassados e das coisas do país.







Panteísta, tudo na natureza é habitado por deuses. Há um deus da montanha, da floresta, dos rios, das pedras, dos animais etc. Idêntica idéia foi perfilhada, agora já racionalmente, no século XVII pelo filósofo Baruch de Espinosa para quem espírito e matéria eram uma só coisa.

O culto do xintoísmo é indissociável da natureza; prega a total integração, a plena aproximação física e espiritual a ela. A plenitude deste sentimento de irmanação, do casamento do corpo e alma à natureza é o objetivo máximo do xintoísmo.

Para o xintoísmo nós nascemos com duas almas: uma vem da terra e representa nosso lado consciente, rude, material, a outra vem do céu e é nosso lado brando, inconsciente, divino.

Ao morrermos nossa alma terrena se desfaz na terra e com isso nossa consciência, mas a divina torna-se novamente um deus e habitará o reino dos céus. Por isso somos todos deuses e proviemos de deuses. Há deuses domésticos, deuses de um clã, deuses do estado. Todo ser humano que tenha realizado algum feito notável é venerado como deus; venera-se seu deus celestial que realizou o feito, não o terreno.

O combate do mal com o bem, das religiões ocidentais é estranho ao xintoísmo. Bem e mal coexistem em todos os seres, animais ou humanos; nós os empregamos conforme a necessidade. O filósofo alemão Hegel ensina semelhantemente em princípios do século XIX: bem e mal são faces da mesma moeda, coexistem necessariamente na mesma pessoa; os anormais revelam-se quando há desequilíbrio entre os dois lados, constituindo um mal, mesmo as pessoas excessivamente só boas.

Não há também a noção de pecado no xintoísmo, mas a de pureza e impureza, esta sim, objeto de inúmeros gestos e rituais de purificação. São considerados impuros: o sangue, o parto, o cadáver, a doença, entre outros.

Há autores, entre eles, o japonês Hori Ichiro, que questiona a classificação do xintoísmo como religião¹. Para a concepção convencional, é estranha uma religião sem Deus, sem doutrina, sem dogma, sem mandamento, sem igreja, sem altar, sem local para culto, sem regras de moralidade, sem proselitismo, sem a noção de pecado/punição, virtude/recompensa; uma religião que não tem um objetivo final, não tem escrituras sagradas, a não ser a mitologia descrita nos textos antigos; não se ocupa da teologia, não tem hierarquia religiosa, não propõe salvação, não oferece conforto ao lado de seres celestiais pós-morte, não tem Paraíso nem Inferno, não tem livro de preces, nem rituais secretos, não prega a evangelização, não é exclusivista e seus deuses são seres como os humanos, ciumento e corajoso como Susanowo ou temperamental e sábia como Amaterasu. Não se adora nenhuma entidade superiora detentora da verdade ou do poder de distribuir recompensas, castigos ou milagres, diferentemente das religiões que monopolizam a atenção de um ser supremo e em seu nome se consideram donas da verdade única, absoluta e indiscutível. Por “amor” à esta verdade perseguem e matam os divergentes. E todos crêem, adoram e obedecem ao mesmo Deus único, dito Senhor dos Céus e da Terra, onipotente, onisciente, onipresente, altamente misericordioso e de profundo amor ao ser humano.

Para o xintoísmo é estranha a idéia de fidelidade ou infidelidade ao seu meio, por isso nunca houve na sua história perseguição de infiéis ou evangelização de povos. Também não há rituais iniciáticos como o batismo separando quem é e quem não é xintoísta. Por isso, diz-se que o xintoísmo é mais uma maneira de ver e viver a natureza e de cultuar a terra e os ancestrais do que propriamente uma religião na acepção ocidental do termo. O estudioso Yanagita Kunio afirma que “não há nos santuários xintoístas instrução doutrinária e só se aprende o xintoísmo pela convivência e pelo exemplo”.

1. Benedito Ferri de Barros – Japão Harmonia dos Contrários – ed 1988 pg 46
2. Bendito Ferri de Barros opus cit. pg. 129

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

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4 Comentários
  • maristela wada costa 17/06/08 at 12:58

    É sempre muito bom verificar e encontrar o que procuramos para mantermos nossa origem. Continuaremos mais e mais buscando. Parabéns

    Maristela

  • Ufaaa que salvação , tava procurando por essa informação faz tempo!

    Muito obrigada!

  • Carlos Perez 16/02/16 at 11:17

    Como estudante de filosofia, gostaria de saber mais detalhes sobre os rituais fúnebres do Xintoísmo. Estou com dificuldade de achar e se vocês pudessem ajudar enviando um link.

    Peço também se vocês teriam um vídeo que detalhe tais ritos fúnebres.

    Obrigado,

    Carlos

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