O que os japoneses escrevem nos envelopes em cerimônias – I

O que os japoneses escrevem nos envelopes em cerimônias – I

150 150 Iochihiko Kaneoya

Os japoneses têm o costume de expressar seus sentimentos intitulando envelopes com dinheiro que são entregues em várias ocasiões sociais. Presentes trazem também escritos em folhas de papel especiais. O oferecimento cabe praticamente em qualquer ocasião social, formal ou informal, festiva ou pesarosa.

Os envelopes (noshibukuro – 熨斗袋) e os papéis que envolvem os presentes (noshigami – 熨斗紙) trazem no alto à direita um pequeno desenho, às vezes em papel destacado, em cujo interior há uma tira de folha amarela chamada tanzaku (短冊 ), que é a simbolização de um molusco chamado haliote, awabi ((鮑) em japonês). Daí ser conhecido como noshiawabi (junção de awabi e o verbo nosu (熨す) – empurrar, esticando com o calor, como o ato de passar roupa).







Em tempos idos, acreditava-se que a carne do awabi era responsável pela longevidade dos homens. Supõe-se também que o consumo do awabi tenha sido adotado pelos monges budistas, proibidos de consumir carne (possivelmente de animais de sangue quente). Jean Herbert conta-nos história de On-be, que fora mergulhadora na cidade de Toba, província de Mie, famosa pela produção de moluscos. Um nobre, vendo-a cortar em finas tiras a carne seca do molusco abalone, ficou admirado com sua habilidade no trabalho e disse que era produto digno de se oferecer a deuses e fez a oferenda ao Grande Santuário de Ise, o mais importante santuário xintoísta do Japão. On-be então, regularmente passou a fazer oferenda ao santuário do produto do seu trabalho (awabinashi – tiras de awabi). Quando morreu, foi canonizada com o nome de Kuguri-kami.

O Azuma Kagami, livro da época Kamakura, registra que em 1191 o xogun da época, Yoritomo Minamoto (xogum a inaugurar a longa dinastia desses guerreiros que ficou conhecida como xogunato), recebeu no Ano Novo esse molusco, mostrando tratar-se de presente de elevado respeito e oferecido em data festiva.

Noshiawabi – no centro o tanzaku representando o awabi

De fato, esse pequeno artesanato de awabi acabou sendo utilizado como presente que se oferece quando se quer comemorar e congratular (engimono –縁起物 ) e como oferenda aos deuses (shinsen –神饌 ).

Awabi

Os envelopes ou presentes traziam então, grudadas, pequenas conchas ou fatias finas da carne do awabi, desidratadas e esticadas com gravetos de bambu e depois, como o nome sugere (verbo nosu), “passadas” e unidas com ferro quente. O tempo e a modernidade se encarregaram de substituir o produto natural como símbolo de longevidade e congratulações, mas permaneceu a ideia original, razão porque os envelopes de cerimônias fúnebres ou de momentos graves ou sérios, não trazem o noshiawabi, hoje mais conhecido como noshibukuro (envelope) ou noshigami (papel que envolve o objeto).

Pode ser dado como presente ou para ajudar no pagamento de despesas, quer seja de cerimônia   de comemoração festiva ou fúnebre. O oferecimento envolve sempre respeito e consideração e deve ser procedido segundo etiqueta própria. Em ocasiões festivas a quantidade de notas, geralmente 5, 7 ou 9 é para que, como no matrimônio, não se divida em dois, não se separem.

Os laços dos envelopes chamados mizuhiki水引)também variam segundo a ocasião e têm significados diferentes. Em cerimônias festivas os laços são feitos com cordões brancos e vermelhos ou dourados e prateados. Nas cerimônias fúnebres, os budistas usam o branco e o preto,  ou branco e azul. O branco deve ficar sempre à esquerda. Os xintoístas usam ambos brancos ou prateados. Os cristãos geralmente nada usam; quando o fazem, ambos os cordões são prateados.

Não dispondo de envelope apropriado, (no comércio encontram-se à venda envelopes com mizuhiki e noshigami  já impressos os motivos), usa-se o branco e nele se fazem as inscrições.

Do original cordão branco e vermelho no período Asuka, no ano 607, a habilidade dos artesãos transformou os simples laços em criações artísticas incorporando à sua obra motivos de bom agouro na cultura popular.

Presente de cerimônia de noivado: noivo presenteia a família da noiva com enfeites de mizuhiki

Exemplos de escritas de felicitação e agradecimento

goshugi – literalmente “cerimônias comemorativas” – oferecido por ocasião de celebração de cerimônias festivas individuais. É geralmente usado em casamentos.

oiwai – comemoração em geral de ocasiões festivas: casamento, promoção, inaugurações, ingresso em escolas, aniversários. É a forma usada quando se especifica o motivo. Por ex. otanjoubi iwai (御誕生日祝 -comemoração de aniversário), nyugakuiwai (入学祝– ingresso em escola).

orei – utilizado como agradecimento em geral, geralmente um serviço ou favor prestado. Se a gentileza é de natureza não eventual e constante, oferece-se uma vez ao final do ano ou um presente como oseibo.

osenbetsu – dinheiro ou presente oferecidos para ajudar a custear despesas de viagem ou mudança e conseqüente fixação na nova moradia.

oseibo – dinheiro ou presente oferecidos no final do ano às pessoas que nos prestaram pequenos favores ao longo do ano.

卒 業 祝sotsugyou-iwai – oferecido ao diplomado em curso.

開 店 祝いkaiten iwai – oferecido em abertura de loja.

寸 志sunshi – “pequena intenção – pequeno donativo” – geralmente contribuição individual para atividades promovidas pela comunidade como gincanas familiares (undo-kai), festivais musicais (nodojiman-kai), festivais artísticos (engei-kai) etc. Não havendo motivo específico para a ocasião, cabe o uso dessa inscrição.

内 祝いuchi iwai – “celebração em família” – inscrição utilizada em envelopes ou em presentes entre familiares.

席 料sekiryou – “para pagamento de assento” – o que se oferece para ajudar nas despesas de aluguel de sala de conferência, palestra, seminários etc.

酒 肴 料shuukouryou – “para o saquê e o peixe” – o que se oferece para pagamento de bebida e comida.

otoshidama – dinheiro ou presente oferecidos no Ano Novo, geralmente por avós aos netos.

Referências:

HERBERT, Jean. Dieux et sectes populaires du Japon. Albin Michel:Paris, 1967.

MATSUE, Shigeo & YOSHIDA, Tosaku. Gendai kokugo jiten. Nippon bungeisha:Tokyo, 1981.

YAMADA, Toshio et al.Shinchou gendai kokugo jiten dainihan. Shinchoushahan:Tokyo, 2011.

http://www.jp-guide.net/manner/na/noshi.html

http://eos.kokugakuin.ac.jp/modules/xwords/entry.php?entryID=1040

http://ja.wikipedia.org/wiki/%E5%B9%B4%E9%BD%A2#77.E6.AD.B3

http://ja.wikipedia.org/wiki/%E7%86%A8%E6%96%97

FUJINO, Iwatomo, Kokkan heiyou shinjiten. Shubunkan-han:Tokyo, 1968

http://ja.wikipedia.org/wiki/%E9%A6%99%E5%85%B8

TAKATSUKA, Takedo, shodo santaijiten. Nobarasha:Tokyo, 2002

http://www.e-butsuji.jp/butsuji4-1.html

http://www.jp-guide.net/manner/ha/houji.html

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

All stories by : Iochihiko Kaneoya
2 Comentários
  • AMALIA DAM UCHIMURA 6/10/11 at 09:51

    IWETH, QUE COISA BOA “”””NIPOCULTURA”””! PARABÉNS , PELA SOBRINHA DE QUE É VOCÊ., MUITO INTERESSADA PELA CULTURA DOS N/S AVÓS E SEI DE QUE COM CERTEZA IRÁ TRANSMITIR TUDO À SUA PRIMOGENITA NETA -LAURA YUMI KUSANO.ABS. SUCESSOS NOS SEUS TRABALHOS DE CERAMISTA-!!!

  • Muito bom! fiquei muito feliz por poder aprender mais sobre esta cultura fantástica.

Leave a Reply