fev 21 2009
Madadayo – Akira Kurosawa
MADADAYO
Diretor: Akira Kurosawa – 1993
Filme lÃrico, poético, de casto humor, porém, rico e denso ao mostrar valores do relacionamento professor-aluno, bastante acentuados na cultura japonesa.
É a história real da vida do professor Hyakken Uchida que após 30 anos lecionando literatura alemã, se aposenta, tornando-se escritor. Durante seu magistério, ensinou gerações de jovens, alguns, filhos de ex-alunos.
Com frequência os ex-alunos, que o chamavam de ouro maciço, o visitam para tomarem saquê, sendo sempre surpreendidos com sua sincera espirituosidade. Escreve na entrada da sua casa que as visitas lhe são aborrecidas, não a de seus ex-alunos; ao mesmo tempo, que as visitas lhe são agradáveis, não a de seus ex-alunos. Mas com prazer os convida para o jantar da comemoração do seu 60º aniversário e confessa ter comprado a carne mais barata.
De puro e fino humor, suas atitudes são levemente zombeteiras, porém sempre respeitosas. Numa ocasião, dois ex-alunos decidem entrar na casa, sorrateiramente, tarde da noite para se certificarem da segurança. Ficam surpresos não apenas pela entrada fácil, mas, quando vêem por toda a casa indicações para eventuais ladrões: “entradaâ€, “área de recreio†e “saÃdaâ€. Em outra casa há ainda cartazes sugestivos e bem humorados como o homônimo de “Kinkakuji†(no Japão, nome de um templo todo revestido de ouro, do século XIV em Kyoto), porém escrito com outros caracteres que significam “santuário de entrada proibida para visitantes†e o desenho de uma ameaçadora tesoura sob os dizeres num muro em que se pedia o favor de não se urinar ali.
Bastante estimado, seus ex-alunos decidem então que todos os anos comemorariam o aniversário do professor numa festa que denominaram “Ma-ah-da-kaiâ€, cuja escrita ideográfica pode ser traduzida a algo como “encontro com alguém superior, elevado, divinoâ€, nome que retiraram de uma brincadeira de crianças japonesas, entre nós conhecida como esconde-esconde. No Japão as crianças se escondem e o que se põe a procurar pergunta cantarolando “ma-ah-da-kai†ou “mou i-i-kai (agora já posso?) ao que os demais respondem também melodiosamente “madadayo†(ainda não) ou, se já estão escondidos, “mou i-i-yo†(agora já pode).
Todos os anos no Ma-ah-da-kai os discÃpulos lhe preparam um grande copo de cerveja que o mestre bebe com prazer, ao final lhes cantando, como as crianças, “madadayoâ€, o que quer dizer naquele contexto, estou bem de saúde e a morte ainda está longe; não pode vir me buscar.
Com a casa destruÃda pelos bombardeios durante a Segunda Guerra, o professor muda-se para uma casa extremamente modesta onde quase não cabiam os discÃpulos visitantes. Mesmo assim, as visitas eram frequentes e bem humoradas. Após algum tempo, os ex-alunos compram-lhe uma casa nova.
Dotado de uma sinceridade pueril e extremamente simples, o mestre tinha a alma grande e sensÃvel. Se angustia diante de fato tão simples como o desaparecimento de um gato sem dono, que lhe pertencera ocasionalmente. Fato certamente insignificante e miúdo aos olhos do adulto normal – aquele preocupado com a produtividade no trabalho, com a famÃlia, com a casa e as contas para pagar – mas não para os ex-alunos. A eles não importa a natureza do sofrimento, apenas o bem estar do mestre.
Seus ex-alunos devotam-lhe respeito e sincera admiração e as ocasiões dos encontros parecem ser ato voluntário de abandono de suas atividades de homo faber para voltarem ao homo ludens que eram quando crianças: desaparecem as diferenças sociais e as únicas coisas que os unem é o prazer da convivência e de juntos experienciarem os mais elevados sentimentos ao redor de um ponto de ligação comum que os une desde a adolescência.
Diferentemente do ocidente, no oriente o budismo ensinou o caminho da salvação pela razão (iluminação). Na cultura desse povo tudo ligado ao conhecimento e ao aprimoramento da alma, é respeitado e venerado: as escolas, os professores, os livros, os santuários, os templos, os monges, os artistas, as obras de arte. Na hierarquia social, o professor terá sempre ascendência sobre seus ex-alunos indiferentemente da posição social que ocupem no futuro, pois na gênese cultural do xintoÃsmo – religião primitiva do Japão – está a perfeição do lado divino do ser humano e cabe ao educador apenas saber extraÃ-lo – como a escultura Pietá de Michelangelo, cuja extrema perfeição, ao ser elogiada, ouviu-se do artista que a perfeição já estava lá. Ele retirara apenas os excessos. A gratidão a esse trabalho do professor é eterna. Os japoneses têm um nome para a tarefa educacional, quer seja do professor ou dos pais: “shin-sei kaihatsu†(shin = Deus, sei = natureza, kaihatsu = desenvolver, manifestar), fazer manifestar o lado divino e perfeito de cada um. A grande vergonha de um professor é o fracasso do aluno.
Kurosawa faz de uma convivência rica e substantiva o pano de fundo do seu filme, entretecido com os fios da solidariedade, do bom humor, do respeito e do amor. São os valores do Japão tradicional xintoÃsta, assim referidos por Yanagita Kunio, etnólogo japonês: “nos santuários xintoistas não há instrução doutrinária e só se aprende o xintoÃsmo pela convivência e pelo exemploâ€
O Ma-ah-da-kai é a prática divertida e bem humorada de princÃpios zen-budistas que estão na raiz da cultura genuinamente japonesa.
Na prática da cerimônia do chá, por exemplo, não há a diversão ruidosa do filme mas os princÃpios são os mesmos: respeito, pureza, harmonia e serenidade. No sukiya-zukuri (saleta especialmente para a cerimônia), os convidados entram por uma porta chamada nijiriguchi, construÃda mais baixa que as comuns onde todos têm que se abaixar para entrar. Simbolicamente significa que todos abandonam o que são lá fora, são todos iguais dentro da sala de chá – recinto santificado que os isola do mundo exterior. Analogamente, no filme, os ex-alunos também estão isolados do mundo exterior e vivem numa atmosfera própria, inexpugnável e certamente estranha aos de fora, a cada comemoração do aniversário do professor. Nas palavras de um grande mestre: “ (a cerimônia do chá) é uma forma da arte de viver…(o chá) é um pretexto para a adoração da pureza e do refinamento, uma função sagrada unindo anfitrião e conviva para produzirem o máximo de beatitude em meio ao mundanoâ€.
A efemeridade da vida pregada pelo budismo dá a substancialidade do filme ao mesmo tempo que mostra a grandeza das coisas pequenas e a pequenez das coisas grandes. Despertadas de coisas pequenas, a grandeza dos elevados e perenes sentimentos permeiam todo o filme – nada faz crer que nem mesmo a morte do professor possa destrui-los – o resto é a grandeza apequenada na história: a guerra, a destruição da casa, compra de uma casa nova. O eterno é o que não se vê; o que se vê, é o efêmero, o impermanente.
Uma vez mais mestre Kurosawa, como um talentoso “benshi†(no Japão, narrador dos antigos filmes mudos do cinema) narra sua história em forma de poema, deixando-nos sempre ao final, sua profunda mensagem de grande humanista: nascemos para a convivência e só assim podemos ser verdadeiramente humanos manifestando o que temos de melhor; a vida só tem sentido se for plena de sentimentos, de respeito, de amor ao próximo como pregaram as grandes almas da humanidade, desde Buda, Cristo e mais recentemente Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá e Nelson Mandela.
O que o professor jamais falou, Kurosawa disse-nos, Ã sua maneira, o que nunca querÃamos ouvir.
Se o professor Uchida sempre respondia, ao final do grande copo de cerveja, para júbilo de seus discÃpulos, “madadayoâ€, por que você tinha que nos dizer, em 6 de setembSe ro de 1998, “mou i-i-yo†(agora já posso), se nunca lhe perguntamos “ma-ah-da-kai†(agora já pode)?
Foi como o mestre escreveu seu próprio epitáfio: libertando sua alma de criança a correr pelo campo com outras crianças numa tarde poeticamente crepuscular, cantarolando “madadayoâ€. Aos poucos sobre o cantarolar, sobressai-se suavemente L’estro Armonico de Vivaldi, clássicos de que tanto gostava, a câmera focalizando o céu cheio de cores – a última cena do filme – … a alma do mestre a adejar por entre as nuvens rumo ao infinito. Como no filme, o essencial é invisÃvel.
Um adeus sem tristeza.
Um réquiem feito de ternura.
Foi o último trabalho do grande “benshi”.
A última poesia declamada pelo trovador.
O último canto do menestrel das telas.
Posts relacionados trazidos a você pelo Yet Another Related Posts Plugin.









Oi Bruno!
Te indiquei pro “Prêmio Dardos” e para o selo “Olha q blog maneiro”:
http://irradiandoluz.blogspot.com/2009/02/voltei-das-ferias.html
Um abraço,
Gabi Dread