out 16 2014

Jikininki

Publicado por em japão

                     

Musô Kokushi, monge zen-budista, viajava pelo interior da província de Mino, quando se perdeu em local ermo, sem nenhuma residência à vista. Caminhava há longo tempo já sem esperança de encontrar abrigo quando avistou no alto de uma colina, iluminado pelos últimos raios do dia, um anjitsu (pequenos abrigos à beira de caminhos, construídos por monges, que os utilizam para se abrigar durante peregrinações). O casebre parecia estar em péssimas condições, mas mesmo assim, apressou-se, encontrando ali a residir, um velho monge a quem pediu pousada. Este recusou asperamente, recomendando ao exausto caminhante, seguir adiante até um vilarejo próximo que se situava num vale, onde certamente poderia encontrar pousada e comida.

De fato, Musô chegou ao pequeno vilarejo que consistia em menos de doze residências, onde foi gentilmente recebido pelo chefe. Quando chegou, cerca de 40 a 50 pessoas estavam reunidas no aposento principal mas Musô foi levado a um aposento que lhe foi mostrado onde recebeu comida e cama. Estando muito cansado deitou-se para descansar. Mas pouco antes da meia-noite, foi despertado pelo que lhe parecia ser o choro de pessoas que vinham do aposento ao lado. A leve porta de madeira deslizou delicadamente surgindo a figura de um jovem com uma lanterna chochin que respeitosamente, cumprimentando o monge, falou:

– Senhor monge, é com pesar que lhe comunico que agora sou eu o chefe da casa. Eu era apenas o filho mais velho, mas meu velho pai faleceu e está sendo velado na sala ao lado. À tarde quando o senhor chegou cansado, não queríamos aborrecê-lo com o triste acontecimento. Meu pai havia falecido havia poucas horas antes do senhor chegar e os moradores da vila estavam aqui para a cerimônia fúnebre. Agora estamos todos indo para um vilarejo próximo, distante cerca de três milhas para passar a noite. Segundo um costume nosso, ninguém deve permanecer nesta vila à noite quando ocorre alguma morte. Fazemos as orações, levamos oferendas ao falecido e o deixamos só aqui. Durante a noite, estranhas coisas acontecem na casa onde foi deixado o corpo, por isso, acho que seria melhor o senhor nos acompanhar. Certamente acharemos um bom lugar onde o senhor possa passar a noite no vilarejo. Mas talvez, como o senhor é um monge, não tenha medo de demônios ou maus espíritos e não se sinta desconfortável na presença de um morto. Se assim for, o senhor pode ficar nesta humilde casa. No entanto, devo lhe dizer, ninguém, a não ser um monge, ousaria permanecer aqui nesta noite.

Musô respondeu:

– Estou profundamente agradecido pela sua gentileza e generosa hospitalidade. Você não deveria ter se preocupado comigo a este ponto. Embora cansado, como monge teria realizado a cerimônia fúnebre antes de vocês partirem. Permita-me permanecer aqui. Realizarei a cerimônia só e aguardarei aqui o regresso de vocês pela manhã. Eu não sei a que você se refere quando fala em demônios ou maus espíritos mas, eu não temo essas coisas. Quanto a isso, você não deve se preocupar comigo.

O moço pareceu satisfeito com a segurança de Muso e agradeceu a boa vontade e as palavras de conforto, no que foi seguido pela sua família e pelos aldeões que ali estavam, já prestes a partir.

– Senhor monge, disse, sentimos deixá-lo só quando deveríamos zelar pelo seu bem estar. Pela regra do nosso povoado, ninguém deve permanecer aqui após a meia-noite. Nós lhe suplicamos, amável monge, que o senhor tome o máximo cuidado consigo porque não estaremos aqui para qualquer eventualidade. E se acontecer qualquer coisa estranha durante nossa ausência, por favor, conte-nos pela manhã.

Todos então deixaram a casa, com exceção do monge que rumou para o aposento onde jazia deitado o morto. As oferendas estavam dispostas diante do corpo iluminadas por uma pequena lanterna utilizada em cerimônias budistas chamada tomyô. O monge então calmamente iniciou suas orações naquele ambiente silencioso iluminado apenas pela lanterna – a única chama em todo o vilarejo. Lá fora, apenas uns poucos grilos quebravam o silêncio coberto por uma noite sem lua. Terminada a cerimônia o monge mergulhou em profunda meditação e assim permaneceu por longo tempo. Nada se ouvia, nada se via lá fora. A chama do tomyô oscilava de vez em quando acusando a leve brisa que passava pelo aposento.

De repente, o monge se viu interrompido de sua meditação. Ouviu um andar pesado, lento, rastejante. E se viu sem forças para falar ou se mover e assistiu a tudo estático, paralisado diante de tão horrenda cena: a enorme massa rastejante em forma humana entrou no aposento e levantando o cadáver, devorou-o como um crocodilo devora suas presas. Devorou também as oferendas antes de se esgueirar para dentro da escuridão, de onde viera, desaparecendo tão misteriosamente como quando surgiu.

Na manhã seguinte os aldeões encontraram Musô acordado quando regressaram. Cumprimentando-o, entraram no aposento e não se mostraram surpresos pela ausência do corpo e das oferendas. Disse o aldeão dono da casa:

– O senhor deve ter visto algo não agradável ontem à noite. Estivemos preocupados com o senhor, mas vendo-o vivo e são, estamos felizes. Teríamos ficado com prazer com o senhor, se fosse possível, mas como lhe disse ontem à noite, sempre que alguém morre, as regras aqui nos obrigam a deixar o morto só, na vila à noite. Quando não se cumpre isso, alguma grande desgraça ocorre na vila. Quando nos ausentamos, na manhã seguinte as oferendas e o corpo sempre desaparecem. Ninguém sabe a causa mas o senhor deve ter visto algo.

E Musô relatou sobre o que acontecera na madrugada mas nenhum dos presentes pareceu surpreso com o ocorrido.

– O que o senhor nos relatou, falou novamente o dono da casa, é o que ouvimos dos nossos ancestrais desde há muito tempo.

Musô perguntou então:

РO monge que mora no alto da colina ṇo lhes realiza nenhuma cerim̫nia f̼nebre?

– Que monge? Indagou o jovem senhor.

– O monge que ontem me indicou esta vila. Eu fui até seu anjitsu lhe pedir pousada mas ele recusou. Os aldeões entreolharam-se espantados e após algum silêncio, disse o jovem aldeão:

– Não há nenhum monge e nenhum anjitsu na colina. Há muitas gerações não há nenhum monge nesta vizinhança.

Musô nada mais disse sobre o assunto por ter a certeza de que seu gentil interlocutor o imaginava ter se iludido, visitado uma miragem. Despediu-se de todos e após receber os agradecimentos dos moradores, decidiu prosseguir sua viagem, passando antes onde havia visto o casebre no alto da colina. Estava certo de que havia o anjitsu e que fora recebido por um velho monge. Não poderia ser apenas sua imaginação.

Não teve dificuldade em encontrar o casebre e desta vez o velho monge abrindo-lhe a porta convidou-o a entrar. Enquanto Musô se acomodava, disse-lhe, curvando-se respeitosamente, em voz humilde o solitário morador:

– Eu estou envergonhado! Muito envergonhado.

РO senhor ṇo tem que se envergonhar por ter me recusado pousada noutro dia, disse Mus̫. O senhor me indicou aquela vila onde fui muito bem tratado e lhe agrade̤o por isso.

– Lamentavelmente não posso dar abrigo a ninguém, continuou o morador. A razão da minha vergonha não é por isso. Estou envergonhado porque o senhor deve ter me visto em minha real forma – na noite passada, fui eu que devorei o corpo e as oferendas naquela casa enquanto o senhor lá estava. Sabe, senhor monge, eu sou um jikininki [1] – um comedor de carne humana. Tenha piedade de mim e deixe-me relatar como fui reduzido a esta triste condição.

Acomodando-se diante de Musô, olhar cabisbaixo, prosseguiu o velho monge:

– Há muito, muito tempo atrás, eu era um monge nesta desolada região. Não havia nenhum outro monge por aqui. Por isso, as pessoas traziam os mortos até aqui, caminhando às vezes longas distâncias, para a cerimônia fúnebre. Eu os atendia apenas por interesse próprio, via meu ofício como profissão comercial e cobrava pelas cerimônias porque para mim, roupa e comida apenas, eram ganhos insuficientes para um monge. Por causa deste comportamento, após minha morte, renasci na forma de jikininki, como o senhor me viu e sou obrigado a devorar os corpos dos aldeões que morrem nas redondezas. Agora, senhor monge, suplico-lhe que o senhor realize a cerimônia do segaki [2] para mim; salve-me com suas orações, rogo-lhe para que me livre o mais rápido dessa horrível existência. Assim falando, o monge desapareceu diante dos olhos de Musô. O casebre também havia desaparecido. E Musô encontrou-se no instante seguinte no meio de um capim alto, ajoelhado diante de uma velha tumba coberta de musgo, de formato gorin-ishi [3], que parecia ser a tumba do velho monge.

 


[1] Literalmente homem que devora maus espíritos.

[2] É cerimônia especial budista para livrar pessoas na condição de gaki (mortos enviados ao Inferno da Fome) ou de espíritos famintos.

[3] Literalmente “círculo das 5 pedras” significando os 5 elementos místicos: éter, ar, fogo, água e terra.

 

Referência

HEARN, Lafcadio. Writings from Japan. [S.l.]: Penguin Books, 1984.


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set 03 2014

Rapsódia em agosto | Akira Kurosawa

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No dia 29 de agosto de 2014, o Espaço Wulin – de Teresa Sell -, promoveu uma sessão de cinema com chá e muita conversa com o filme:

Rapsódia em Agosto | Diretor: Akira Kurosawa (1991) 

Pelas lentes de Kurosawa – que escreveu e dirigiu o filme -, as sequelas deixadas pela guerra no sentimento das diferentes gerações ocupam o centro do filme, mostrando diferenciadamente como a guerra e a posterior ocidentalização moldaram o comportamento e o caráter das gerações.

A avó expressa grande alegria por estar junto com os netos naquele verão. Embora não apreciem sua comida, Kane não se opõe em entregar a cozinha à sua neta. A refeição lhe é sempre motivo de profunda gratidão, e a reverencia antes de se servir, mesmo a preparada ao paladar dos netos. Estes são a geração pós-ocidentalização, a geração que exibe roupas com motivos norte-americanos, crianças que nasceram durante o Japão em franca recuperação econômica quando os laços com o ocidente, EUA principalmente, já estavam bastante estreitos. Seus pais são a geração do pós-guerra, a geração produtora que cresceu durante a frenética recuperação do país e construiu seu quotidiano em volta do trabalho. Mergulhados neste mercado, não têm tempo para olhar para o Japão cultural, das tradições, da poesia, do romantismo, da primazia dos sentimentos. Estão fortemente condicionados pelas circunstâncias: temem constranger ao expor ao primo norte-americano Clark – rico plantador de abacaxi no Havaí – a morte do pai causado pela bomba atômica jogada pelo seu país, e com isso, perder eventual emprego. A riqueza dos parentes havaianos é objeto de admiração: a casa majestosa, a piscina, o luxuoso automóvel e a enorme fazenda de abacaxi.

Kane, a velha senhora que vivenciou a bomba atômica de Nagasaki em 9 de agosto de 1945, carrega ressentimentos sobre os que atiraram a bomba. Enviuvou naquele dia quando seu marido morreu enquanto lecionava numa escola. Sua mágoa não se prende à guerra em si, mas à nação que jogou a bomba e fingia ignorar o fato. Traz no corpo a cicatriz da radiação – marca indelével a lhe expor o crânio parcialmente desnudo -, memória inapagável de uma guerra que ainda não se findou, cujas vítimas vivem ainda com sequelas provocadas pela radiação. Personifica o Japão tradicional, antigo, que viveu a guerra, ressentida com a estupidez dos humanos que lhe tirou o marido, a cidade e a comunidade em que vivia, mas ainda o Japão dos sentimentos puros em que a convivência harmônica assume seu mais alto valor. Serena e às vezes silenciosa convivência, onde palavras são desnecessárias para se contemplar o luar com os netos ou para se comunicar quando recebe visita de uma amiga, também enviuvada pela bomba. “Pessoas conversam sem palavras”, explica a avó .

Kane perdeu um irmão, Suzukichi, que definhou aos poucos; perdeu todos os cabelos e vivia recluso desenhando apenas olhos – o que mais temia, o que observava sua deficiência física. A avó diz que o neto mais novo é muito parecido com o irmão falecido, o que foi motivo de zombaria por parte das demais crianças. Relata o salvamento do irmão pelo monstrinho Kappa – que o retirou das águas onde estava se afogando. A razão se manifesta nos dizeres do neto mais velho ao duvidar do salvamento de uma criança por um monstrinho tão pequeno e de pernas e braços finos. Mas logo todos correm assustados aterrorizados pelo monstrinho verde – peraltice do menino mais novo, o que era zombado por se parecer com Suzukichi. A jovem geração, a da razão, em conflito com a antiga, a mística, das fantasias e lendas.

Com a visita do sobrinho Clark, Kane e Clark se reconciliam, debitando à guerra os tristes acontecimentos. Criticado pela sua visão ingênua da guerra, Kurosawa respondia que as pessoas não querem a guerra; quem a deseja e faz são os governos. Seus filmes são apolíticos, distantes dos interesses e das querelas entre nações. Falam do homem: sua vida, seus dramas, suas alegrias e tristezas. Trazem sempre a mensagem da boa convivência humana. Analogamente, como Voltaire declarou, possivelmente se sentia homem antes de se sentir japonês.

Ao longo da narrativa os netos descobrem na avó o Japão tradicional, do cultivo de afetos, de sentimentos puros intocados pelas circunstâncias da vida. O Japão do silêncio que conversava, que via poesia na lua cheia ou na flor solitária à beira do caminho.

O filme parece entrar num estado catártico a partir da reconciliação: o órgão que inicia o filme desafinado, agora afinada e harmoniosamente as notas musicais acompanham o canto entusiasmado dos netos: “o garoto viu a rosa no meio do gramado, brotando em toda sua inocência. Tudo lhe foi revelado; uma incessante fascinação.”

Após a morte do irmão, pai de Clark, a avó perde o senso do real e enxerga o irmão morto a visitá-la; o clarão de relâmpagos a faz proteger os netos da radiação da bomba atômica.

O filme termina em meio a terrível tempestade, cujas nuvens pesadas e escuras conduzem Kane à Nagasaki da bomba. E para lá caminha a franzina sobrevivente para salvar sua família, tentando se proteger com um pequeno guarda-chuva. A cena traz a densidade imagética declamada por um menestrel das telas: o Japão antigo corre para não ser destruído, para preservar seus valores culturais, seguido pela geração que foi moldada pela ocidentalização mas que não quer perder o Japão antigo. A geração ocupada com o trabalho, sem tempo, agora abandona tudo para correr atrás do que nunca tivera tempo para cultivar. O Japão antigo avança fragilizado, com dificuldade, porém vivo e resoluto com força para fazer seguidores. Permeando o Japão do passado, do presente e do futuro, como a uni-los sob uma única onda que lhes dá significado, a chuva torrencial a lavar ressentimentos, a aguar uma nova realidade na expectativa do nascimento de um novo amanhã. Com o esgarçar da proteção, agora o Japão se entrega plenamente à força da onda renovadora.

A inocência foi descoberta; uma incessante fascinação.


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