set 03 2014

Rapsódia em agosto | Akira Kurosawa

Publicado por em jap√£o

No dia 29 de agosto de 2014, o Espa√ßo Wulin¬†–¬†de Teresa Sell -, promoveu uma sess√£o de cinema com ch√° e muita conversa com o filme:

Rapsódia em Agosto | Diretor: Akira Kurosawa (1991) 

Pelas lentes de Kurosawa – que escreveu e dirigiu o filme -, as sequelas deixadas pela guerra no sentimento das diferentes gera√ß√Ķes ocupam o centro do filme, mostrando diferenciadamente como a guerra e a posterior ocidentaliza√ß√£o moldaram o comportamento e o car√°ter das gera√ß√Ķes.

A av√≥ expressa grande alegria por estar junto com os netos naquele ver√£o. Embora n√£o apreciem sua comida, Kane n√£o se op√Ķe em entregar a cozinha √† sua neta. A refei√ß√£o lhe √© sempre motivo de profunda gratid√£o, e a reverencia antes de se servir, mesmo a preparada ao paladar dos netos. Estes s√£o a gera√ß√£o p√≥s-ocidentaliza√ß√£o, a gera√ß√£o que exibe roupas com motivos norte-americanos, crian√ßas que nasceram durante o Jap√£o em franca recupera√ß√£o econ√īmica quando os la√ßos com o ocidente, EUA principalmente, j√° estavam bastante estreitos. Seus pais s√£o a gera√ß√£o do p√≥s-guerra, a gera√ß√£o produtora que cresceu durante a fren√©tica recupera√ß√£o do pa√≠s e construiu seu quotidiano em volta do trabalho. Mergulhados neste mercado, n√£o t√™m tempo para olhar para o Jap√£o cultural, das tradi√ß√Ķes, da poesia, do romantismo, da primazia dos sentimentos. Est√£o fortemente condicionados pelas circunst√Ęncias: temem constranger ao expor ao primo norte-americano Clark – rico plantador de abacaxi no Hava√≠ – a morte do pai causado pela bomba at√īmica jogada pelo seu pa√≠s, e com isso, perder eventual emprego. A riqueza dos parentes havaianos √© objeto de admira√ß√£o: a casa majestosa, a piscina, o luxuoso autom√≥vel e a enorme fazenda de abacaxi.

Kane, a velha senhora que vivenciou a bomba at√īmica de Nagasaki em 9 de agosto de 1945, carrega ressentimentos sobre os que atiraram a bomba. Enviuvou naquele dia quando seu marido morreu enquanto lecionava numa escola. Sua m√°goa n√£o se prende √† guerra em si, mas √† na√ß√£o que jogou a bomba e fingia ignorar o fato. Traz no corpo a cicatriz da radia√ß√£o – marca indel√©vel a lhe expor o cr√Ęnio parcialmente desnudo -, mem√≥ria inapag√°vel de uma guerra que ainda n√£o se findou, cujas v√≠timas vivem ainda com sequelas provocadas pela radia√ß√£o. Personifica o Jap√£o tradicional, antigo, que viveu a guerra, ressentida com a estupidez dos humanos que lhe tirou o marido, a cidade e a comunidade em que vivia, mas ainda o Jap√£o dos sentimentos puros em que a conviv√™ncia harm√īnica assume seu mais alto valor. Serena e √†s vezes silenciosa conviv√™ncia, onde palavras s√£o desnecess√°rias para se contemplar o luar com os netos ou para se comunicar quando recebe visita de uma amiga, tamb√©m enviuvada pela bomba. “Pessoas conversam sem palavras”, explica a av√≥ .

Kane perdeu um irmão, Suzukichi, que definhou aos poucos; perdeu todos os cabelos e vivia recluso desenhando apenas olhos Рo que mais temia, o que observava sua deficiência física. A avó diz que o neto mais novo é muito parecido com o irmão falecido, o que foi motivo de zombaria por parte das demais crianças. Relata o salvamento do irmão pelo monstrinho Kappa Рque o retirou das águas onde estava se afogando. A razão se manifesta nos dizeres do neto mais velho ao duvidar do salvamento de uma criança por um monstrinho tão pequeno e de pernas e braços finos. Mas logo todos correm assustados aterrorizados pelo monstrinho verde Рperaltice do menino mais novo, o que era zombado por se parecer com Suzukichi. A jovem geração, a da razão, em conflito com a antiga, a mística, das fantasias e lendas.

Com a visita do sobrinho Clark, Kane e Clark se reconciliam, debitando √† guerra os tristes acontecimentos. Criticado pela sua vis√£o ing√™nua da guerra, Kurosawa respondia que as pessoas n√£o querem a guerra; quem a deseja e faz s√£o os governos. Seus filmes s√£o apol√≠ticos, distantes dos interesses e das querelas entre na√ß√Ķes. Falam do homem: sua vida, seus dramas, suas alegrias e tristezas. Trazem sempre a mensagem da boa conviv√™ncia humana. Analogamente, como Voltaire declarou, possivelmente se sentia homem antes de se sentir japon√™s.

Ao longo da narrativa os netos descobrem na av√≥ o Jap√£o tradicional, do cultivo de afetos, de sentimentos puros intocados pelas circunst√Ęncias da vida. O Jap√£o do sil√™ncio que conversava, que via poesia na lua cheia ou na flor solit√°ria √† beira do caminho.

O filme parece entrar num estado cat√°rtico a partir da reconcilia√ß√£o: o √≥rg√£o que inicia o filme desafinado, agora afinada e harmoniosamente as notas musicais acompanham o canto entusiasmado dos netos: “o garoto viu a rosa no meio do gramado, brotando em toda sua inoc√™ncia. Tudo lhe foi revelado; uma incessante fascina√ß√£o.”

Ap√≥s a morte do irm√£o, pai de Clark, a av√≥ perde o senso do real e enxerga o irm√£o morto a visit√°-la; o clar√£o de rel√Ęmpagos a faz proteger os netos da radia√ß√£o da bomba at√īmica.

O filme termina em meio a terr√≠vel tempestade, cujas nuvens pesadas e escuras conduzem Kane √† Nagasaki da bomba. E para l√° caminha a franzina sobrevivente para salvar sua fam√≠lia, tentando se proteger com um pequeno guarda-chuva. A cena traz a densidade imag√©tica declamada por um menestrel das telas: o Jap√£o antigo corre para n√£o ser destru√≠do, para preservar seus valores culturais, seguido pela gera√ß√£o que foi moldada pela ocidentaliza√ß√£o mas que n√£o quer perder o Jap√£o antigo. A gera√ß√£o ocupada com o trabalho, sem tempo, agora abandona tudo para correr atr√°s do que nunca tivera tempo para cultivar. O Jap√£o antigo avan√ßa fragilizado, com dificuldade, por√©m vivo e resoluto com for√ßa para fazer seguidores. Permeando o Jap√£o do passado, do presente e do futuro, como a uni-los sob uma √ļnica onda que lhes d√° significado, a chuva torrencial a lavar ressentimentos, a aguar uma nova realidade na expectativa do nascimento de um novo amanh√£. Com o esgar√ßar da prote√ß√£o, agora o Jap√£o se entrega plenamente √† for√ßa da onda renovadora.

A inocência foi descoberta; uma incessante fascinação.


Use as estrelas abaixo para dar uma nota a este artigo:
1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (Este artigo ainda n√£o foi avaliado)


Imprima uma vers√£o mais simples deste artigo.
Gostou? Recomende este artigo por email. Gostou? Recomende este artigo por email.

Por enquanto, nenhum comentário. Comente.


jet horizontal

ago 28 2013

Xintoismo: mitologia e sua influência na formação da cultura e do caráter do povo japonês

A concep√ß√£o do xinto√≠smo para o japon√™s era de si t√£o natural, gen√©rica e vasta, que at√© a chegada do budismo no s√©culo VI, n√£o tinha nome especificado. Quando se acharam diante de uma religi√£o estrangeira, denominaram a nativa de Kannagara no michi [1] ou Xint√ī, que significa caminho dos deuses. √Č dif√≠cil saber exatamente o que era o xinto√≠smo antes da chegada do budismo. N√£o era apenas a √ļnica religi√£o; era o √ļnico modo como os antigos japoneses se relacionavam com o mundo, pois acreditavam profundamente que os deuses, os homens e a Natureza s√£o nascidos dos mesmos ancestrais: n√£o havia separa√ß√£o conceitual entre a Natureza e o homem. “N√£o havia denomina√ß√£o para a Natureza, como algo apartado e distinto do homem, algo que pudesse ser contemplado pelo homem” (Sakamaki Shunzo in MOORE, 1975, p. 24). Ou seja, n√£o havia distin√ß√£o entre sujeito e objeto, observador e observado. O homem era apenas parte de um todo, “intimamente associado e identificado com os elementos e as for√ßas do mundo em seu redor” (idem). Fato que se nota pela import√Ęncia das principais divindades, entre as milhares, associadas aos principais fen√īmenos da natureza: o nascimento, o crescimento, as transforma√ß√Ķes e a morte (ibidem, p. 25). Essa estreita proximidade com a Natureza e elementos de seu entorno constitui-se na principal caracter√≠stica do Xint√ī (HERBERT, 1964, p. 17).

Sup√Ķe-se que o modo como viam o mundo[2] ‚Äúera uma forte concep√ß√£o intuitiva de uma profunda unidade subjacente, biol√≥gica e f√≠sica ao mesmo tempo, entre todos os homens (mortos, vivos e n√£o-nascidos), a Natureza e todas as entidades invis√≠veis ao homem, por√©m dignas de venera√ß√£o‚ÄĚ (HERBERT, 1977, p. 10). √Č, no dizer do professor Ono, “para os que veneram o kami, xint√ī √© o nome coletivo de todas as cren√ßas que compreendem a ideia do kami” (ONO, 1990, p. 3).

Relacionando as tr√™s mais antigas correntes de pensamento que est√£o na g√™nese do pensamento japon√™s, teria dito o pr√≠ncipe Shotoku , que difundiu o budismo no Jap√£o: ‚ÄúO Xinto√≠smo √© a raiz e o tronco de uma grande √°rvore robusta e transbordante em inesgot√°vel energia; o Confucionismo s√£o os galhos e as folhas e o Budismo s√£o as flores e frutos‚ÄĚ (HERBERT, 1977, p. 11).

Por dois ou mais milênios, junto com o budismo e o confucionismo, essa religião autóctone moldou o caráter desse povo.

Texto completo: xintoísmo

__________

[1] Pelo sistema Hepburn de transliteração para o alfabeto romano, adotado pelo Japão, pronuncia-se miti.

[2] Herbert o denomina Weltanschauung: Sf, -en 1 visão do mundo, cosmovisão, mundividência. 2 ideologia.


Use as estrelas abaixo para dar uma nota a este artigo:
1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (Este artigo ainda n√£o foi avaliado)


Imprima uma vers√£o mais simples deste artigo.
Gostou? Recomende este artigo por email. Gostou? Recomende este artigo por email.

Por enquanto, nenhum comentário. Comente.


jet horizontal

Pages: Prev 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 ... 120 121 122 Next

Pages: Prev 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 ... 120 121 122 Next