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fev 26 2008

A alma do povo japonês | Simbologia xintoísta

bandeira do japão

1. Bandeira Nacional: a divindade máxima do xintoísmo, Amaterasu, a deusa do Sol, ocupa o centro do pavilhão em forma de círculo vermelho sobre o fundo branco. Há a idéia da presença da deusa em ambientes, corpos e coisas puras. Corolário natural, estas cores têm forte apelo emocional. Há predominância da cor branca nos carros particulares; em duas ocasiões em que lá estive, eram brancos todos os táxis, com motoristas usando luvas brancas e assentos forrados por tecido branco. O cerimonial do seppuku (desventramento) é praticado com o suicida comum usando vestes brancas. A nobreza e os militares tinham a opção de se suicidarem com trajes identificativos de sua posição social. Quase todos os produtos de higiene, principalmente os de uso pessoal, têm o branco como cor predominante. O vermelho liga-se à idéia de proteção, bem-aventurança: há santuários nessa cor, contrastando com a sobriedade desses locais.

2. Água: nas cerimônias xintoístas é tida como o purificador natural, aquilo que nos livra do mal (impureza). Nos santuários há uma pia com água corrente provida de conchas de bambu onde os fiéis fazem seu ritual de purificação. Na época dos samurais, estes costumavam verter desta água sobre a lâmina da espada antes dos combates.

Na cultura nipônica o banho tem raízes mitológicas. Faz parte da cultura o significado religioso da limpeza do corpo: o Japão é possivelmente o país com maior número de banhos públicos. Em 1990, só na cidade de Tóquio havia 2600 casas de banho público*. Quando o japonês quer um tratamento de choque para buscar energia e equilíbrio, costuma meditar sob uma queda d’água, vestido de branco ou sumariamente despido.

3. Torii: as duas colunas representam as pontes celestiais pelas quais desceram os deuses Izanagi e Izanami ao reino de Izumo (Terra). As traves horizontais representam a Terra.

4. Patriarcalismo: o mito da iniciativa fracassada de Izanami certamente está presente no inconsciente deste povo. A sociedade é patriarcalista, valoriza-se a figura masculina: os salários dos homens são mais altos, as posições-chave nas empresas e no governo são ocupadas por homens. A precedência é masculina; a mulher anda sempre atrás do homem, nunca podendo lhe fazer sombra. Embora a ocidentalização tenha dado mais espaço à mulher, é ínfima a participação feminina em postos-chave de governo ou de empresas.

* Osvaldo Peralva – Um retrato do Japão ed 1991 pg 126


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fev 24 2008

A alma do povo japonês | Mitologia

izanagi e izanami

A cosmogonia japonesa é explicada pelo Shintoismo, ou Xintoismo, já aportuguesado, baseado nos mais antigos escritos japoneses, o Kojiki (relato de fatos antigos), do ano 712 e o Nishonshoki (relato de fatos do Japão) de 720.

Segundo a mitologia, o Caos foi separado em duas forças antagônicas, a exemplo do ying e yang do Taoísmo e nasceram cinco grandes divindades. Da divindade Amenotokatachi (eternamente deitado no céu) nascem entre outros deuses, por últimos, Izanagi (varão que atrai) e Izanami (varoa que atrai). Todos habitavam o paraíso celestial de Takaamahara.

Designados pelos irmãos mais velhos a povoar o reino de Izumo (Terra), os deuses Izanagi e Izanami constroem uma ponte celestial e descem à Terra. Izanagi agita com sua lança flamejante as águas do oceano e de seus pingos de fogo se formam as ilhas do Japão. Na ilha de Onogoro constróem o augusto mastro e contornando-o, o homem pelo lado esquerdo e a mulher pelo direito, unem-se como homem e mulher. Porém, tendo Izanami tomado a iniciativa, a união não resultou em boas crias e refizeram a união, cabendo dessa vez a iniciativa ao homem. Talvez por isso encontramos entre os costumes japoneses a representação e a prevalência do lado esquerdo como masculino e o direito como feminino.

Nas proximidades do templo de Ise, há dois rochedos no mar ligados por uma corda de palha trançada, simbolizando a união dos deuses Izanagi e Izanami. Anualmente é trocada em cerimônia realizada no mês de janeiro.

Deste casamento nascem dez deuses, porém no último parto, o do deus do fogo, Izanami morre e desce ao reino dos mortos. Izanagi não se conformando vai buscá-la e lhe é pedido que espere. Impaciente, Izanagi busca pela amada, e ao encontrá-la abraça-a e pede que volte para o reino dos vivos; porém, Izanami, já tendo se alimentado da comida dos mortos, ao ser abraçada por Izanagi começa a desfazer-se. Seu corpo e suas vestes se putrefazem e dos restos de sua roupa surgem demônios de fogo que juntos com Izanami enfurecida perseguem Izanagi. Na fuga, desesperado, Izanagi atira três pêssegos aos demônios e enquanto estes os comem, ele consegue escapar e fechar o reino dos mortos atrás de si, mas ouve a maldição de Izanami: “irei ao seu mundo todos os dias e trarei mil almas para o meu reino”, ao que responde Izanagi: “e eu farei com que nasçam 1500 descendentes meus por dia”.

Esta maldição habita, no que Carl Jung chama de inconsciente coletivo, corporificada sempre pela mulher, ao representar o ser terrificante do mundo dos mortos. O homem é sempre a vítima aterrorizada.

Izanagi ao chegar ao reino dos vivos com as vestes esfarrapadas e putrefatas vai banhar-se num rio. Atribui-se a este fato o grande apreço do hábito do banho e a utilização da água em rituais de purificação xintoístas.

Neste ato, de seu olho esquerdo nasce Amaterasu, a deusa do sol, de seu olho direito, Tsukuyomi, a deusa da lua, e de seu nariz, nasce Susanowo, o deus dos mares.

É designado o Takaamahara como habitação de Amaterasu, mas não se conformando com o reino dos mares, Susanowo vai de vez em quando ao Takaamahara e faz algumas maldades à irmã, como destruir os diques da plantação de arroz. Quando Susanowo atira um cavalo escanhoado no quarto da irmã, esta se retira para uma caverna e o universo mergulha na mais completa escuridão.

Os deuses encarregam Omoikane-no-kami para trazer Amaterasu de volta. Este manda fazer um espelho místico e junto com um colar de pedras preciosas os põe no alto de um pinheiro na entrada da caverna, dispondo na base, oferendas. E ordena que todos dancem e cantem. Curiosa, Amaterasu espia levemente e vê outra deusa a reinar onde antes reinava soberana. Enciumada, ela sai e os deuses rapidamente fecham a caverna e ali põem um Shimenawa, uma corda de palha trançada, e o mundo volta a ter o brilho do sol.

Nos santuários xintoístas o Shimenawa indica proteção de lugares sagrados, usado para espantar maus espíritos. Em realidade, segundo o xintoísmo, como bem e mal convivem em qualquer pessoa, mau espírito significa nosso próprio espírito quando tomado de inclinações inferiores, como a da deusa Amaterasu. Pode-se então inferir do episódio não apenas a proteção de lugares sagrados, mas também a advertência de não se invadir lugares proibidos. De fato, constitui tabu corrente para o japonês a invasão do mundo dos mortos assim como a profanação do que existe de mais sagrado para o xintoísmo e o povo: os três tesouros guardados no templo de Ise, segundo a mitologia: a espada, o colar de pedras e o espelho.

Os deuses decidem proibir então a entrada de Susanowo no céu enviando-o definitivamente para a Terra. Aqui ele encontra um casal de velhinhos chorando porque o monstro de oito cabeças, um grande dragão chamado Yamata-no-orochi já havia comido sete de suas oito filhas e viria buscar a última. Susanowo então providencia oito barris de saquê e o monstro, ao mergulhar as cabeças nos barris, tem-nas decepadas por Susanowo. E ao decepar também a cauda do monstro, quebra sua espada, mas aí encontra nova espada reluzente. A moça, de nome Kushinada, casa-se então com Susanowo e tem muitos filhos.

Passado algum tempo, Amaterasu envia seu neto, o deus Ninigi, e comitiva à Terra para saber do comportamento do irmão. Este se desculpa e manda de presente a ela a espada que tirara da cauda do dragão. A deusa, ao saber da redenção de Susanowo, devolve-lhe a espada e junto envia-lhe também o colar e o espelho para que fiquem definitivamente em poder do irmão. Ao entregar o espelho diz ao deus Ninigi: “quando você quiser falar comigo, olhe no espelho; ali estarei eu”.

Ninigi casa-se então com uma das descendentes de Susanowo, dando à luz três filhos, um dos quais, de nome Yamasachihiko casa-se com a filha do deus do mar, Toyotamahime, dando à luz, Kamu Yamato no Iware-hiko, mais tarde conhecido como Jinmu Tennô, o primeiro imperador, fundando o país no dia 11 de fevereiro de 660 AC.

Segundo a mitologia, os tesouros simbolizando a origem do povo japonês significam: a espada, a bravura; o espelho, o conhecimento e o colar de pedras, a caridade. Dos três tesouros, o espelho ao simbolizar o conhecimento, parece conter a mais rica e influente mensagem mitológica ao povo japonês da deusa Amaterasu: por sua fraqueza o universo ficou na escuridão; a luz só voltou quando o ciúme foi ludibriado pelo espelho. Este cumpre, a meu ver, o papel de redentor da fraqueza humana. Uma clara advertência do perigo a que nos expomos quando permitimos que sentimentos inferiores se assenhoreiem de nossa alma.

Os santuários xintoístas são desprovidos de objetos de adoração, mas na sua parte principal, há um espelho, diante do qual se faz a veneração. “Tipifica o coração humano que quando perfeitamente plácido e claro, reflete a própria imagem da Divindade”, explica Inazo Nitobe³, sem deixar também de se referir aos dizeres do oráculo de Delfos, que contêm idêntica mensagem: “conheça-se a si mesmo”.

Referência: 3 autor cit. Bushido – A alma de samurai pg 16


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