ago 28 2013

Xintoismo: mitologia e sua influência na formação da cultura e do caráter do povo japonês

A concepção do xintoísmo para o japonês era de si tão natural, genérica e vasta, que até a chegada do budismo no século VI, não tinha nome especificado. Quando se acharam diante de uma religião estrangeira, denominaram a nativa de Kannagara no michi [1] ou Xintô, que significa caminho dos deuses. É difícil saber exatamente o que era o xintoísmo antes da chegada do budismo. Não era apenas a única religião; era o único modo como os antigos japoneses se relacionavam com o mundo, pois acreditavam profundamente que os deuses, os homens e a Natureza são nascidos dos mesmos ancestrais: não havia separação conceitual entre a Natureza e o homem. “Não havia denominação para a Natureza, como algo apartado e distinto do homem, algo que pudesse ser contemplado pelo homem” (Sakamaki Shunzo in MOORE, 1975, p. 24). Ou seja, não havia distinção entre sujeito e objeto, observador e observado. O homem era apenas parte de um todo, “intimamente associado e identificado com os elementos e as forças do mundo em seu redor” (idem). Fato que se nota pela importância das principais divindades, entre as milhares, associadas aos principais fenômenos da natureza: o nascimento, o crescimento, as transformações e a morte (ibidem, p. 25). Essa estreita proximidade com a Natureza e elementos de seu entorno constitui-se na principal característica do Xintô (HERBERT, 1964, p. 17).

Supõe-se que o modo como viam o mundo[2] “era uma forte concepção intuitiva de uma profunda unidade subjacente, biológica e física ao mesmo tempo, entre todos os homens (mortos, vivos e não-nascidos), a Natureza e todas as entidades invisíveis ao homem, porém dignas de veneração” (HERBERT, 1977, p. 10). É, no dizer do professor Ono, “para os que veneram o kami, xintô é o nome coletivo de todas as crenças que compreendem a ideia do kami” (ONO, 1990, p. 3).

Relacionando as três mais antigas correntes de pensamento que estão na gênese do pensamento japonês, teria dito o príncipe Shotoku , que difundiu o budismo no Japão: “O Xintoísmo é a raiz e o tronco de uma grande árvore robusta e transbordante em inesgotável energia; o Confucionismo são os galhos e as folhas e o Budismo são as flores e frutos” (HERBERT, 1977, p. 11).

Por dois ou mais milênios, junto com o budismo e o confucionismo, essa religião autóctone moldou o caráter desse povo.

Texto completo: xintoísmo

__________

[1] Pelo sistema Hepburn de transliteração para o alfabeto romano, adotado pelo Japão, pronuncia-se miti.

[2] Herbert o denomina Weltanschauung: Sf, -en 1 visão do mundo, cosmovisão, mundividência. 2 ideologia.


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jan 02 2011

Oshougatsu (お正月): o ano novo japonês

O ano novo japonês – oshougatsu (お正月) –  é celebrado no dia 01 de janeiro. A data, antes de 1873, era comemorada juntamente com os coreanos, chineses e vietnamitas, pois  baseava-se no calendário lunar chinês. Cinco anos após a reforma Meiji, o Japão adotou o calendário gregoriano, passando a comemorar o ano novo em janeiro.

A data é considerada sagrada pelos japoneses, no qual rituais de purificação e orações são feitas para um bom início do ano que se inicia.

Na preparação para a data, os japoneses têm o costume de limpar suas residências – osouji – para adentrar purificado no ano que se aproxima. Este ritual estende-se aos ambientes de trabalho, no qual funcionários são convocados para limpar a empresa.

São alguns costumes relacionados à data: joya no kane (除夜の鐘), as 108 badaladas dos sinos nos templos japoneses; osechi-ryori (御節料理 ou お節料理), a refeição do ano novo; kagamimochi ((鏡餅), decoração com mochis que são postos em um altar como forma de agradecimento aos deuses budistas e xintoístas; hatsumode (初詣), a primeira visita aos templos; hatsuhinode (初日の出), o primeiro nascer do Sol; heisoku, dobradura em papel washi que simboliza boa sorte e a proteção das casas contra o mal; e kadomatsu (門松), arranjo feito de bambus e folhas de matsu que simbolizam longevidade e alegria.

Joya no kane (除夜の鐘)

Na noite do dia 31 de dezembro é possível ouvir as 108 badaladas dos sinos nos templos japoneses, ritual conhecido como joya no kane (除夜の鐘), relembrando aos japoneses dos 108 pecados do ser humano, de acordo com o budismo. O ritual atrai  não somente os budistas pois simboliza purificação e o ato de saudar o novo ano.

Osechi-ryori (御節料理 ou お節料理)

A refeição do ano novo é conhecida como osechi-ryori (御節料理 ou お節料理) que, dentre diversos pratos – como o kombu (alga), kamaboko (bolinho de peixe), etc. – tem-se a tradição de consumir toshikoshi-soba no último dia do ano. O toshikoshi soba (macarrão da passagem do ano) é um tipo de macarrão feito com trigo sarraceno que, por ser comprido e fino – lembrando barba e cabelos brancos de deuses de longa vida -, o prato simboliza longevidade.

O ozoni (お雑煮) é um prato muito popular no ano novo que simboliza sorte e graça dos deuses durante o ano àquele que o consome. Consiste em uma sopa com mochi (餅), dentre outros ingredientes que variam de acordo com a região do Japão.

Outra tradição é o otosô (saquê doce) que começa a ser servido pela manhã. De acordo com os antigos, o vinho de arroz japonês traz saúde e vida longa.

Kagamimochi ((鏡餅)

O kagamimochi ((鏡餅) consiste em dois mochis (餅) – bolinhos de arroz -, dispostos um sobre o outro e decorados com papel japonês, folha de matsu (semelhante a de pinheiro) e  daidai (橙 – laranja nipônica). A decoração é posta sobre um altar como agradecimento aos deuses budistas e xintoístas, principalmente Toshigami, o deus que, de acordo com a lenda, costuma visitar as residências no ano novo.

Hatsumode (初詣)

O hatsumode (初詣) é a primeira visita ao templo. Após a meia-noite do dia 01 de janeiro, os japoneses vão aos templos para fazer orações por saúde e felicidade no novo ano. Geralmente, desejos para o novo ano são feitos, novos omamoris (amuletos) são comprados e os antigos, queimados.

Hatsuhinode (初日の出)

O hatsuhinode (初日の出) é o primeiro nascer do Sol, isto porque, de acordo com a religião xintoísta, o Sol é o deus mais importante do Universo. Neste dia, muitas pessoas se reúnem em locais onde o nascer do sol é conhecido por ser bonito, como praias e montanhas, para celebrar a chegada do novo ano com preces para uma boa saúde durante o ano.

Heisoku

O heisoku é uma dobradura sem corte confeccionada em washi (papel japonês), que simboliza a boa sorte e a proteção das casas contra o mal. O amuleto é dedicado para a deusa Amaterasu – deusa do sol que vela sobre os homens e os enche de benefícios -, que deve ser feito pelo chefe da casa, ou pelo primogênito, nunca por uma mulher, pois pode causar ciúmes na deusa.

Kadomatsu (門松)

O kadomatsu (門松) é um arranjo composto por bambus e folhas de matsu, que simboliza a longevidade e a alegria. São colocados aos pares na frente das casas japonesas, ou em outros lugares estratégicos, a fim de atrair o deus da colheita. São dispostos depois do Natal até o dia 07 de janeiro, e são considerados lares temporários de deuses.

O propósito das cerimônias de ano novo é honrar e receber o toshigami (divindade), que então trará boa colheita aos agricultores e conceder bençãos aos antepassados.

Após o dia 15 de janeiro, o kadomatsu é queimado para apaziguar os deuses, ou toshigami, e libertá-los.


Complementos:

Receita do ozoniem inglês!

Receita do toshikoshi-soba

Fontes:

Ajinomoto

Made in Japan

Sashimi Secret

Wikipedia: Japanese new year

Wikipedia: Kadomatsu


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