jun 19 2008

100 anos de imigração | Takashi Chonan e a trajetória do alho no Brasil

http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL445288-9980,00.html

Corria o ano de 1977. Não me lembro do mês. Mas o vento fresco e ameno que soprava me faz acreditar que já estivéssemos em princípios do segundo semestre. Talvez não. O clima naquela região costuma ser assim mesmo, com aquele permanente ar outonal.
Fui convidado por amigos do Ceagesp de São Paulo, parceiros de plantadores de tomate da região, para uma churrascada em Curitibanos – comemoração da boa safra que haviam colhido naquele ano.
Da cidade até o local, apenas estrada de terra e mato dos dois lados. Às primeiras horas da manhã, as folhas à beira da estrada, cobertas de grossa poeira, ainda se apresentavam úmidas de orvalho. Raras habitações se avistavam. Passamos por um cemitério à beira da estrada, pequeno, quase um terreno urbano, cercado com arame farpado e mourões de madeira. Apenas  algumas flores murchas, espalhadas ao lado das indefectíveis flores plásticas – já desbotadas pelo tempo – ao pé de cruzes de madeira, anunciavam a finalidade daquele pedaço de chão. De vez em quando, a poeira que se avistava por trás das colinas ou do mato, anunciava veículo em movimento.

À moda gaúcha, com o braseiro numa valeta cavada no chão, o churrasco começou cedo. Todos conversavam animados, copos na mão, planejando o próximo plantio. Quase todos. Um e apenas um estava em cima do trator lavrando a terra. Perguntei quem era.
-“Esse é o Takashi Chonan que desenvolveu uma nova variedade de alho. Vc já ouviu falar do Alho Chonan?”, respondeu-me, perguntando ao final, meu amigo paulista. Já tinha ouvido falar, mas por estar distante do meio, minha avaliação nunca seria precisa. A real dimensão da importância econômica pudemos aquilatar assistindo ao documentário “A Terra do Sol Nascente em Solo Catarinense”, quando se revela que apenas o plantio desta variedade de alho deu 5000 empregos à população de Curitibanos. Hoje metade dos cultivares de alho do Brasil, que chega a plantar 12 mil hectares, teve origem na variedade Chonan.
O imigrante Takashi Chonan, àquela época, por necessidade financeira, certamente não precisava trabalhar. Para o japonês Takashi Chonan o trabalho parece estar no DNA,  trabalhava por necessidade psicológica; mas para o homem Takashi Chonan, trabalhar certamente significa se dedicar para levar o desenvolvimento à sua região, ao país que o acolheu, e conseqüentemente,   melhorar a vida ao seu redor. É se dedicar ao próximo. É amar o ser humano.
Chonan ajudou a implantar a colônia japonesa do Distrito de Frei Rogério.
Conseguiu visitar  sua terra natal após 21 anos de Brasil e recusou convite para permanecer no Japão. Quis voltar para o Brasil.
O município de Frei Rogério, sua região, foi distrito de Curitibanos até 20 de julho de 1995. Com a emancipação, Takashi Chonan foi seu primeiro prefeito.

É gente que ajudou a escrever a história dos imigrantes japoneses, com as tintas do suor, em páginas de exemplos edificantes, na História de Santa Catarina e do Brasil.


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jun 04 2008

Pequeno histórico da imigração japonesa no Brasil | Caminhos dos imigrantes

http://japao100.abril.com.br/perfil/183/galeria/

Foto de 1936. Minha sogra, Etsuko Yagura com seus pais, Tomie e Satoshi Ijichi com o filho Shinnichi no colo. À esquerda, residência da família. Patrimônio União – Pereira Barreto-SP 

Depois de algum tempo, muitos retornaram ao Japão, desiludidos.

Para muitos outros, a maioria, a pobreza e os poucos ganhos, desfizeram as esperanças de retorno. Para estes, o tempo, aos poucos, parece ter enfraquecido as lembranças dos dias amargos e amainado o sofrimento, mas no instante seguinte, quando parecia ainda sonhar com o Japão, o imigrante viu seus filhos lavrando a terra, produzindo riquezas, estudando nas universidades, trabalhando nas cidades, casando-se com gente daqui. E viu as raízes de sua descendência fincadas em terras brasileiras. O Japão ficava cada vez mais distante, esmaecido pela ação deletéria do tempo; vivo, porém, nos cinemas mensais assistidos no kaikan (associação) feita de tábuas, nos undo-kai (gincana esportiva familiar) anuais, nos enguei-kai (festival cultural), nos jogos de beisebol, nas cerimônias do oshogatsu (Ano Novo), quando toda a comunidade tinha a oportunidade de se confraternizar mantendo vivas a cultura e a lembrança da terra natal.

Hoje, são decorridos mais de longos cem anos desses episódios. Foi uma saga. Uma conquista do oeste, um desbravamento de terras novas.

O Brasil abriga hoje o maior contingente de japoneses e descendentes fora do Japão. E 270 mil brasileiros fizeram o caminho inverso de seus ancestrais, indo trabalhar no Japão. Lá residem, trabalham ou estudam. Muitos casaram com nativos, se niponizaram, como os japoneses e descendentes que aqui se abrasileiraram.

Nosso país se enriqueceu ao aprender as artes nipônicas, ao conhecer a alma, a filosofia, a disciplina, o amor ao trabalho e a espiritualidade desse povo. O judô deu destaque ao Brasil nas Olimpíadas e não são poucos os brasileiros que cultuam as artes do ikebana (arranjo de flores), cerimônia do chá ou estão familiarizados com os pratos da gastronomia japonesa.

Os japoneses vieram para plantar café, mas seu melhor plantio foi a milenar cultura que enriqueceu a alma do brasileiro: rica, detalhista, espiritualizada, profundamente ética, tênue, refinada e ao mesmo tempo densa e marcante.

Aqui eles encontraram um país de terras fartas e férteis, sob clima propício para plantar e produzir riquezas. E hoje, o Brasil colhe e cultiva com vivo interesse as múltiplas faces da sua cultura, fortemente moldada na inabalável fé na excelência do ser humano.

Embora o livro de Aluísio tenha sido publicado tardiamente − depreende-se-lhe interesse antes mesmo de vir a lume, segundo o comentarista do livro: “Dia a dia o livro ia sendo conhecido e sabido por todo o mundo sem que fosse impresso e lido. Um livro esgotado e inédito.” meu coração de brasileiro é seduzido pela idéia de ter sido a densidade literária deste escritor, fator importante na desconstrução da estereotipia de “elemento étnico inferior” do povo nipônico (Luiz Dantas in AZEVEDO, 1984, p. 14).

A mim, me encanta e me embevece supor que o Japão, em comentários pessoais e na brilhante pena do insigne brasileiro, tenha sido descrito em sua real dimensão cultural e com isso, tenha influenciado os homens do nosso governo, possibilitando assim, a vinda do povo dos meus ancestrais para, com os brasileiros, ombrearem-se na construção da riqueza cultural, espiritual e econômica do nosso Brasil.

texto integral: pequeno histórico da imigração

 

Bibliografia

AZEVEDO, Aluisio. O Japão. Roswitha Kempf: São Paulo, 1984.

BUENO, Eduardo. História do Brasil. Empresa Folha da Manhã S. A: São Paulo, 1997

HARO, Martim Afonso P. de (org). Ilha de Santa Catarina – Relato de viajantes estrangeiros nos séculos XVIII e XIX. UFSC: Florianópolis, 1996.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE CULTURA JAPONESA. Uma Epopeia Moderna. Hucitec: São Paulo, 1992.

VICENTINO, Cláudio e DORIGO Gianpaolo. História para o ensino médio. Scipione: São Paulo, 2002.

 


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