ago 24 2008

Fontes ideológicas das artes marciais japonesas

http://www.flickr.com/photos/kamaski/110898891/sizes/o/

O Japão sempre foi fiel aluno e profundo admirador da cultura da China e da Coréia. Importou da China o budismo, o confucionismo, as artes, a escrita, o sistema político, instrumentos musicais, usos e costumes. Os coreanos ensinaram a arte da fundição, da arquitetura, da carpintaria e incentivados pelo príncipe Shotoku, a escrita chinesa kanji foi ensinada pelo mestre coreano Wang-I aos iletrados japoneses do século VI, como instrumento necessário para o aprendizado do budismo. Discípulo aplicado, o japonês entendeu a natureza da sua alma e o conforto espiritual que lhe proporcionava a doutrina que falava da salvação pela iluminação, ou seja, pelo conhecimento. Mais ainda, moldou sua personalidade, sua cultura, seu modo de falar, de se relacionar com as pessoas pelos cânones budistas. Não há no budismo nenhum mandamento. Nada obrigatório, nada mandatório, nada no imperativo. Não há nem mesmo Deus ou deuses. Há apenas caminhos apontados. Buda, que significa apenas “O Iluminado”, dizia que o caminho natural de todo ser humano é atingir o estado de Buda. E para isso, apontava caminhos, mas nunca obrigou ninguém a trilhá-los, nunca sequer disse que o que pregava era uma religião. Dizia apenas que a salvação do homem só se dá pela compreensão das quatro nobres verdades, segundo a tradição Theravada.

  1. “A vida é cheia de sofrimento;
  2. O sofrimento provém da ânsia;
  3. O sofrimento pode terminar se se eliminar a ânsia;
  4. O meio de atingir a paz interior (nirvana) é através das oito vias sagradas” .

As oito vias sagradas são ditas a senda óctupla dos três treinamentos superiores: Sabedoria, Ética e Meditação.

Derivada do budismo, a tônica do zen-budismo é a integração com o todo pelo fazer e pela meditação. A ação existe como recurso para esvaziamento da mente. Não se fala, não se pensa, faz-se o mais perfeito porque o corpo é apenas expressão da alma. Ao falar e ao pensar, estamos conscientes, ocupando portanto, parcela muito pequena das nossas mentes grandemente mergulhadas no insondável inconsciente. No gesto e na ação perfeitas, fora do consciente, revela-se a perfeição do inconsciente, a perfeição da alma.

O xintoísmo é a religião primitiva do Japão. Nasceu da relação do homem com a Natureza, seus sentimentos, crenças e superstições, por isso, é animista e panteísta. Tudo é dotado de alma, há divindades para tudo: florestas, águas, rios, mares, árvores, pedras, entes falecidos etc. Assim, o nipônico primitivo tornou sagrados os elementos que amava e respeitava. Dentre todos os elementos da Natureza, o ser humano é o único ser passível de veneração, porque nasce de deuses celestiais. Nos lares, o japonês venera seus ancestrais num pequeno santuário de madeira, oferecendo-lhes água e a primeira porção da comida. Contrariamente ao budismo, não há ensinamentos no xintoísmo, apenas uma mitologia escrita em 712 no Kojiki (Relato de coisas antigas) e em 720 no Nihonshoki (Crônicas do Japão). Há inúmeras divindades, mas nenhuma necessidade de igreja ou templo.  Antigamente os japoneses cercavam um pedaço do terreno com a corda de palha trançada (shimenawa) e ali celebravam suas cerimônias xintoístas. O visitante que quiser reverenciar a divindade máxima no altar de um santuário xintoísta, será levado pelo sacerdote ao altar onde há apenas um espelho. “Tipifica o coração humano que quando perfeitamente plácido e claro reflete a própria imagem da Divindade”, explica Inazo Nitobe.  Não se pode ensinar o xintoísmo porque não há o que ensinar: nem doutrina, nem mandamento, apenas a mitologia narrando a origem do arquipélago e do povo japonês. Só se aprende o xintoísmo pela convivência e pelo exemplo, afirma Yunagita Kunio, um dos maiores estudiosos da cultura japonesa.

Do sábio chinês Confúcio (Kung Fon Tzeu) o japonês aprendeu a ética social, o respeito à hierarquia familiar e à da sociedade. Confúcio ocupava-se unicamente do presente; nada ensinava da vida além-morte. Em comum com o budismo, o confucionismo prega a sabedoria e a benevolência, além da justiça, honestidade e sentido da propriedade.

Toda arte japonesa ao harmonizar corpo, mente e espírito, reflete os princípios religiosos expostos. Não há a perfeição como objetivo a ser atingido. A concepção de perfeição é zen-budista: está no buscar, no caminhar, por isso, grande parte das artes japonesas, têm a finalização dô (caminho). Shodô é o caminho da escrita, kadô, o caminho das flores ou dos arranjos florais também conhecido como ikebana, kadô, com outro kanji para “ka” significando poesia, é o caminho da poesia ou a arte do poeta, butsudô, o caminho dos ensinamentos budistas, sadô ou chadô, o caminho do chá ou a arte da cerimônia do chá, kendô, o caminho da espada, judô, caminho suave ou caminho da luta suave, karatê-dô, caminho da arte marcial de mãos vazias. Mesmo que se repute perfeita a arte, o mestre se considera apenas no caminho porque cada execução é única, irrepetível, irretocável, produto do estado de alma naquele exato instante. E executa-se porque o enlevo da alma é também único para cada instante. A cultura japonesa considera natural trilhar o caminho do aprimoramento da alma. A arte é apenas um dos meios para isso.

O xintoísmo moldou as artes ensinando o respeito e a necessidade de convivência com o próximo para nosso aperfeiçoamento como homens. Para os praticantes das artes marciais japonesas, o local de treinamento, é como no xintoísmo, terreno sagrado, merecedor de respeito e reverência. É local de aprendizado e elevação espiritual, para o que as lutas são meros instrumentos, por isso, é muito natural que lutadores de judô, sumô, kendô ou outra arte marcial reverenciem o local da prática e o  adversário, antes e depois da luta. Natural também que as regras éticas tenham moldado as regras esportivas, surgidas depois.

Produto cultural dessa ideologia, tudo ligado ao conhecimento e àquilo que nos aprimora, é respeitado e venerado: as escolas, os livros, os professores, os santuários, os templos, a prática de qualquer arte que eleve, instigue nossa sensibilidade estética, como na poesia ou pintura, ou dê paz espiritual ao homem, como na arte do bonsai ou da cerimônia do chá. Os professores ou aqueles que ensinam gozam de alta reputação social. Sensei (professor), além de ser pronome de tratamento para quem ensina, é  pronome altamente respeitoso, equivalente a doutor para nós, brasileiros.

Referências:
Michiko Yusa – Religiões do Japão – pag 31 – ed 2002 – Edições 70 – Lisboa – Portugal
Para saber mais:  D. T. Suzuki  e Erich Fromm – Zen-budismo e Psicanálise
Para saber mais: op cit Michiko Yusa e Xintoismo e Edmond Rochedieu – Editorial Verbo ed 1982 Lisboa/Portugal
Inazo Nitobe – Bushidô – a alma de samurai –  ed pag 16
apud in  Benedito Ferri de Barros – Japão – harmonia dos contrários – ed 1988 – pag 129


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jul 22 2008

100 anos de imigra̤̣o | O imigrante e sensei de jud̫ Sukeji Shibayama РIII

sensei-sukeji-shibayama

Agora pai, levei meus filhos para treinar judô na mesma academia.
Sensei me recebeu com alegria. Contou-me a história da academia desde que eu havia me ausentado. Enquanto as crianças treinavam, conversávamos. Quase sempre assuntos filosóficos, o de que mais gostava e a sua estreita relação com o judô.

Foi aluno de Kyuzo Mifune, considerado o melhor aluno de Jigoro Kano, fundador do judô. Ao abrir as portas para o ocidente a partir da Reforma Meiji em 1868, o Japão recebeu inúmeros estrangeiros que vieram para negociar ou lecionar nas universidades japonesas, então ignorantes nos conhecimentos ocidentais. Norte-americanos se interessaram pela nova arte marcial que estava surgindo e convidaram Jigoro Kano para ensinar judô nos EUA. O fundador enviou então Mifune e mais um aluno. Mas, chegando lá, despertaram pouca atenção. O tempo foi passando e o dinheiro acabando. Mas quando acabava, o aluno sempre aparecia com algum. Curioso, um dia Mifune foi ver onde o aluno conseguia dinheiro. O rapaz participava de lutas de rua em que se oferecia dinheiro ao vencedor.

Mifune resolveu que aquele não era o método adequado à sua missão e não era certamente a vontade do sensei Jigoro. Fez então um desafio. Acendeu dez velas e desafiou os presentes a apagá-las com um só movimento sem tocar nelas. Ninguém conseguia. Ao final, Mifune, pequeno e magro para os padrões norte-americanos, descalço, apagava todas com um único movimento de um pé. No judô, este golpe chama-se ashibarai (varrer com os pés). É fato que não consta nos livros da História do Judô. Foi contada pelo mestre Mifune ao seu aluno Shibayama e este o contou para mim. Engraçada e folclórica, mas foi como o judô entrou nos EUA.

Quando ia assistir aos treinos, quase sempre pedia, ao final, que eu subisse no tatami para traduzir aos judocas sua pequena preleção. Sensei era inteligente. Havia se diplomado em língua chinesa numa faculdade do Japão. Respeitoso, acho que me chamava mais em consideração à minha presença do que propriamente pela sua insuficiência com o idioma. Todos entendiam perfeitamente seu português. Me chamava de senhor e de  Kaneoya-sensei, à mim que não passei da faixa vermelha e não treinei mais que dois anos de judô.

Sensei Shibayama nos deixou em 4 de julho de 1999 aos 88 anos.

Havia deixado um único filho biológico, Américo, meu colega de ginásio, que faleceu antes dele. Mas deixou inúmeros filhos de Academia. Alguns não lutam mais judô, mas certamente se sentem felizes por haverem conhecido este grande mestre judoísta que nos deixou profundas lições de vida.

Quem foi judoca, nunca deixará de sê-lo. Sai-se do judô, mas o judô não sai de nós. Estou certo de que os ensinamentos do sensei Shibayama moldaram marcantemente o caráter de muitas crianças, jovens e adultos que hoje mostram a influência dos ensinamentos daquele sábio senhor em suas vidas. Centenas, talvez milhares de alunos passaram pela Academia nestes 50 anos de existência.

Estou certo de que os atuais mestres elevam o nome da Academia Kenshin ao formarem não apenas o atleta, mas o ser humano sob os ensinamentos do sensei Shibayama, calcados no respeito, amor, benevolência, disciplina e dedicação ao próximo. São pessoas que acreditam na excelência do ser humano e engrandecem o patrimônio espiritual do homem pela prática do judô.

À mim, sensei não ensinou apenas judô. O mais importante, ensinou-me como fazem os grandes mestres: sem palavras, pelo exemplo, mostrando-me seu amor e respeito ao próximo, aos discípulos e à academia.

Quando visito a Academia, vejo na parede seu retrato, sentado, olhar sereno, de faixa coral.
Como diria Drummond, ao final do poema Confidência do Itabirano, “mas como dói!”


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