mar 30 2011

Japão: tragédia e reconstrução I

Na tarde do dia 11 de março, exatamente às 14:46 h, 2:46 h para nós, brasileiros (horário de Brasília), o Japão sofreu o mais forte terremoto na sua história (8,9 graus de magnitude na escala Richter), desde que se iniciaram os registros sismológicos naquele país em fins do século XIX. Ao terremoto – ocorrido em alto-mar, a nordeste do arquipélago, 370 km de Tóquio – seguiram-se ondas de tsunami – a terrível onda que chegou ao continente com efeitos devastadores. Ao chegar, trazem do mar embarcações varrendo também o que encontram no litoral, depositando-as terra adentro, às vezes, quilômetros longe da praia. Ao se recolherem, levam para o mar mais do que trouxeram: casas, carros, pessoas, animais, árvores, barcos e qualquer objeto sujeito à força das águas. Os japoneses dizem temer mais o tsunami do que o terremoto.

A tragédia fez o Japão enterrar seus milhares de mortos às dezenas em valas comuns, assistidos apenas pelos soldados do Exército e alguns familiares. País onde a cremação é a tradição – processo insuficiente para solução em larga escala – foi também prejudicado pela falta de energia elétrica.

“O Japão tem mais de cem milhões de habitantes e não houve até agora nenhum saque” noticiaram a Bandeirantes, a Globo e a CNN. “Por aqui, veem-se vários homens do Exército no socorro às vítimas, mas todos eles trabalham desarmados”, noticiou também a CNN em outro dia.

E continua a imprensa estrangeira: os supermercados ficaram de prateleiras vazias vendendo tudo sem qualquer aumento; ao racionamento de compra de água decidido pelos comerciantes, houve quem levasse menos do que o permitido, alegando que poderia fazer falta a outro; no racionamento de gasolina, houve postos que encerraram as vendas a particulares e destinaram o combustível restante para ambulâncias e veículos de resgate.  Nada disso foi notícia na TV local. A imprensa estrangeira parece não acreditar na aparente calma dos japoneses.

A TV japonesa NHK no entanto, informa com outro foco: noticia num dia, grupo de colegiais que rumou no fim de semana em ônibus fretado para os locais afetados para ajudar na arrumação das casas – preferencialmente de idosos – desobstruindo passagens, fazendo o serviço de limpeza e arrumação mais pesado e num outro, crianças do primário levados pelos professores para massagear os ombros dos idosos nos abrigos; banhos públicos que franquearam a entrada para desabrigados; hotéis que disponibilizaram parte das vagas para socorro às vítimas; atletas e artistas que recolhem fundos nas ruas.

A natureza não é apenas agressiva, mas cruel com os japoneses: o arquipélago se situa no Círculo de Fogo do Pacífico, onde ocorrem 80% dos terremotos, na confluência de quatro placas tectônicas: da Plataforma do Pacífico, das Filipinas, da Euro-asiática e da Norte-americana, onde 54 vulcões estão ativos e sofrem 20% dos terremotos mais violentos do planeta. É também rota de vendavais e furacões vindos do sul e sudeste do Oceano Pacífico. Essas constantes manifestações de agressividade da natureza, que parece não desejar a ocupação do arquipélago pelo homem, parece ter incrustado na genética do povo japonês a natural ajuda ao próximo como requisito para sobrevivência de sua gente.

Sem petróleo, ouro, manganês, diamante ou qualquer outra riqueza mineral e sem terras agricultáveis suficientes para alimentar sua população – o arquipélago é apenas um amontoado de mais de 3 mil ilhas, 70% ocupados por florestas montanhescas  – o Japão tem apenas japoneses:  128 milhões que se espremem nos restantes 30%.

Diz-se no Japão, diante de qualquer catástrofe que atinja o país ou a comunidade – “faça o que você pode fazer”. “Do what you can do”. Sem a força enfática e auto-sugestiva do “yes, we can” (sim, nós podemos), slogan de campanha do norte-americano Barack Obama, o japonês, em meio à sua simples praticidade deseja apenas devolver à nação um país reconstruído. E todos trabalham para isso.

País que vivia numa estrutura feudal há pouco mais de cem anos, isolado do mundo,  modernizou-se rapidamente e adequou suas instituições integrando-se ao mundo moderno. Na última grande catástrofe, quando viu seu país –  já depauperado pela Segunda Guerra –  ser bombardeado por duas bombas atômicas, a nação se reergueu “fazendo o que cada um podia fazer pelo seu país” e, ajudado por outros países, em menos de 30 anos era a segunda potência econômica do mundo.

O episódio de 11 de março novamente exigirá desse povo, força, determinação e grande espírito de sacrifício. Como dizem os japoneses: “a situação é excepcional, por isso, exigirá também esforço excepcional”. E na visão de um observador brasileiro: ” a cultura desse povo reconstruirá o país”.

Uma vez mais com o apoio de vários países, aí incluída a força de trabalho de mais de 300 mil brasileiros que lá residem, nós, os brasileiros daqui, acreditamos e desejamos profundamente, que o Japão breve se reerga dos escombros.

Não apenas “Gambare, Nippon” (força, Japão), mas

Minna gambarou! (esforcemo-nos todos).


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ago 24 2008

Fontes ideológicas das artes marciais japonesas

http://www.flickr.com/photos/kamaski/110898891/sizes/o/

O Japão sempre foi fiel aluno e profundo admirador da cultura da China e da Coréia. Importou da China o budismo, o confucionismo, as artes, a escrita, o sistema político, instrumentos musicais, usos e costumes. Os coreanos ensinaram a arte da fundição, da arquitetura, da carpintaria e incentivados pelo príncipe Shotoku, a escrita chinesa kanji foi ensinada pelo mestre coreano Wang-I aos iletrados japoneses do século VI, como instrumento necessário para o aprendizado do budismo. Discípulo aplicado, o japonês entendeu a natureza da sua alma e o conforto espiritual que lhe proporcionava a doutrina que falava da salvação pela iluminação, ou seja, pelo conhecimento. Mais ainda, moldou sua personalidade, sua cultura, seu modo de falar, de se relacionar com as pessoas pelos cânones budistas. Não há no budismo nenhum mandamento. Nada obrigatório, nada mandatório, nada no imperativo. Não há nem mesmo Deus ou deuses. Há apenas caminhos apontados. Buda, que significa apenas “O Iluminado”, dizia que o caminho natural de todo ser humano é atingir o estado de Buda. E para isso, apontava caminhos, mas nunca obrigou ninguém a trilhá-los, nunca sequer disse que o que pregava era uma religião. Dizia apenas que a salvação do homem só se dá pela compreensão das quatro nobres verdades, segundo a tradição Theravada.

  1. “A vida é cheia de sofrimento;
  2. O sofrimento provém da ânsia;
  3. O sofrimento pode terminar se se eliminar a ânsia;
  4. O meio de atingir a paz interior (nirvana) é através das oito vias sagradas” .

As oito vias sagradas são ditas a senda óctupla dos três treinamentos superiores: Sabedoria, Ética e Meditação.

Derivada do budismo, a tônica do zen-budismo é a integração com o todo pelo fazer e pela meditação. A ação existe como recurso para esvaziamento da mente. Não se fala, não se pensa, faz-se o mais perfeito porque o corpo é apenas expressão da alma. Ao falar e ao pensar, estamos conscientes, ocupando portanto, parcela muito pequena das nossas mentes grandemente mergulhadas no insondável inconsciente. No gesto e na ação perfeitas, fora do consciente, revela-se a perfeição do inconsciente, a perfeição da alma.

O xintoísmo é a religião primitiva do Japão. Nasceu da relação do homem com a Natureza, seus sentimentos, crenças e superstições, por isso, é animista e panteísta. Tudo é dotado de alma, há divindades para tudo: florestas, águas, rios, mares, árvores, pedras, entes falecidos etc. Assim, o nipônico primitivo tornou sagrados os elementos que amava e respeitava. Dentre todos os elementos da Natureza, o ser humano é o único ser passível de veneração, porque nasce de deuses celestiais. Nos lares, o japonês venera seus ancestrais num pequeno santuário de madeira, oferecendo-lhes água e a primeira porção da comida. Contrariamente ao budismo, não há ensinamentos no xintoísmo, apenas uma mitologia escrita em 712 no Kojiki (Relato de coisas antigas) e em 720 no Nihonshoki (Crônicas do Japão). Há inúmeras divindades, mas nenhuma necessidade de igreja ou templo.  Antigamente os japoneses cercavam um pedaço do terreno com a corda de palha trançada (shimenawa) e ali celebravam suas cerimônias xintoístas. O visitante que quiser reverenciar a divindade máxima no altar de um santuário xintoísta, será levado pelo sacerdote ao altar onde há apenas um espelho. “Tipifica o coração humano que quando perfeitamente plácido e claro reflete a própria imagem da Divindade”, explica Inazo Nitobe.  Não se pode ensinar o xintoísmo porque não há o que ensinar: nem doutrina, nem mandamento, apenas a mitologia narrando a origem do arquipélago e do povo japonês. Só se aprende o xintoísmo pela convivência e pelo exemplo, afirma Yunagita Kunio, um dos maiores estudiosos da cultura japonesa.

Do sábio chinês Confúcio (Kung Fon Tzeu) o japonês aprendeu a ética social, o respeito à hierarquia familiar e à da sociedade. Confúcio ocupava-se unicamente do presente; nada ensinava da vida além-morte. Em comum com o budismo, o confucionismo prega a sabedoria e a benevolência, além da justiça, honestidade e sentido da propriedade.

Toda arte japonesa ao harmonizar corpo, mente e espírito, reflete os princípios religiosos expostos. Não há a perfeição como objetivo a ser atingido. A concepção de perfeição é zen-budista: está no buscar, no caminhar, por isso, grande parte das artes japonesas, têm a finalização dô (caminho). Shodô é o caminho da escrita, kadô, o caminho das flores ou dos arranjos florais também conhecido como ikebana, kadô, com outro kanji para “ka” significando poesia, é o caminho da poesia ou a arte do poeta, butsudô, o caminho dos ensinamentos budistas, sadô ou chadô, o caminho do chá ou a arte da cerimônia do chá, kendô, o caminho da espada, judô, caminho suave ou caminho da luta suave, karatê-dô, caminho da arte marcial de mãos vazias. Mesmo que se repute perfeita a arte, o mestre se considera apenas no caminho porque cada execução é única, irrepetível, irretocável, produto do estado de alma naquele exato instante. E executa-se porque o enlevo da alma é também único para cada instante. A cultura japonesa considera natural trilhar o caminho do aprimoramento da alma. A arte é apenas um dos meios para isso.

O xintoísmo moldou as artes ensinando o respeito e a necessidade de convivência com o próximo para nosso aperfeiçoamento como homens. Para os praticantes das artes marciais japonesas, o local de treinamento, é como no xintoísmo, terreno sagrado, merecedor de respeito e reverência. É local de aprendizado e elevação espiritual, para o que as lutas são meros instrumentos, por isso, é muito natural que lutadores de judô, sumô, kendô ou outra arte marcial reverenciem o local da prática e o  adversário, antes e depois da luta. Natural também que as regras éticas tenham moldado as regras esportivas, surgidas depois.

Produto cultural dessa ideologia, tudo ligado ao conhecimento e àquilo que nos aprimora, é respeitado e venerado: as escolas, os livros, os professores, os santuários, os templos, a prática de qualquer arte que eleve, instigue nossa sensibilidade estética, como na poesia ou pintura, ou dê paz espiritual ao homem, como na arte do bonsai ou da cerimônia do chá. Os professores ou aqueles que ensinam gozam de alta reputação social. Sensei (professor), além de ser pronome de tratamento para quem ensina, é  pronome altamente respeitoso, equivalente a doutor para nós, brasileiros.

Referências:
Michiko Yusa – Religiões do Japão – pag 31 – ed 2002 – Edições 70 – Lisboa – Portugal
Para saber mais:  D. T. Suzuki  e Erich Fromm – Zen-budismo e Psicanálise
Para saber mais: op cit Michiko Yusa e Xintoismo e Edmond Rochedieu – Editorial Verbo ed 1982 Lisboa/Portugal
Inazo Nitobe – Bushidô – a alma de samurai –  ed pag 16
apud in  Benedito Ferri de Barros – Japão – harmonia dos contrários – ed 1988 – pag 129


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