jun 23 2008

Sumi-ê [墨絵]: a arte do essencial

Publicado por em artes,cultura,japão

http://www.bugei.com.br

Derivado da caligrafia chinesa e originário dos templos budistas chineses durante a dinastia Sung (960 – 1274), o suiboku-ga chegou ao Japão no século XIV. Sob forte influência zen-budista evoluiu em território japonês para o sumi-ê. Assim como no zen-budismo, o momento da concepção é único, assim, não há dois desenhos iguais. E estes, por retratarem o vivo instante da alma naquele momento único, não comportam correção nem hesitação para não se ferir a pureza e a fidedignidade do estado de espírito revelado nos traços. Os traços devem revelar o wabi – pobreza pura que basta-se a si mesma – a mais perfeita imperfeição. Abandona-se a inteligência intelectual: só a devoção interna é essencial para a criação do natural e do belo. O espaço em branco, chamado “yohaku”, assinala o que não foi expresso. A perfeição completa-se, como no haicai, o que o pincel não delineou.

Diz Masao Okinaka:

“Os elementos básicos do sumi-ê são três: simplicidade, simbolização e naturalidade. O sumi-ê é uma arte subjetiva. A expressão livre que brota por meio da cor sumi e dos movimentos do pincel reflete com serenidade o caráter e a personalidade do autor, induzindo-o ao prazer das descobertas”.

Munidos do suzuri (recipiente para a preparação da tinta), fude (pincel feito com pêlo de ovelha ou texugo), kami (papel de arroz) e do sumi (tinta fabricada a partir da fuligem de plantas e cola), os artistas do sumi-ê pintam, especialmente o shikunshi (os 4 nobres), o que deixa bem claro a profunda ligação desta arte com a natureza. São eles:

  • A orquídea selvagem representa o verão, espírito jovem e é símbolo da graça e virtudes femininas. Esta flor cresce no local mais inspirador de todos, onde a montanha encontra a água.
  • O bambu representa o inverno e significa a simplicidade da vida e a humildade. O tronco simboliza a força e as virtudes do sexo masculino. As sub-divisões do tronco representam as etapas da vida. O centro oco remete ao vazio interior pregado no zen-budismo e por fim, a resistência do bambu representa a estabilidade e caráter inabalável.
  • A ameixeira é o símbolo da esperança e da tolerância. O tronco retorcido inspira dureza e ainda assim carrega consigo a promessa da primavera, que se confirma com o aparecimento dos primeiros delicados brotos em janeiro.
  • O crisântemo por antecipar o inverno desafiando o frio do outono, representa a perseverança, a lealdade e a modéstia. Também simboliza a vida familiar devido ao seu formato circular. É a flor-símbolo da Casa Imperial.

Enquanto o ocidente viu diversos estilos de pintura especializados na realidade, utilizando muitas técnicas de sombras, cores, tons, espaço etc, o oriente focou sua arte no significado.

Uma obra do sumi-ê, assim como toda arte japonesa, carrega o espírito do artista. Fruto da inspiração artística do momento, todo traço é, assim como um golpe de espada, único e cheio de vitalidade, razão porque muitos samurais praticaram o sumi-ê.


Use as estrelas abaixo para dar uma nota a este artigo:
1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas


Imprima uma versão mais simples deste artigo.
Gostou? Recomende este artigo por email. Gostou? Recomende este artigo por email.

6 comentários

jet horizontal

jun 09 2008

Ukiyo-ê: “pinturas do mundo flutuante”

http://www.ukiyoe-gallery.com/detail-d500.htm

Ukiyo-ê são imagens do cotidiano registradas no papel pelo processo da xilogravura. Nascida no período Edo, mais precisamente no século XVII e originária dos centros urbanos de Edo (atual Tóquio), Osaka e Kyoto, esta manifestação artística reforça o conceito da efemeridade da vida. Ao retratarem lutadores de sumô, gueixas, atores de teatro e paisagens, os artistas procuravam eternizar na pintura aquele fugaz  momento.

http://www.ukiyoe-gallery.com/detail-c553.htm

Inicialmente essas gravuras eram todas produzidas apenas com tinta preta e somente algumas eram coloridas com pincel. Até que no século XVIII Suzuki Harunobu desenvolveu uma técnica de impressão policromática chamada nishiki-e, onde cada cor da ilustração tinha a sua própria matriz. Esta evolução proporcionou a redução dos custos de produção e consolidou o ukiyo-ê como uma arte popular.

Antes da evolução tecnológica o ukiyo-ê era utilizado basicamente em impressões de uma página, como por exemplo posters de espetáculos da época. Depois do feito de Suzuki, esse estilo também passou a ser utilizado em cartões postais, ehon [絵本] (livros de histórias ilustrados) e calendários.

Em 1868, a Restauração Meiji abriu as portas do Japão para o resto do mundo e o ukiyo-ê foi gradativamente substituído pela fotografia. Contudo, enquanto sua popularidade caía na cultura japonesa, iniciou-se um movimento inverso chamado Japonisme. Este nome, de origem francesa, caracteriza um dos momentos no qual o ocidente, principalmente a Europa, foi influenciado pela arte japonesa. Importantes movimentos – cubismo, impressionismo e pós-impressionismo,  e artistas – Vincent Van Gogh, Claude Monet, Edgar Degas e Mary Cassat – buscaram inspiração no ukiyo-ê.

http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Lautrec_reine_de_joie_%28poster%29_1892.jpg

No século XX, o ukiyo-ê se renovou em dois principais movimentos:

Shin hanga: manteve o processo produtivo colaborativo do ukiyo-ê tradicional no qual trabalhavam o artista, escultor e impressor. Com a adição de técnicas de pinturas ocidentais, como efeitos de luzes e expressões faciais, o objetivo deste movimento era criar um ukiyo-ê mais elitizado. Pintaram basicamente motivos tradicionais como paisagens, locais famosos, mulheres bonitas, atores kabuki, pássaros e flores.

Sosaku hanga: utilizou um processo de produção diferente no qual o artista era o único responsável por todas as etapas de desenvolvimento. Em função do método do sosaku ser mais lento, muitos artistas não conseguiam sobreviver apenas da arte e muitos acabavam fazendo ilustrações de livros e esculturas em madeira. Após muita luta contra a extinção durante a guerra, e findo o conflito em 1945, o estilo se consagrou como o verdadeiro herdeiro da tradição do ukiyo-ê.

Fontes:
http://en.wikipedia.org/wiki/Shin_hanga
http://en.wikipedia.org/wiki/Japonism
http://www.ukiyoe-gallery.com/gallery.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Nishiki-e
http://japao100.abril.com.br
http://en.wikipedia.org/wiki/Ukiyo-e


Use as estrelas abaixo para dar uma nota a este artigo:
1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas


Imprima uma versão mais simples deste artigo.
Gostou? Recomende este artigo por email. Gostou? Recomende este artigo por email.

3 comentários

jet horizontal

Pages: 1 2 3 Next

Pages: 1 2 3 Next