mai 02 2011

A educação japonesa

O Ocidente procura definir e proteger os direitos e garantias individuais como segurança contra eventual arbítrio do poder.  A cultura japonesa tomou o caminho inverso: em vez de direitos, atribuiu obrigações. Todos já nascem devedores: têm obrigações, a princípio com os antepassados, com os pais, depois, com o mestre. Mais tarde, no trabalho, com os superiores e subordinados. Quanto mais aumenta seu círculo de relações, mais aumentam suas obrigações; quanto mais ascendem, mais aumentam suas responsabilidades e mais devedores se tornam: com a família, com a escola, com o trabalho e com a sociedade. Nessa cultura não se discutem direitos nem posições. Estas são assumidas consensualmente por quem cumpre obrigações assumidas.

E alguns procuram “pagar” essa dívida dando atenção ao sistema educacional, descrito por Reischauer como “nada, de fato, é mais central na sociedade japonesa ou mais básico para o sucesso do Japão” (REISCHAUER, 1981, p. 167). Toshio Doko (1896-1988), engenheiro e ex-presidente das indústrias Ishikawajima e Toshiba, e entre 1974 e 1980, da poderosa Keidanren – Japan Federation of Economic Organization, hoje Japan Business Federation, entidade que congrega todas as organizações econômicas do Japão,  doava 90% do seu salário a uma escola em Yokohama e vivia com os 10% restantes (Revista Veja…UMA DIETA severa…, 1982, p. 89). A um custo de US$ 28 milhões, Konosuke Matsushita, fundador da gigante Matsushita (334 mil empregados) fundou às suas expensas em 1980, uma escola de governo e administração destinado a jovens com talento, de qualquer classe social (BARROS, 1988, p. 6). “É preciso fazer o homem antes de fazer o produto”, pregava, aos 86 anos (Revista Veja, JAPÃO, 1982, p. 48).

Costume antigo, como nos relata  Lafcadio Hearn (1984, p. 434) em livro cuja primeira edição é de 1904:

“Nos tempos feudais o professor ensinava sem salário e dele era esperado que devotasse à sua tarefa todo seu tempo, pensamento e esforço. Alta honra estava associada à profissão e não se discutia remuneração; o instrutor gozava de toda gratidão dos pais e alunos.[…] essa ligação professor-aluno só era superada pela ligação entre pais e filhos.”

Lafcadio menciona ainda o costume generalizado entre a população de pagar os custos de estudo de jovens do feudo, citando como fato então conhecido, que grande parte da renda pessoal do casal imperial, por vários anos, era destinado ao ensino público (HEARN, 1984, p. 435). Tal costume era seguido por comerciantes, banqueiros, artesãos, oficiais militares, servidores públicos, médicos, advogados e outros (ibidem). Em alguns casos era apenas um empréstimo ou no caso dos menos abastados, o pagamento de apenas metade dos custos. Havia ainda os que davam hospedagem e comida aos estudantes em troca de pequenos trabalhos como mensageiros (idem, p. 436). Entre professores do ensino superior a ajuda a estudantes parecia-lhes natural havendo mesmo quem sustentasse com seu pequeno salário vários estudantes com os custos da educação inclusive os de moradia e vestuário (idem, p. 437). O mestre estava disposto a qualquer sacrifício pelo discípulo e este, se preciso, ainda segundo Lafcadio, a dar a vida pelo mestre (idem, p. 434). Se há algum exagero no relato do escritor e jornalista grego, debitêmo-lo ao fascínio que a cultura nipônica provocou em muitos outros estrangeiros que por lá aportaram e escreveram sobre ela. Dentre eles, o brasileiro Aluísio de Azevedo, autor de Casa de Pensão e o Mulato entre outros. Isso tornava o mestre figura respeitada e querida e em alguns casos,  conselheiros de alunos e ex-alunos.

São relações pessoais que identificam comportamento de família, o que não costuma ocorrer numa sociedade mais numerosa. No Japão antigo, de fato, a noção de família era a de uma comunidade maior com centenas ou milhares de famílias (idem, p. 22). Nessa cultura sempre se privilegiou a comunidade, o grupo, em detrimento do individual; são treinados para a ação cooperativa objetivando-se sua posição numa sociedade rigidamente hierarquizada; não são incentivados o cultivo das habilidades individuais e características pessoais nem a criação de um ser forte e independente como no Ocidente (idem, p. 420).

Não se pode compreender o Japão sem uma apreciação de suas crenças religiosas. Saber e ser são a mesma coisa; vive-se o que se é, ensina o zen-budismo. Escreve Suzuki (1977, p. 15): “O viver através do Zen significa permanecer como se é, estar completo em si mesmo, e por esse motivo ele sempre é sua própria obra, ele sempre proclama o que possui, e nunca tenta ou inventa ser outro que não ele mesmo”. Para o homem que se sente sua própria obra, ou seja, inteiramente responsável pelo seu ser, “o sentido da honra e da vergonha individual e coletiva, é um dos traços mais fortes e sensíveis do homem japonês”, escreve Benedito Ferri de Barros (1988, p. 21). No Ocidente, o saber e o ser são dicotomizados. Quem sabe, sabe, e por isso tem seu valor, independentemente da conduta, de ser, que pode ou não coincidir com o saber.

Vídeo sobre educação em escola primária

Referências

BARROS, Benedito F. de. Japão harmonia dos contrários. São Paulo: T. A. Queiroz, 1988.

HEARN, Lafcadio. Japan an attempt at interpretation. Tokyo: Charles E. Tuttle, 1984.

JAPÃO, número um: com uma indústria que vende saúde e uma sociedade rica, os japoneses correm para suceder os EUA no timão do Primeiro Mundo. Veja, [S.l.], n. 730, p. 48, 01 set. 1982. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx>. Acesso em: 02 maio 2011.

REISCHAUER, Edwin O. The japanese. London: Harvard University Press, 1981.

SUZUKI, Daisetz Teitaro. Viver através do Zen. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

UMA DIETA severa: o governo corta despesas da máquina administrativa em 20% para não elevar impostos. Veja, [S.l.], n. 727, 11 ago. 1982. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx>. Acesso em: 02 maio 2011.


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abr 18 2011

Japão: tragédia e reconstrução III

A força do voluntariado

 

“Quod sentimus loquamur, quod lóquimur    sentiamus: concordes sermo cum vita”

(Falemos o que sentimos; sintamos o que falamos; então nossa palavra está em sintonia com a vida)

 (Sêneca, Epistulae, 75, 4)

Nos dias que se seguem aos fatídicos acontecimentos de 11 de março, assistimos à determinação e sensibilidade com que uma nação se mobiliza diante da crise.

Nos dias imediatos após tragédias como chuvas torrenciais, desmoronamentos, terremotos e tsunamis, medidas genéricas como distribuição ou racionamento de água, alimentos, remédios, eletricidade e transporte são tomados por qualquer governo até que a situação se normalize. E vemos surgir muitos voluntários. Dependendo da extensão da gravidade, algumas nações compõem forças-tarefa com seus soldados e as enviam ao país atingido.

A par destas medidas, vemos nascer no Japão corpo de voluntários de força extraordinária. Diz um japonês especialista em monitorar crises: “diante de catástrofes as ações do governo não conseguem atingir todas as necessidades da sociedade; suas mãos socorrem a sociedade no essencial. O resto é tarefa do povo”.

As notícias são diárias de voluntários que surgem dos mais variados setores no apoio e auxílio às vítimas. Estudantes, jovens, trabalhadores, senhoras donas de casa e os próprios desabrigados voluntariam-se para os mais variados serviços e tarefas.

Estudantes do nível médio ajudam na arrumação das casas atingidas, crianças fazem companhia a idosos e lhes presenteiam com massagens, jovens criaram sites de serviços de busca e notícias de desaparecidos, um outro site com informações básicas para recomeço de vida: emprego, reconstrução de casa, carro, prestações vencidas.

Jovens mães, as gyaru-mama e seus maridos ajudam na distribuição de fraldas para os diversos abrigos, jovens comparecem para entreter crianças, hotéis disponibilizam algumas vagas, famílias e casas comerciais com espaço disponível recebem algumas vítimas,  mães organizam matrículas e transporte para crianças dos abrigos.

Gente que, agora sem casa e  sem emprego, percorre e separa apenas objetos de lembrança de cada casa, antes de serem levadas como entulhos, guardando-os em sacos separados: fotos, filmes, discos, cadernos, objetos pessoais, livros, na esperança de entregá-los aos donos, se estiverem vivos; há os que constroem brinquedos para crianças dos abrigos.  Outro desalojado retornou para sua residência muito danificada e levou o que achou de utilidade para os desabrigados com quem passou a morar; entre as coisas achou, sorridente, pacote intacto de café que agora poderia dividir no abrigo. Editoras de livros didáticos enviam livros e jovens que estão deixando o colegial doaram uniformes, ajustados por voluntárias, aos estudantes abrigados. Crianças do ensino fundamental doaram bolsas escolares quando visitaram as crianças do abrigo.

Construíram-se quiosques de alimentação – voluntários e donos de restaurantes vêm fazer e servir refeições; outros, de apoio e orientação com advogados, contadores e consultores, além de salas para esse fim, disponibilizadas nas prefeituras. Há vários quiosques de  médicos – alguns chegando de países estrangeiros. “Estou aqui em retribuição aos médicos que o Japão enviou ao meu país quando precisamos”, declarou em japonês fluente um deles.

Quando houve a contaminação da água por radiação, os técnicos asseguraram que apenas a gestante, o lactente e a lactante deveriam evitar seu consumo e para isso o governo enviou dois frascos para cada necessitado, em número exato devido ao racionamento. As pessoas retiravam livremente, sem ninguém para controlar. Para a distribuição de gêneros alimentícios e roupas, são postas no chão todas as doações e cada qual pega o que precisa. Ao retirarem o que precisam, levam de casa o que têm sobrando para o compartilhamento comunitário. Na província de Iwate o governo pagou 50 mil ienes por desaparecido em quiosques improvisados nas regiões atingidas, sem documentos ou declarações assinadas. Apenas a palavra do declarante. Foram isentos ou reduzidos, impostos sobre aquisição de bens: carros, móveis e utilidades domésticas. O governo está financiando a reconstrução de casas e instalando, provisoriamente – onde os entulhos foram removidos – residências-padrão, já com os aparelhos domésticos instalados (máquina de lavar roupa, geladeira, aquecedor a gás, fogão e banho), montadas em enormes caixas como contêineres.

O voluntariado produz efeitos reflexos: os desabrigados lavam os banhos públicos onde tiveram a entrada franqueada; limpam e arrumam os hotéis que os hospedam. Estudantes que ajudam no cadastro em quiosques de atendimento disseram estar ali em retribuição a outros estudantes que arrumaram e limparam sua escola inundada pelo tsunami. Senhoras que servem refeições disseram que tiveram sua casa e seu quintal limpos por jovens.

Um senhor de 69 anos que mora só, na província de Iwate – uma das regiões atingidas pelo tsunami – recusou-se a morar no abrigo. Usando aparelho de oxigênio que o auxilia na respiração, falou que costuma tossir muito pela manhã e não quer incomodar os vizinhos do abrigo, justificou-se diante da equipe médica que o visitava.

Em meio à tristeza e desamparo, o clima é de gratidão, mesmo diante do pouco que recebem – eles sabem que o outro está fazendo o melhor que pode.

De alma plena recebem, não o objeto, mas o coração de quem se doa.

Se assistisse à cena, talvez Sêneca tivesse dito também…concordes animus cum vita  (então…nossa alma está em sintonia com a vida).


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