A educação japonesa

A educação japonesa

150 150 Paula Kaneoya

O Ocidente procura definir e proteger os direitos e garantias individuais como segurança contra eventual arbítrio do poder.  A cultura japonesa tomou o caminho inverso: em vez de direitos, atribuiu obrigações. Todos já nascem devedores: têm obrigações, a princípio com os antepassados, com os pais, depois, com o mestre. Mais tarde, no trabalho, com os superiores e subordinados. Quanto mais aumenta seu círculo de relações, mais aumentam suas obrigações; quanto mais ascendem, mais aumentam suas responsabilidades e mais devedores se tornam: com a família, com a escola, com o trabalho e com a sociedade. Nessa cultura não se discutem direitos nem posições. Estas são assumidas consensualmente por quem cumpre obrigações assumidas.







E alguns procuram “pagar” essa dívida dando atenção ao sistema educacional, descrito por Reischauer como “nada, de fato, é mais central na sociedade japonesa ou mais básico para o sucesso do Japão” (REISCHAUER, 1981, p. 167). Toshio Doko (1896-1988), engenheiro e ex-presidente das indústrias Ishikawajima e Toshiba, e entre 1974 e 1980, da poderosa Keidanren – Japan Federation of Economic Organization, hoje Japan Business Federation, entidade que congrega todas as organizações econômicas do Japão,  doava 90% do seu salário a uma escola em Yokohama e vivia com os 10% restantes (Revista Veja…UMA DIETA severa…, 1982, p. 89). A um custo de US$ 28 milhões, Konosuke Matsushita, fundador da gigante Matsushita (334 mil empregados) fundou às suas expensas em 1980, uma escola de governo e administração destinado a jovens com talento, de qualquer classe social (BARROS, 1988, p. 6). “É preciso fazer o homem antes de fazer o produto”, pregava, aos 86 anos (Revista Veja, JAPÃO, 1982, p. 48).

Costume antigo, como nos relata  Lafcadio Hearn (1984, p. 434) em livro cuja primeira edição é de 1904:

“Nos tempos feudais o professor ensinava sem salário e dele era esperado que devotasse à sua tarefa todo seu tempo, pensamento e esforço. Alta honra estava associada à profissão e não se discutia remuneração; o instrutor gozava de toda gratidão dos pais e alunos.[…] essa ligação professor-aluno só era superada pela ligação entre pais e filhos.”

Lafcadio menciona ainda o costume generalizado entre a população de pagar os custos de estudo de jovens do feudo, citando como fato então conhecido, que grande parte da renda pessoal do casal imperial, por vários anos, era destinado ao ensino público (HEARN, 1984, p. 435). Tal costume era seguido por comerciantes, banqueiros, artesãos, oficiais militares, servidores públicos, médicos, advogados e outros (ibidem). Em alguns casos era apenas um empréstimo ou no caso dos menos abastados, o pagamento de apenas metade dos custos. Havia ainda os que davam hospedagem e comida aos estudantes em troca de pequenos trabalhos como mensageiros (idem, p. 436). Entre professores do ensino superior a ajuda a estudantes parecia-lhes natural havendo mesmo quem sustentasse com seu pequeno salário vários estudantes com os custos da educação inclusive os de moradia e vestuário (idem, p. 437). O mestre estava disposto a qualquer sacrifício pelo discípulo e este, se preciso, ainda segundo Lafcadio, a dar a vida pelo mestre (idem, p. 434). Se há algum exagero no relato do escritor e jornalista grego, debitêmo-lo ao fascínio que a cultura nipônica provocou em muitos outros estrangeiros que por lá aportaram e escreveram sobre ela. Dentre eles, o brasileiro Aluísio de Azevedo, autor de Casa de Pensão e o Mulato entre outros. Isso tornava o mestre figura respeitada e querida e em alguns casos,  conselheiros de alunos e ex-alunos.

São relações pessoais que identificam comportamento de família, o que não costuma ocorrer numa sociedade mais numerosa. No Japão antigo, de fato, a noção de família era a de uma comunidade maior com centenas ou milhares de famílias (idem, p. 22). Nessa cultura sempre se privilegiou a comunidade, o grupo, em detrimento do individual; são treinados para a ação cooperativa objetivando-se sua posição numa sociedade rigidamente hierarquizada; não são incentivados o cultivo das habilidades individuais e características pessoais nem a criação de um ser forte e independente como no Ocidente (idem, p. 420).

Não se pode compreender o Japão sem uma apreciação de suas crenças religiosas. Saber e ser são a mesma coisa; vive-se o que se é, ensina o zen-budismo. Escreve Suzuki (1977, p. 15): “O viver através do Zen significa permanecer como se é, estar completo em si mesmo, e por esse motivo ele sempre é sua própria obra, ele sempre proclama o que possui, e nunca tenta ou inventa ser outro que não ele mesmo”. Para o homem que se sente sua própria obra, ou seja, inteiramente responsável pelo seu ser, “o sentido da honra e da vergonha individual e coletiva, é um dos traços mais fortes e sensíveis do homem japonês”, escreve Benedito Ferri de Barros (1988, p. 21). No Ocidente, o saber e o ser são dicotomizados. Quem sabe, sabe, e por isso tem seu valor, independentemente da conduta, de ser, que pode ou não coincidir com o saber.

Vídeo sobre educação em escola primária

Referências

BARROS, Benedito F. de. Japão harmonia dos contrários. São Paulo: T. A. Queiroz, 1988.

HEARN, Lafcadio. Japan an attempt at interpretation. Tokyo: Charles E. Tuttle, 1984.

JAPÃO, número um: com uma indústria que vende saúde e uma sociedade rica, os japoneses correm para suceder os EUA no timão do Primeiro Mundo. Veja, [S.l.], n. 730, p. 48, 01 set. 1982. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx>. Acesso em: 02 maio 2011.

REISCHAUER, Edwin O. The japanese. London: Harvard University Press, 1981.

SUZUKI, Daisetz Teitaro. Viver através do Zen. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

UMA DIETA severa: o governo corta despesas da máquina administrativa em 20% para não elevar impostos. Veja, [S.l.], n. 727, 11 ago. 1982. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx>. Acesso em: 02 maio 2011.