A SEMANA DA PAZ – I

A SEMANA DA PAZ – I

150 150 Iochihiko Kaneoya
A SEMANA DA PAZ – I

O Imigrante Kazumi Ogawa- I

Nesta semana nos dias 6 e 9 de agosto, o mundo vai relembrar as bombas atômicas que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, pondo fim à Segunda Guerra Mundial. A Humanidade, horrorizada, fez ecoar pelo mundo movimentos pela Paz. Alguns deixaram o Japão à procura de terras onde pudessem criar sua família….E para onde foram?







Como canta Tetê Espíndola: estava escrito nas estrelas.

Naquela manhã de 9 de agosto de 1945, um apressado Kazumi corria tentando apanhar a balsa que o levaria à escola. Acordara um pouco tarde e apressava-se para redimir-se do sermão de sua mãe. Apesar do esforço, a balsa o deixara em terra.

Um amigo convidou e o adolescente Kazumi, então com 16 anos, aceitou ser o acompanhante num passeio pelos bosques atrás das colinas, distante 8 km de onde morava, obviamente, sem dizer nada aos pais. Queria aproveitar aquele momento de folga, pois suas tardes eram ocupadas numa fábrica de armamentos. O Japão estava em plena guerra e os jovens estudantes eram incentivados a se alistarem nas Forças Armadas ou para trabalho em fábricas de armas ou munições.

O jovem Kazumi tratava de aproveitar o momento de lazer quando de repente, o Sol pareceu descer sobre a Terra envolvendo-a com seu manto abrasador e ofuscar o dia claro com mil sóis sob a explosão tonitruante de mil canhões, cujas bocas cuspiam ventos de fogo e brasa que a tudo carbonizava.

Que seria aquilo?

Castigo por faltar à escola? Profecia de Nostradamus? Uma nova Sodoma e Gomorra?

Instintivamente os jovens cobriram os olhos, numa reação incrédula, a alma não querendo ver o que de terrível se passava e o corpo, trêmulo e exangue, certamente desejando estar bem longe dali, em local seguro. Olhos lacrimejantes, sem nenhuma visão por alguns instantes – cegos pelo clarão – subiram a colina para examinar em direção de tão assustador acontecimento.

De longe, no topo da colina, viram estupefatos que não havia mais a cidade. No seu lugar, restos de casas fumegando, entulhos e ferros carbonizados e retorcidos. Entreolharam-se, mudos, olhares fixos, imóveis como o espírito, terrificados diante do inacreditável. Queriam acordar, precisavam acordar. O pesadelo era insuportável.

Tanto quanto as forças permitiram, voltaram rápido para a vila onde moravam. Já mais perto da cidade, à beira do caminho, o mato antes verdejante, fumegava apenas com seus restos de galhos. O calor era abrasador, tudo quente: chão, ar, restos de madeira que queimavam, as calçadas, os restos de muros. E não havia mais água potável. Apenas aquele líquido escuro disputado pela multidão de zumbis sedentos e queimados, roupas unidas a peles chamuscadas, esgarçadas e dependuradas ao longo do corpo, alguns tentando segurar partes das vísceras expostas. Muitos morreriam sem beber.

Os relógios marcavam 11:02 h do dia 9 de agosto. O tempo parou neste instante. Mais uma vez, apenas 72 horas após a bomba de Hiroshima, foram caladas as vozes da moral e da ética. A razão e o bom senso da humanidade se ausentaram, possivelmente, como Kazumi, constrangidos em não ter como justificar suas faltas.

A cidade de Nagasaki é cortada pelo Rio Nakajima. Após a explosão muitos foram beber da sua água, agora mortalmente radiativa. Muitos machucados pedindo socorro, clamando por ajuda; alguns anunciavam seu nome para um Kazumi horrorizado, impotente e confuso, incapaz de reconhecer gente conhecida naqueles rostos desfigurados.

Na manhã do dia 10 de agosto, milhares de cadáveres amanheceram nas margens do rio. Outros tantos tombaram a caminho durante a noite. Naquela manhã calorenta de agosto, as águas do Rio Nakajima, antes tão cheio de vida, de barcos e pescadores, cumpriram o apiedado ritual da extrema-unção aos moribundos nagasakianos que encontraram nas suas margens mortalha misericordiosa.

O jovem Kazumi via ao seu redor o que Dante apenas imaginou. Aquilo era o Inferno Real. Corpos carbonizados, cadáveres aqui e acolá, cheiro de madeira e carne queimadas, sombras de figuras humanas fixadas na parede cujos corpos foram vaporizados pelo calor da bomba.

Sua escola fora quase toda destruída. Morreram 180 dos 300 estudantes. Kazumi chorou. E choraria mais ainda a morte de parentes, amigos, professores, que simplesmente desapareceram, vaporizados, sem deixar rastros. Outros iam morrendo aos poucos nos dias seguintes, pelo veneno da radiação que não tinha pressa em desconstruir os corpos: primeiro perdiam o cabelo, as unhas, a pele que se enchia de pústulas e finalmente leucêmicos, morriam. Os sobreviventes, expostos à radiação, sofreriam para sempre os efeitos daquele ato que pôs fim à guerra de forma tão perversa.

Como outros, o adolescente não compreendia as razões políticas daquela destruição. Mas certamente compreendeu a extrema desumanidade daquele episódio, a desnecessidade do uso daquela violência irracional contra seu povo inerme, contra qualquer povo, de qualquer país, contra o ser humano. Por entre lágrimas e soluços, o coração apertado pela impotência e inconformismo, como o lendário pássaro Fênix, nascia das cinzas de Nagasaki, o pacifista Kazumi Ogawa.

Vários países, após o fim da Segunda Guerra, numa atitude de respeito e solidariedade, enviaram à prefeitura de Nagasaki esculturas para exposição no Parque da Paz, construída pela prefeitura. Entre eles está o Brasil.

Lembrando as vítimas deste fatídico 9 de agosto, Nagasaki todos os anos, neste dia, exatamente às 11:02 h, celebra cerimônia em homenagem aos mortos, durante a qual ouvem-se três longos toques de sino. À noite, milhares de pessoas vêm às margens do Rio Nakajima soltar em suas águas as lanternas flutuantes com o nome dos mortos. É a mais famosa cerimônia de Tooro Nagashi do mundo. (lanternas feitas de madeira e papel de seda colorida onde se escrevem os nomes dos mortos; ao centro, uma vela acesa para iluminar o caminho de volta). Em Hiroshima, no dia 6 de agosto também são realizados o cerimonial e o Tooro Nagashi nas águas do Rio Motoyasu. No Brasil as cidades paulistas de Santos e Registro têm realizado com grande sucesso o Tooro Nagashi.

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

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1 comentário
  • Estou com os olhos marejados. Ler ou ouvir histórias de sobreviventes dessa tragédia sempre me emocionam.

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