Hiroshima mon amour

Hiroshima mon amour

150 150 Bruno Kaneoya

hiroshima mon amour

Hisae Y. Kaneoya, colaboradora do NIPOCULTURA participou como comentadora do projeto “CEARTH NO MUSEU”, na Universidade Estadual de Santa Catarina. Na ocasião, foi apresentado o filme Hiroshima mon amour. Segue abaixo o texto produzido por Iochihiko Kaneoya sobre a obra de Alain Resnais:







Todo o filme poderia ser reduzido no princípio, na força do haicai imagético escrito por Resnais na tela: o amor flui sob as cinzas, movimenta-se, encontra-se, dá-se, existe. Vivo, logo amo.

O mundo exterior é de destruição, é o passado destruído da cidade de Hiroshima e a vida pregressa da atriz francesa Emmanuelle Riva; o interior, de construção ou de reconstrução – função do arquiteto de profissão do ator japonês Eiji Okada – a partir da tentativa fracassada de esquecimento de um passado traumático.

Okada é o contraponto à fala de Emmanuelle: realista, tenta viver o instável amor presente a despeito do passado sofrido da atriz. Eiji Okada faz o papel de arquiteto, mas Emmanuelle, é real, é ela mesma, atriz no papel de atriz-enfermeira. O arquiteto é o presente, não tem passado, apenas a atriz. O presente não existe porque precisa ser reconstruído, mas o passado é real e está destruído, ferido: há que ser refeito, curando-se as feridas.

Às imagens da abertura segue-se o texto da escritora francesa Marguerite Duras que, como num poema, na voz recitativa, pausada e sofrida de Riva, transporta o filme ao mundo literário do romance, onde a realidade dos fatos são enevoados pela dos sentimentos e entrelaça-se atemporalmente entre o passado e o presente. O ator japonês sempre nega Hiroshima, inexistente em sua memória; todo seu desejo é de construção do amor presente. Como na poesia, o filme é para ser sentido e interpretado.

Terrificante ao extremo, Alain Resnais contrapõe aos fatos trágicos, a mensagem da sublimidade do homem unindo antípodas irreconciliáveis: vida e morte, destruição e reconstrução, desespero e esperança, verdade e fantasia. A destruição de Hiroshima e Nagasaki é pano de fundo ao romance, cenário acessório mas coadjuvante necessário para a mensagem de Resnais.

Ao ver o tremular dos dedos do amado, ocorre à Riva a lembrança do seu primeiro amor que mais do que viu, sentiu seu corpo morrer junto de si. Neste momento, na única cena com vestes nipônicas, ela aparece com o yukata (quimono leve, de verão) vestido com a dobradura da morte (lado direito sobre o esquerdo).

Okada é a reminiscência viva do amor proibido de juventude assassinado, e ao mesmo tempo, a força do amor que a mantém viva na fria adega subterrânea de onde só pode ver a vida de um plano inferior, ouvindo inclusive a Marselhesa e os soldados franceses em orgulhosa marcha militar. Amou um soldado alemão das forças de ocupação da França, alguém que humilhara sua pátria. Na mesma moeda, Riva tem a dignidade usurpada, punida e humilhada por uma moral provinciana e primitiva. Extirpam-lhe sua feminilidade possível cortando-lhe quase todo o cabelo, ação em si insignificante diante do castigo maior da prisão, gesto apenas acentuador de uma agressividade insana. Seu pecado foi amar ignorando as efêmeras circunstâncias políticas e morais. Recupera sua auto-estima quando vai a Paris, cidade de maior profundidade e riqueza cultural e ao se tornar mãe, recupera sua sanidade. Pela personagem de Riva e de seu passado, Resnais parece deixar sua mensagem de engajado político, caracterizando, metalinguisticamente, o que foi a bomba de Hiroshima: coisa sórdida, de homens de moral primitiva e imediatista, mas cuja vítima, embora humilhada, se reergue das cinzas, se descobre, volta à normalidade psíquica ao fazer parte e dar prosseguimento à humanidade quando tem suas filhas. A vida segue movida pelo amor, a vida flui como os rios Ohta e Loire, a despeito de tudo.

Riva ama o amor, dando-lhe fascinante transcendência moral, étnica, política, de idioma, de tempo e de local. É o amor presente com raízes no passado. Revigora-se no amor, sempre belo e sublime, e é para ele que quer viver. Mas o preço é alto: o tempo é inexorável e fortes os laços matrimoniais de ambos. Como o salitre e o sangue da adega, temperos à sua atroz solidão, o amor, na sua essência, sobrevive, perpassa incólume e dá significado à vida de Riva. Os sofrimentos que o envolvem, valorizam sua existência passageira, conferindo-lhe especial sabor.

Ambos querem viver o amor presente intensamente, independentemente da amarra social do casamento, do passado sofrido e do futuro que inexistirá para ambos juntos. Sobreviventes provisórios da bomba, como disse Riva. Somos todos sobreviventes provisórios do amor. O amor é eterno, os homens, passageiros.

Resnais escreveu na tela a elegia do amor. Como na cultura japonesa, onde grande parte das artes têm a terminação do, que significa caminho – infindável porque a busca da perfeição é constante – Emmanuelle também está no caminho; vive esta busca incessantemente.

O passado e o presente do outro são desconhecidos. O mundo externo é estranho ao amor que se dedica ao ser amado.

A passeata filmada mostra cartazes bilingües e um diálogo de amor entre os amantes diante de um indiferente figurante vítima da bomba atômica. Mostra ainda familiares portando retratos dos mortos pela bomba e crianças carregando o origami do tsuru, amuleto da paz e da saúde. Ao fundo uma música folclórica, alegre, cujo refrão é “tenho fome”. Tenho fome de quê? De viver o amor acima das vicissitudes da língua? Da paz de crianças brincando?

O fluir de tudo, da próxima destruição da vida em Nagasaki, dos rios Loire e Ohta com seus sete braços desaguando no mar, da vida animal e vegetal que renasce da terra destruída, das águas que vêm e que vão, dos meninos que brincam no terreno onde se vê abandonado um livro sobre a paz, dos amores fugazes e intensos do presente permeados pela lembrança de um passado amargo e um futuro inexistente, conduzidos pela força da vida é a narrativa central do filme.

O bar de nome Doomu – ajaponesamento de domo, imagem que remete à cúpula semi-destruída pela bomba e que foi preservada como lembrança e advertência à humanidade, é onde os amantes travam o diálogo onde o tempo e os personagens se fundem: o passado lança raízes no presente e o presente está fortemente condicionado pelo passado, sugerindo fascinante perenidade ao episódio.

Os atores nem têm nome: ambos chamam ao outro pelos nomes de suas cidades: Hiroshima no Japão e a francesa Nevers. Identificam-se no passado destruído pela ignominiosa e estreita sordidez humana. Okada, porque lhe destruiram sua morada exterior, Emmanuelle porque lhe destruiram o que morava no seu interior.

Hiroshima é a única e singular Hiroshima da destruição, mas Nevers é candentemente o plural de Never.

Bruno Kaneoya

Bruno Kaneoya, designer e sansei (neto de japoneses). "Como designer, é imprescindível compreender a maneira como a sociedade funciona, se comporta e se transforma, por isso escrevo sobre este assunto no NIPOCULTURA."

All stories by : Bruno Kaneoya
1 comentário
  • Gabriel Siqueira 6/10/08 at 11:20

    Ae Bruno!

    Muito legal e bonito seu site!
    Parabéns! Layout maravilhoso…
    O conteúdo tb é mto bom, dei uma navegada e achei várias coisas legais…
    Adoro o filme Sonhos, é maravilhos… obra de arte;;;
    Já linkei você no Irradiando Luz!

    Abração
    Gabriel

Leave a Reply