Japão: tragédia e reconstrução III

Japão: tragédia e reconstrução III

150 150 Iochihiko Kaneoya

A força do voluntariado

 







“Quod sentimus loquamur, quod lóquimur    sentiamus: concordes sermo cum vita”

(Falemos o que sentimos; sintamos o que falamos; então nossa palavra está em sintonia com a vida)

 (Sêneca, Epistulae, 75, 4)

Nos dias que se seguem aos fatídicos acontecimentos de 11 de março, assistimos à determinação e sensibilidade com que uma nação se mobiliza diante da crise.

Nos dias imediatos após tragédias como chuvas torrenciais, desmoronamentos, terremotos e tsunamis, medidas genéricas como distribuição ou racionamento de água, alimentos, remédios, eletricidade e transporte são tomados por qualquer governo até que a situação se normalize. E vemos surgir muitos voluntários. Dependendo da extensão da gravidade, algumas nações compõem forças-tarefa com seus soldados e as enviam ao país atingido.

A par destas medidas, vemos nascer no Japão corpo de voluntários de força extraordinária. Diz um japonês especialista em monitorar crises: “diante de catástrofes as ações do governo não conseguem atingir todas as necessidades da sociedade; suas mãos socorrem a sociedade no essencial. O resto é tarefa do povo”.

As notícias são diárias de voluntários que surgem dos mais variados setores no apoio e auxílio às vítimas. Estudantes, jovens, trabalhadores, senhoras donas de casa e os próprios desabrigados voluntariam-se para os mais variados serviços e tarefas.

Estudantes do nível médio ajudam na arrumação das casas atingidas, crianças fazem companhia a idosos e lhes presenteiam com massagens, jovens criaram sites de serviços de busca e notícias de desaparecidos, um outro site com informações básicas para recomeço de vida: emprego, reconstrução de casa, carro, prestações vencidas.

Jovens mães, as gyaru-mama e seus maridos ajudam na distribuição de fraldas para os diversos abrigos, jovens comparecem para entreter crianças, hotéis disponibilizam algumas vagas, famílias e casas comerciais com espaço disponível recebem algumas vítimas,  mães organizam matrículas e transporte para crianças dos abrigos.

Gente que, agora sem casa e  sem emprego, percorre e separa apenas objetos de lembrança de cada casa, antes de serem levadas como entulhos, guardando-os em sacos separados: fotos, filmes, discos, cadernos, objetos pessoais, livros, na esperança de entregá-los aos donos, se estiverem vivos; há os que constroem brinquedos para crianças dos abrigos.  Outro desalojado retornou para sua residência muito danificada e levou o que achou de utilidade para os desabrigados com quem passou a morar; entre as coisas achou, sorridente, pacote intacto de café que agora poderia dividir no abrigo. Editoras de livros didáticos enviam livros e jovens que estão deixando o colegial doaram uniformes, ajustados por voluntárias, aos estudantes abrigados. Crianças do ensino fundamental doaram bolsas escolares quando visitaram as crianças do abrigo.

Construíram-se quiosques de alimentação – voluntários e donos de restaurantes vêm fazer e servir refeições; outros, de apoio e orientação com advogados, contadores e consultores, além de salas para esse fim, disponibilizadas nas prefeituras. Há vários quiosques de  médicos – alguns chegando de países estrangeiros. “Estou aqui em retribuição aos médicos que o Japão enviou ao meu país quando precisamos”, declarou em japonês fluente um deles.

Quando houve a contaminação da água por radiação, os técnicos asseguraram que apenas a gestante, o lactente e a lactante deveriam evitar seu consumo e para isso o governo enviou dois frascos para cada necessitado, em número exato devido ao racionamento. As pessoas retiravam livremente, sem ninguém para controlar. Para a distribuição de gêneros alimentícios e roupas, são postas no chão todas as doações e cada qual pega o que precisa. Ao retirarem o que precisam, levam de casa o que têm sobrando para o compartilhamento comunitário. Na província de Iwate o governo pagou 50 mil ienes por desaparecido em quiosques improvisados nas regiões atingidas, sem documentos ou declarações assinadas. Apenas a palavra do declarante. Foram isentos ou reduzidos, impostos sobre aquisição de bens: carros, móveis e utilidades domésticas. O governo está financiando a reconstrução de casas e instalando, provisoriamente – onde os entulhos foram removidos – residências-padrão, já com os aparelhos domésticos instalados (máquina de lavar roupa, geladeira, aquecedor a gás, fogão e banho), montadas em enormes caixas como contêineres.

O voluntariado produz efeitos reflexos: os desabrigados lavam os banhos públicos onde tiveram a entrada franqueada; limpam e arrumam os hotéis que os hospedam. Estudantes que ajudam no cadastro em quiosques de atendimento disseram estar ali em retribuição a outros estudantes que arrumaram e limparam sua escola inundada pelo tsunami. Senhoras que servem refeições disseram que tiveram sua casa e seu quintal limpos por jovens.

Um senhor de 69 anos que mora só, na província de Iwate – uma das regiões atingidas pelo tsunami – recusou-se a morar no abrigo. Usando aparelho de oxigênio que o auxilia na respiração, falou que costuma tossir muito pela manhã e não quer incomodar os vizinhos do abrigo, justificou-se diante da equipe médica que o visitava.

Em meio à tristeza e desamparo, o clima é de gratidão, mesmo diante do pouco que recebem – eles sabem que o outro está fazendo o melhor que pode.

De alma plena recebem, não o objeto, mas o coração de quem se doa.

Se assistisse à cena, talvez Sêneca tivesse dito também…concordes animus cum vita  (então…nossa alma está em sintonia com a vida).

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

All stories by : Iochihiko Kaneoya
1 comentário
  • Ao ler esta matéria fiquei bastante emocionada. Desta vez, não pelo fato do tsunami ter atingido o Japão. Mas pela solidariedade, compaixão e coletividade do povo japonês.

    Esta é a primeira vez que visito o site, e gostaria de parabenizar a equipe do Nipocultura pelo trabalho realizado.

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