A alma do povo japonês | A religiosidade do povo japonês

A alma do povo japonês | A religiosidade do povo japonês

150 150 Iochihiko Kaneoya

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Dificilmente conseguiremos falar sobre a formação da personalidade de um povo sem mencionar a influência de alguma religião, vinda de fora ou de produção endógena.







Para Durkheim religião “é antes de tudo um sistema de noções por meio das quais os indivíduos se representam à sociedade da qual são membros e às relações obscuras, mais íntimas, que mantêm com ela. As práticas do culto afirmam, realmente, os laços que ligam o fiel a seu deus, ao mesmo tempo em que estreitam os laços que unem o indivíduo à sociedade da qual é membro, pois que o deus não passa de uma figuração da própria sociedade”. Neste sentido técnico o xintoísmo e o budismo são religiões, embora fujam do paradigma de religião convencionado pelo ocidente como foi exposto. Olhado pelo ângulo da redenção e ascensão moral do homem ao mais alto grau de humanidade, a moral ética trazida da China cumpre neste particular função também de religião.

No ocidente a religião é a moralidade tocada pela emoção. Busca-se na emoção, pela linguagem própria – imagens de seres diáfanos de expressão compungida, construções arquitetônicas majestosas e pelas parábolas exemplificativas – a justificativa para a moralidade. No Japão a religião é a emoção tocada pela moralidade: deifica-se, sacraliza-se aquilo que se ama: os elementos da natureza, os objetos, as pessoas, vivas ou mortas. A diferença fundamental é a liberdade dos sentimentos: para o japonês, o amor surge primeiro, depois, a concepção de como cultivá-lo. Esta liberdade é a tônica da religiosidade japonesa: a forma, o ritual ou onde você venera suas divindades ou coisas sagradas é desimportante face aos seus sentimentos.

Por isso, destituídas de mandamentos ou cerimônias ritualísticas como condição para a salvação, o espírito de religiosidade é extremamente simples, leve e livre, pois que não conhece a obrigatoriedade nem a opressão ligada à idéia de punição ou recompensa no alémvida das religiões ocidentais. Os deuses do panteísmo animista, antes de se constituírem em objetos de adoração sagrada, são, como na mitologia grega, seres com as mesmas fraquezas e virtudes do ser humano. Mas nem por isso deixam de ser objetos de veneração, porém, não se devotam a esses “kami” (deuses) assim como a qualquer antepassado, mais do que a cordialidade, a consideração e o respeito que se devotam aos membros da família, fazendo lhes a oferenda simbólica de água, alimentos e comunicação de ocasiões especiais, como casamento, nascimento e morte, no “kamidana” (santuário particular das residências).

A absorção do ideário religioso, sob as luzes do confucionismo, se fez com respeito e tolerância às peculiaridades de cada qual. Essa liberdade de crença é tão respeitada que guerras religiosas inexistiram no Japão, diferentemente do que ocorreu na Europa quando os exércitos foram aproveitados para cruzadas religiosas, após a queda do feudalismo. Ainda hoje, ocorrem guerras religiosas no mundo ocidental, onde forças ideologicamente antagônicas combatem-se mortalmente, às vezes cristãos contra cristãos. Talvez porque inexista entre o povo japonês o orgulho coletivo de pertencer a uma casta religiosa, isto é, o sentimento de exclusividade. Mas há sim, o sentimento de inclusividade. Ninguém é perseguido por credo religioso e inexiste a noção de fiel ou infiel a esta ou aquela religião porque todo japonês visita um santuário xintoísta em ocasiões festivas, participa de festivais populares xintoístas (matsuri), de cerimônias fúnebres budistas e tem fortemente arraigada a ética confucionista na sua formação moral.

Voltada desde as origens à solução dos problemas terrenos com foco na aquisição da sabedoria individual, o ideário religioso foi laicizado e absorvido pela cultura, incutindo no inconsciente coletivo o aperfeiçoamento pessoal como ideal de excelência de todo homem.

A secularização não enfraqueceu o espírito religioso deste povo. Embora, sob uma óptica racionalista, a crença, as práticas e rituais sejam característicos de uma religiosidade primitiva e retrógrada, seu cultivo proporcionou ao japonês segurança psicológica, paz de espírito e profunda fé na elevada essência do homem. Isto moldou seu comportamento, dando ao japonês uma compreensão respeitosa da sociedade e do indivíduo, ideal a que almejam todas as grandes religiões.

Tal estado de espírito faz do Japão o país que apresenta o menor índice de indivíduos afetados por doenças nervosas e mentais.

Fonte: Benedito Ferri de Barros

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

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4 Comentários
  • Nathalya Kelly 21/05/08 at 12:42

    eu quero a alimentaçao cultura e religiao do JAPÃO!!!!!!

  • maravilhoso

  • Em relação à última afirmação citada,

    “Tal estado de espírito faz do Japão o país que apresenta o menor índice de indivíduos afetados por doenças nervosas e mentais.”

    não seria um pouco (digamos) incongruente com o índice de suicídio no Japão?

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