O que os japoneses escrevem nos envelopes em cerimônias – III

O que os japoneses escrevem nos envelopes em cerimônias – III

150 150 Iochihiko Kaneoya

Em visita a enfermos, pessoas em dificuldade ou visita de cortesia a alguém em pleno esforço







  omimai – é donativo que se faz acompanhar de visita que se destina a encorajar,  confortar, apoiar, solidarizar ou contribuir. Donativo que se faz com a intenção de ajudar nas despesas do tratamento ou recuperação do enfermo, reconstrução de algo destruído ou perdido ou no encorajamento e apoio a pessoas abaladas por situação incomum. Por ex, atletas em concentração, políticos em campanha, alguém em pleno esforço em atividade eventual, com algum problema pessoal ou atingido por alguma desgraça.

Nessas visitas pode-se levar também comida: frutas, doces, pratos preparados, com a intenção de que com boa alimentação o visitado recupere logo as forças. Para simples  visitas sem motivo específico, é essa a alternativa utilizada. Alguns exemplos:

jinchuu mimai – para alguém que está em plena concentração de esforços. Ex. político em campanha, atleta em competição.

gakuyamimai – “gaku ya – bastidores”oferecido para cantores e artistas antes da apresentação.

kasaimimaikasai – incêndio” – para ajuda a vítima de incêndio.

suigaimimai – “suigai – danos provocados por inundação” – para ajuda a vítimas de inundação.

Em cerimônias fúnebres

A quantia a ser oferecida nessas ocasiões é proporcional à proximidade com o falecido. Doar quantias altas é apenas para os mais próximos, unidos por laços de consanguinidade, profissional ou de amizade. Donativos altos para os não próximos é estranho para os japoneses; é estar “fora do lugar”, isto é, “fora da hierarquia em relação ao morto”. Alguns tradicionalistas supersticiosos evitam doar a quantia em notas em números de 3, 4 e 9. Diz-se que o 3 tem a mesma inicial de mijime (miséria – 惨め ), o 4 a mesma pronúncia de shi (morte – 死  ) e o 9 tem a mesma inicial de kurou (sofrimento –苦労 ). O escrito deve estar de acordo com a crença religiosa do falecido e usa-se sempre o pincel japonês (fude –筆 ) e a tradicional tinta preta (sumi墨). A tonalidade da tinta deve ser clara, tendendo para o cinza, mostrando que foi dissolvida pelas lágrimas; indica sobriedade, recato. Menos comum, mas pode ser preta, bem escura, indicando cuidado no preparo; significa alta consideração à família enlutada ou ao morto. Até o primeiro ano não se fazem os cumprimentos e os tradicionais enfeites de Ano Novo.

Para budistas:

Os budistas costumam fazer a primeira missa no 7º dia do falecimento e após, em todos os dias múltiplos de sete até o sétimo (14º, 21º, 28º, 35º, 42º, 49º). Após, com exceção do 100º dia, todos os meses no dia do falecimento até completar um ano. Depois, faz-se após 1, 3, 7, 13, 17, 23, 27, 33 e 50 anos.  Para as cerimônias os budistas contam os anos incluindo-se o ano do falecimento, assim, no segundo ano do falecimento, celebra-se a missa de 3.º ano e assim por diante. A exceção é apenas para o primeiro ano quando celebram a primeira missa ao completar o primeiro ano de falecimento. Os xintoístas o fazem no 10º, 20º, 30º, 40º e 50º dia. Depois no 100º dia e após 1, 3, 5, 10, 20, 30, 50 e 100 anos. Os envelopes levam a inscrição:

koudenbukuro com o nó awajimusubi

御悔 ー okuyami – “condolências” – é o primeiro oferecimento ao falecido, entregue durante o velório.

gokouden – literalmente “aroma para cerimônia” ou “para o incenso”, é a ajuda para cobrir as despesas da cerimônia – usa-se em enterros ou missas comemorativas.

  – gokouryou – literalmente “fonte de aroma”. Tem o mesmo significado de gokouden.

gobutsuzen – literalmente “diante de Buda” – faz-se em cerimônias fúnebres  após a missa de 49º dia, mas há seita budista que adota esta inscrição desde a morte.

 – koukaryou –  “para flores e incenso” – tem o mesmo emprego de gokouden e gokouryou.

御弔料 -otomurairyou – “condolências” – oferecimento que o grupo oferece ao seu representante falecido.

Para xintoístas:

otamagushiryou – “para as despesas do tamagushi” (tamagushi = objeto sagrado no xintoísmo feito com ramos de sakaki e o gohei (papéis brancos trançados).

osakakiryou – “para a despesa de sakaki” (sakaki = planta considerada sagrada pelo xintoísmo).

御 神 前 goshinzen – “diante de deus” –

goshinsenryou – “para despesas de oferendas aos deuses”

御 膳 料 – (go) ozenryou – “para despesas de oferendas” – no xintoísmo costuma-se dispor num pequeno altar gêneros alimentícios como oferendas.

 Para cristãos:

  gokaryou – ohanaryou –  “para compra de flores”

gochouiryou – “ condolências”

御弔典 gochouden – “ condolências”

忌慰料 -kiiryou – ” condolências”

Para qualquer religião ou sem religião:

  goreizen – literalmente “diante do espírito” – faz-se em cerimônia fúnebre de xintoístas, cristãos ou qualquer religião que crê na existência da alma humana mas não tem a tradição do oferecimento do incenso ou flores. Embora pareça essa a tradição do oferecimento que serve para qualquer situação no Japão (impensável o ser humano sem espírito na cultura japonesa), não se pode deixar de considerar o uso das duas anteriores, mais adequadas, para os que não têm qualquer tradição religiosa ou crença.

É também utilizado no budismo nas cerimônias até o 49º dia. Após, usa-se gobutsuzen.

    – kenkaryou – “dinheiro para compra de flores”

goekouryou – “para despesas do culto ao falecido”

gotoubaryou  (otoubaryou) – “para despesa da inscrição na tabuleta” do nome do falecido.

御供物料gokumotsuryou  (okumotsuryou)–  “para oferendas”

Referências

BUTSUJI

FUJINO, Iwatomo. Kokkan heiyou shinjiten. Tokyo: Shubunkan-han, 1968.

HOUJI. In: Japan Guide. [S.l.]: Japan Guide, [s.d.]. Disponível em: <http://www.jp-guide.net/manner/ha/houji.html>. Acesso em: 09 out. 2011.

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KOUDEN. In: Wikipedia. [S.l.]: Wikipedia, [s.d.]. Disponível em: <http://ja.wikipedia.org/wiki/%E9%A6%99%E5%85%B8>. Acesso em: 09 out. 2011.

http://www.funeral.co.jp/qanda/q25.html – acessado em 08/01/2013.

MATSUE, Shigeo; YOSHIDA, Tosaku. Gendai kokugo jiten. Tokyo: Nippon bungeisha, 1981.

NENREI. In: Wikipedia. [S.l.]: Wikipedia, [s.d.]. Disponível em: <http://ja.wikipedia.org/wiki/%E5%B9%B4%E9%BD%A2#77.E6.AD.B3>. Acesso 09 out. 2011.

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TAKATSUKA, Takedo. Shodo santaijiten. Tokyo: Nobarasha, 2002

YAMADA, Toshio et al. Shinchou gendai kokugo jiten dainihan. Tokyo: Shinchoushahan, 2011.

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

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1 comentário
  • Ernesto Suguihara 3/10/13 at 22:57

    Matéria muito bem elaborada e útil, de grande ajuda para compreender um momento difícil na minha vida. Essa tradição demonstra a praticidade da cultura japonesa no apoio mútuo.

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