Pequeno histórico da imigração japonesa no Brasil | Antecedentes históricos

Pequeno histórico da imigração japonesa no Brasil | Antecedentes históricos

150 150 Iochihiko Kaneoya

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Pouca gente conhece o fato.







No final do século XVIII pescadores japoneses no barco a vela Wakamiya Maru,  ficaram à deriva no Mar do Japão. Os náufragos de Ishinomaki, feudo de Mutsu, atual província de Miyagi, foram recolhidos por navios russos e levados a São Petesburgo.  Alguns anos mais tarde, em 22 de dezembro de 1803,[1] quatro deles a bordo dos navios russos Nadezhda e Neva,  aportaram na cidade litorânea de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis (HARO, 1996, p. 150).  Aqui permaneceram até 4 de fevereiro de 1804[2] (HARO, 1996, p. 156) para reparos e abastecimento dos navios e um deles registrou suas impressões num pequeno diário.[3] Foram os primeiros japoneses a pisar solo brasileiro, e os primeiros japoneses a fazer a  circunavegação pelo globo (TAJIRI, YAMASHIRO in SOCIEDADE BRASILEIRA DE CULTURA JAPONESA, 1992, p. 59).[4]

Anos mais tarde em 1889, o príncipe Augusto Leopoldo, neto de D. Pedro II, ainda no trono, visitou o Japão, a bordo do navio-escola brasileiro Almirante Barroso, e teve uma audiência com o então imperador Meiji (TAJIRI, YAMASHIRO, in SBCJ, 1992, p. 60).

Em 1895, em Paris, Brasil e Japão assinaram o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação (idem).

Por essa época, o escritor Aluisio de Azevedo, aqui no Brasil, vivia dificuldades  financeiras e sem tempo para escrever seus romances. Escreveu ao seu amigo deputado Afonso Celso:

                  […]desejo ardentemente descobrir uma colocação qualquer, seja onde                   for, ainda que na China ou em Mato Grosso, contanto que me sirva de                     pretexto para continuar a existir e continuar a sarroliscar (escrever                        mal, suponho) os meus pobres romances […] ( AZEVEDO, 1984, p. 7-8).

Sem nenhuma perspectiva no Brasil, o brilhante autor de “O Cortiço” foi aprovado em concurso para cônsul na Secretaria do Exterior e, após breve passagem por Vigo, na Espanha, chega à cidade de Yokohama, no Japão, como vice-cônsul em 17 de abril de 1897 (Luiz Dantas in AZEVEDO, 1984, p. 7). O contato com uma cultura diferente desperta-lhe o interesse. Fez um pequeno estudo e publicou num livro intitulado “O Japão”.[5] Na única carta, datada de 14 de agosto de 1898, que escreveu de Yokohama, a seu irmão Artur de Azevedo, diz num dos trechos: “o grande caso é que meu livro há de ser verdadeiro, porque hei de entrar no coração do japonês como estou penetrando no íntimo do seu país e dos seus costumes” (AZEVEDO, 1984, p. 16). Luiz Dantas, comentarista do livro, nessa obra diz, referindo-se ao escritor:

              sentiu ao invés a sugestão profunda e forte da alma japonesa, e quis                         guardá-la em algumas páginas para virem dizer nos antípodas todo este               encanto inesperado de antigas virtudes, desconhecidas ou esquecidas                     no Ocidente, todos esses propósitos não dissimulados, que elaboravam,                 assimilando-as, as vantagens técnicas, de que é feita a civilização                             européia (Luiz Dantas in AZEVEDO, 1984, p. 13).

Aluísio quis publicar o livro ainda no Japão, mas seu procurador (possivelmente Graça Aranha), em vez de lhe enviar o dinheiro, o fez proprietário de “terras e areias” em Copacabana, contra a vontade do escritor. Só conseguiu publicá-lo após sua vinda ao Rio de Janeiro, em 1910, com a venda das terras adquiridas, cujos títulos de propriedade nem quis ver (ibidem p. 14).

Fatores políticos e econômicos ocorridos em fins do século XVIII mudaram radicalmente a organização da sociedade, propiciando movimentos migratórios pelo mundo a partir do século XIX. Os ideais iluministas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade da  Revolução Francesa no final do século XVIII, inspirariam movimentos abolicionistas do escravismo e independência das colônias, fatos que efetivamente ocorreram a partir das primeiras décadas do século XIX. As idéias da Revolução, de igualdade  e liberdade na busca de melhores condições de vida, predispõem o homem na busca de riqueza onde quer que ela se encontrasse e os novos países, colônias recém libertas com melhores expectativas de progresso, pareciam grandes atrativos de início de vida nova para o homem que vivera as misérias e rompera seus laços de vassalagem com o feudalismo opressor.

À Inglaterra, onde em 1760 principiou a Primeira Revolução Industrial com o uso da força do vapor na produção dos bens em massa, não mais interessava, economicamente, trabalhadores que não tinham salário e sim, gente que pudesse comprar o excedente de sua produção. Pioneiramente, então, em 1807, proíbe o tráfico de escravos. Aos países que se industrializavam, pelas mesmas razões, não interessava mais o regime escravocrata, ao contrário dos agrários que dele dependiam. O capital acumulado, propiciado por séculos de mercantilismo após a expansão marítima − grande parte advindo dos altos lucros do tráfico de escravos −, tinha agora foco na produção industrial, que precisava de compradores. Outrora uma das maiores traficantes de escravos do mundo, de cujos portos zarparam mais de dois mil navios negreiros, e que no regresso, com a lucrativa carga, eram recebidos por “presbíteros a fazer longos sermões, agradecendo a Deus pela possibilidade de “conduzir novas almas” ao rebanho divino”, agora se empenha na sua “política moralizadora dos mares” (BUENO, 1997, p. 146). E para “moralizar”, livrando os mares do tráfico negreiro, o parlamento britânico decreta em 1845 a lei Bill Aberdeen, que concedia unilateralmente aos comandantes britânicos poder de “abordar e inspecionar qualquer navio brasileiro em qualquer oceano” (ibidem p. 147).

Até ter excedente de produção − agora produzidas com o trabalho de máquinas − , “não se questionava as más condições de vida dos escravos em toda a América, tampouco se criticava a ordem escravista” (VICENTINO e DORIGO, 2002, p 392). O combate ao escravismo pelos ingleses tinha ainda o objetivo de conservar mão de obra no continente africano onde a Inglaterra estava iniciando empreendimentos (idem).

Antecipando-se a uma possível escassez de mão de obra para a lavoura brasileira, a dinastia Bragança, no Brasil desde 1808, na sua política de abertura dos portos, promove a primeira imigração em 1818, nas províncias do Rio de Janeiro e da Bahia com a vinda de imigrantes alemães e suíços (TAJIRI, YAMASHIRO in SBCJ, 1992, p. 20-21). Levas de imigrantes europeus sucederam-se então, mas muitas fracassaram pelas rápidas mudanças e excesso de regulamentos, pela inadequação da localização, das políticas de fixação das colônias e pela existência de maus agenciadores de emigrantes (ibidem p. 23). Muitos imigrantes logo passaram a fixar-se nas cidades, onde tinham melhores condições de vida, abandonando o campo. Alguns países proibiram a emigração de seus nativos para o Brasil pelas condições penosas de trabalho e por considerarem um choque cultural insuportável o trabalho ao lado de escravos, em condições muito mais penosas e humilhantes de trabalho e de vida (ibidem p. 24).

No Brasil os movimentos pela abolição ganham força com leis que restringiam gradativamente o emprego da mão de obra escrava, proibindo o tráfico (Lei Eusébio de Queirós, de 1850) e libertando partes da população escrava (Lei do Ventre Livre de 1871, Lei do Sexagenário de 1885). Antes, em 1827, o Brasil já assinara tratado com a Inglaterra comprometendo-se a não comercializar mão de obra escrava (BUENO, 1997, p. 146).

Com a extinção da escravatura em 1888, faltaram braços na lavoura. O Brasil precisava urgentemente suprir essa falta.

texto integral: pequeno histórico da imigração


[1] Segundo relato do capitão Urey Lisiansky, comandante do navio Neva.

[2] Idem

[3] Que foi publicado pelo Consulado Geral do Japão em Porto Alegre em 2003, em comemoração ao bicentenário do primeiro contato entre japoneses e brasileiros.

[4]  Doravante abreviada para SBCJ

[5] Disponível em www.bibvirt.futuro.usp.br     e  www.dominiopublico.gov.br

 

Bibliografia

AZEVEDO, Aluisio. O Japão. Roswitha Kempf: São Paulo, 1984.

BUENO, Eduardo. História do Brasil. Empresa Folha da Manhã S. A: São Paulo, 1997

HARO, Martim Afonso P. de (org). Ilha de Santa Catarina – Relato de viajantes estrangeiros nos séculos XVIII e XIX. UFSC: Florianópolis, 1996.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE CULTURA JAPONESA. Uma Epopeia Moderna. Hucitec: São Paulo, 1992.

VICENTINO, Cláudio e DORIGO Gianpaolo. História para o ensino médio. Scipione: São Paulo, 2002.

 

 

Iochihiko Kaneoya

Formado em Direito e mestrando em cultura japonesa pela Universidade de São Paulo - USP. Pesquisador da cultura japonesa.

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2 Comentários
  • Soube da obra “O Japão” do grande escritor Aluísio Azevedo através do site http://www.virtualbooks.com.br .
    Primeiro,ao ler de forma parcial(por ser muito longo e um pouco difícil a gramática para mim),senti que o autor tem uma certa tendência de amor ao Japão.Senti que não está escrevendo de posição neutra,que não é adequado para livro de história.
    Ao ler “Sobre o autor e obra” no final:Bingo!Ele foi diplomata no Japão.O que me assustou é que o autor escreveu essa longa obra mais de 100 anos atrás.
    Tentarei ler tudo,mas acho que precisa consultar dicionário tantas vezes.

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